15/08/26

Quando a democracia esquece o passado... Mas eu não esqueço... Jamais esquecerei.

de 1964 a 8 de janeiro de 2023 e o perigo permanente do autoritarismo

“Temos ódio e nojo à ditadura.”

A frase pronunciada por Ulysses Guimarães em 5 de outubro de 1988 permanece como uma das declarações mais contundentes da história democrática brasileira. Naquele dia, ao promulgar a Constituição Federal, Ulysses não estava apenas encerrando formalmente os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte. Estava simbolicamente fechando uma porta que o Brasil jamais deveria voltar a abrir: a porta do autoritarismo, da censura, da perseguição política, da tortura e do poder sem limites.

É importante, entretanto, separar história de montagem digital. Não há registro autêntico de Ulysses, naquele discurso de 1988, fazendo a denúncia nominal de Jair Bolsonaro que atualmente circula em vídeos nas redes sociais. O discurso original está preservado no acervo da Câmara dos Deputados, e verificações recentes demonstraram que vídeos que atribuem a Ulysses críticas específicas a Bolsonaro foram manipulados por inteligência artificial.

Mas existe algo ainda mais importante: o conteúdo verdadeiro do discurso de Ulysses é suficientemente poderoso sem precisar ser adulterado.

Ele sabia, como poucos homens de sua geração, o que significava perder a democracia.

1964: quando o discurso de “salvar a democracia” terminou em ditadura

Em 1964, o Brasil viveu uma ruptura institucional. O governo constitucional de João Goulart foi derrubado e os militares assumiram o controle do Estado.

Durante décadas, setores favoráveis ao regime tentaram apresentar aquele episódio como uma “Revolução de 1964” destinada a impedir que o Brasil se transformasse em uma ditadura comunista.

Essa narrativa, porém, não explica o que veio depois.

O que veio depois foram Atos Institucionais, cassações de mandatos, perseguições políticas, censura, prisões arbitrárias, tortura, assassinatos e desaparecimentos forçados.

O regime que dizia defender a democracia suspendeu direitos democráticos.

E existe outro elemento que não pode ser ignorado: a participação dos Estados Unidos.

Documentos históricos mostram que Washington acompanhava cuidadosamente a crise brasileira e preparou a Operação Brother Sam, destinada a oferecer apoio logístico aos militares brasileiros caso fosse necessário. A Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos registra que o governo norte-americano desejava garantir no Brasil um governo alinhado aos interesses americanos e anticomunista.

Documentos preservados nos arquivos americanos mostram inclusive comunicações dos chefes militares dos Estados Unidos sobre a operação e o envio de recursos e armamentos.

É uma das grandes ironias da Guerra Fria: em nome da defesa da “democracia” contra o comunismo, uma potência estrangeira apoiava logisticamente uma ruptura da ordem constitucional brasileira.

A história precisa ser lembrada justamente para que determinadas palavras não sejam utilizadas para esconder seus resultados.

A ditadura não foi apenas um governo militar

Outro erro comum é imaginar que a ditadura brasileira consistiu simplesmente em militares ocupando cargos no governo.

Não.

Tratava-se de um sistema político autoritário que criou mecanismos institucionais de repressão.

Existiam órgãos de inteligência, estruturas policiais, centros de interrogatório e mecanismos destinados a localizar, prender e destruir aqueles considerados inimigos do regime.

Entre esses lugares esteve o DOI-CODI de São Paulo.

E é nesse ponto que o nome de Carlos Alberto Brilhante Ustra se torna impossível de ignorar.

Ustra comandou o DOI-CODI do II Exército, em São Paulo, entre 1970 e 1974. Documentos produzidos por comissões de verdade associam sua atuação a graves violações de direitos humanos, incluindo sequestros, torturas, assassinatos e desaparecimentos forçados.

A Comissão da Memória e Verdade de São Paulo registra estimativa de dezenas de mortes relacionadas ao DOI-CODI paulista durante o período em que Ustra esteve no comando.

A Comissão Nacional da Verdade foi criada justamente para investigar graves violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988 e produziu um relatório final em três volumes.

Não estamos, portanto, diante de uma simples disputa entre “opiniões de esquerda e de direita”.

Estamos diante de documentos, testemunhos, investigações históricas e registros oficiais sobre violações cometidas pelo Estado.

O que significa tortura praticada pelo Estado?

Tortura não é método legítimo de investigação.

Tortura não é patriotismo.

Tortura não é combate ao comunismo.

Tortura não é defesa da família.

Tortura não é defesa da ordem.

Tortura é a destruição deliberada da dignidade humana.

O preso político não precisava ser culpado de qualquer crime para ser submetido à violência. Bastava ser considerado suspeito, opositor ou integrante de uma organização considerada inimiga.

Homens e mulheres foram presos clandestinamente. Famílias foram destruídas. Pessoas desapareceram. Cadáveres foram ocultados. Informações foram falsificadas.

Há casos documentados de pessoas mortas sob tortura nas dependências do DOI-CODI paulista. O caso de Luiz Eduardo da Rocha Merlino, por exemplo, consta dos registros da Comissão da Verdade de São Paulo como morte sob tortura, com a cadeia de comando apontando para o DOI-CODI comandado por Ustra.

É preciso ter coragem para olhar para essa história.

Porque quem relativiza a tortura está ensinando às próximas gerações que determinados seres humanos podem perder seus direitos quando o Estado decide classificá-los como inimigos.

E essa é precisamente a lógica que uma democracia deve impedir.

A questão Bolsonaro e o culto ao passado autoritário

Jair Bolsonaro entrou na política institucional no final dos anos 1980, tornando-se vereador do Rio de Janeiro em 1989. Portanto, também aqui é necessário evitar anacronismos: Ulysses não poderia ter feito em 5 de outubro de 1988 o discurso específico que hoje circula nas redes sociais contra Bolsonaro.

Mas existe um episódio posterior, perfeitamente documentado, que ajuda a compreender a associação política entre Bolsonaro e a memória da ditadura.

Durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, Jair Bolsonaro dedicou seu voto à memória de Carlos Alberto Brilhante Ustra.

Esse fato não é invenção de adversários políticos. Está registrado historicamente.

E essa homenagem é particularmente significativa porque Ustra não é uma figura neutra na história brasileira. Seu nome aparece nos registros das comissões de verdade associado a graves violações de direitos humanos.

É perfeitamente legítimo discutir politicamente a trajetória de Bolsonaro. O que não é legítimo, do ponto de vista histórico, é transformar fatos comprovados em propaganda falsa.

A democracia precisa de verdade.

E chegamos ao 8 de janeiro de 2023

Aqui a história ganha uma dimensão ainda mais preocupante.

Em 8 de janeiro de 2023, grupos invadiram e depredaram as sedes do Supremo Tribunal Federal, do Congresso Nacional e do Palácio do Planalto.

Não foi uma simples manifestação política.

Foi uma agressão contra as instituições republicanas.

O próprio STF registrou que os edifícios dos Três Poderes foram severamente vandalizados e que as instituições precisaram reconstruir suas instalações após os ataques.

Posteriormente, investigações e processos passaram a examinar diferentes núcleos e responsabilidades relacionados aos atos antidemocráticos. Em abril de 2026, o STF divulgou balanço atualizado das investigações e condenações, registrando milhares de medidas processuais relacionadas aos acontecimentos.

Portanto, quando alguém afirma que o 8 de janeiro foi apenas uma “manifestação de indignados”, está apagando uma parte essencial dos acontecimentos.

Manifestação política é direito democrático.

Invadir prédios públicos para impedir ou pressionar o funcionamento das instituições é outra coisa.

A perigosa fabricação do inimigo

É aqui que chegamos ao problema mais profundo.

Nenhuma democracia morre somente porque um governante decide destruí-la.

Ela começa a morrer quando uma parcela da sociedade passa a acreditar que determinados cidadãos não deveriam ter os mesmos direitos que ela.

Quando o adversário político deixa de ser adversário e passa a ser “inimigo”.

Quando juiz passa a ser tratado como inimigo do povo simplesmente porque toma decisões desagradáveis.

Quando jornalistas são considerados traidores porque criticam o governo.

Quando professores são acusados de doutrinação simplesmente porque ensinam história.

Quando universidades passam a ser tratadas como centros de conspiração.

Quando instituições eleitorais são demonizadas porque o resultado das urnas não agradou.

Quando o Supremo Tribunal Federal é apresentado como uma organização criminosa simplesmente porque exerce sua função constitucional.

Essa lógica é perigosíssima.

É preciso poder criticar o STF.

É preciso poder criticar ministros.

É preciso poder criticar o Congresso.

É preciso poder criticar o presidente.

É preciso poder questionar decisões judiciais dentro dos instrumentos legais.

Mas criticar uma instituição é completamente diferente de destruir sua legitimidade perante a sociedade para justificar sua eliminação.

As urnas eletrônicas e a desconfiança como arma política

Outro ponto fundamental é a transformação da desconfiança eleitoral em instrumento permanente de mobilização.

Em uma democracia, perder uma eleição não significa que o sistema inteiro foi fraudado.

Significa que o eleitorado escolheu outro candidato.

Se existem evidências concretas de fraude, elas devem ser apresentadas e examinadas pelos mecanismos institucionais.

Mas transformar suspeitas sem provas em uma certeza absoluta é outra coisa.

É uma forma de preparar psicologicamente a população para rejeitar antecipadamente qualquer resultado eleitoral desfavorável.

E isso representa um risco enorme.

Porque uma democracia depende de uma regra elementar:

quem ganha governa dentro da Constituição; quem perde fiscaliza, critica e se prepara para disputar novamente.

Se o derrotado decide que só aceitará uma eleição quando vencer, já não estamos falando de democracia.

Estamos falando de personalismo político.

A alienação dos pobres contra os próprios interesses

Existe ainda uma questão social que merece reflexão.

É possível encontrar trabalhadores pobres defendendo políticas que podem prejudicar trabalhadores pobres.

É possível encontrar pessoas negras apoiando discursos de discriminação.

É possível encontrar cidadãos que dependem dos serviços públicos defendendo a destruição de políticas públicas.

É possível encontrar trabalhadores defendendo privilégios que beneficiam principalmente aqueles que possuem muito mais poder econômico.

Isso acontece porque o comportamento político não é determinado exclusivamente pela condição econômica.

Identidade, religião, medo, ressentimento, pertencimento, propaganda, desinformação, valores familiares e percepção de ameaça também influenciam profundamente as escolhas políticas.

Por isso é inadequado simplesmente chamar essas pessoas de “burras” ou “ignorantes”.

O problema é mais complexo.

A manipulação política funciona justamente porque transforma problemas reais em inimigos imaginários.

O trabalhador que está desempregado pode ser convencido de que o culpado é o imigrante.

O pobre pode ser convencido de que o inimigo é outro pobre que recebe uma política social.

O cidadão pode ser convencido de que o problema é o Supremo.

O eleitor pode ser convencido de que jornalistas são seus inimigos.

O indivíduo pode ser convencido de que qualquer pessoa que pensa diferente é uma ameaça.

Assim nasce uma sociedade fragmentada.

E uma sociedade fragmentada é muito mais fácil de manipular.

Mas não devemos repetir o mesmo erro no sentido inverso

Também é necessário fazer uma crítica à esquerda, ao centro e a qualquer setor político que caia na tentação de tratar milhões de brasileiros como inimigos.

Não se combate autoritarismo com autoritarismo.

Não se combate propaganda com mentira.

Não se combate extremismo desumanizando pessoas.

É perfeitamente possível condenar ideias autoritárias sem odiar todos aqueles que foram atraídos por elas.

Uma democracia madura precisa convencer.

Precisa educar.

Precisa apresentar fatos.

Precisa mostrar contradições.

Precisa defender direitos inclusive para aqueles que discordam dela.

Caso contrário, acabaremos reproduzindo aquilo que estamos tentando combater.

O alerta de Ulysses continua atual

Embora seja incorreto atribuir a Ulysses uma previsão específica sobre Bolsonaro em 1988, suas palavras daquele dia continuam assustadoramente atuais.

Ulysses advertiu contra o caminho da ruptura constitucional, contra o fechamento do Parlamento e contra a destruição das liberdades.

O acervo oficial da Câmara registra seu discurso de 5 de outubro de 1988 como o pronunciamento de promulgação da Constituição, no qual ressaltou a importância dos direitos, das instituições e da democracia.

A grandeza de Ulysses não está em ter previsto nominalmente um personagem futuro.

Está em ter compreendido uma verdade política permanente:

instituições democráticas precisam ser defendidas antes que sejam destruídas.

O perigo de uma nova tentativa autoritária

O Brasil precisa olhar com extrema atenção para qualquer movimento político que:

  • ataque sistematicamente a legitimidade das eleições;
  • apresente adversários como inimigos nacionais;
  • incentive a desconfiança absoluta nas instituições;
  • defenda intervenção militar contra governos legitimamente eleitos;
  • trate a Constituição como obstáculo;
  • tente transformar Forças Armadas em instrumento partidário;
  • glorifique torturadores;
  • incentive violência política;
  • ataque jornalistas e pesquisadores;
  • transforme o Supremo Tribunal Federal em inimigo absoluto;
  • ou tente convencer a sociedade de que somente um determinado líder pode “salvar” o país.

Nenhum desses comportamentos pertence ao funcionamento normal de uma democracia.

E a experiência brasileira demonstra que rupturas institucionais nunca são tão simples quanto seus defensores prometem.

Em 1964 disseram que seria necessário salvar o Brasil.

O resultado foi uma ditadura que durou duas décadas.

Em 1988, Ulysses ajudou a construir uma Constituição destinada justamente a impedir que aquilo se repetisse.

Em 2023, os prédios dos Três Poderes foram novamente atacados por aqueles que recusavam a legitimidade do resultado eleitoral e defendiam uma ruptura institucional.

A história, portanto, não é uma linha reta.

Ela pode retroceder.

Acorda, Brasil

O maior perigo talvez não seja apenas o político autoritário.

O maior perigo é a sociedade se acostumar com o autoritarismo.

É o cidadão achar normal pedir fechamento do Supremo.

É achar normal pedir intervenção militar porque perdeu uma eleição.

É achar normal homenagear torturadores.

É achar normal ameaçar jornalistas.

É achar normal espalhar mentira eleitoral.

É achar normal chamar milhões de brasileiros de inimigos.

É achar que democracia só é boa quando o candidato de sua preferência vence.

Não.

Democracia é aceitar que o outro também tem direitos.

Democracia é aceitar que o adversário político continuará existindo amanhã.

Democracia é aceitar que um juiz pode contrariar você.

Democracia é aceitar que uma eleição pode produzir um resultado que você detesta.

Democracia é poder protestar sem destruir as instituições.

Democracia é poder criticar o presidente sem ser preso por isso.

Democracia é poder criticar o Supremo sem transformar crítica em tentativa de destruição institucional.

Democracia é, acima de tudo, reconhecer que nenhum homem é maior que a República.

Nem Bolsonaro.

Nem Lula.

Nem qualquer presidente.

Nem qualquer ministro.

Nem qualquer general.

Nem qualquer deputado.

Nem qualquer partido.

A Constituição é maior.

O Estado Democrático de Direito é maior.

A República é maior.

E é exatamente por isso que o Brasil precisa permanecer vigilante.

Não se trata de viver permanentemente com medo de uma nova ditadura. Trata-se de compreender que a democracia precisa ser cultivada diariamente.

As instituições precisam ser aperfeiçoadas, não destruídas.

As urnas precisam ser fiscalizadas, não demonizadas sem provas.

O Supremo pode ser criticado, mas não pode ser transformado em inimigo público por conveniência política.

As Forças Armadas devem permanecer subordinadas à Constituição, e não a projetos pessoais de poder.

E a memória das vítimas da ditadura precisa permanecer viva para que ninguém volte a acreditar que tortura, censura, desaparecimento e violência de Estado sejam instrumentos aceitáveis de governo.

Ulysses Guimarães não previu nominalmente Bolsonaro em 1988.

Mas deixou uma mensagem que atravessa gerações:

“Temos ódio e nojo à ditadura.”

Essa frase não pertence à esquerda.

Não pertence à direita.

Não pertence a um partido.

Pertence à memória democrática brasileira.

E talvez seja exatamente isso que o Brasil precise compreender novamente:

a democracia não é propriedade de quem venceu a eleição. É o patrimônio também de quem perdeu.

Acorda, Brasil.

Não porque amanhã necessariamente haverá uma nova ruptura.

Mas porque nenhuma sociedade responsável espera a democracia ser destruída para só então perceber que deveria tê-la defendido.

A democracia precisa ser defendida antes do incêndio.

Depois dele, pode ser tarde demais.

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