Tanto a Doutrina Monroe quanto o slogan "America First" são frequentemente ensinados e promovidos como políticas patrióticas de defesa e soberania.
Aqui está um panorama de como essas políticas moldaram a história e afetam as minorias e a classe trabalhadora hoje.
Proclamada em 1823 pelo presidente James Monroe, a doutrina declarava que as Américas não deveriam mais ser alvo de colonização europeia.
O Roubo dos Povos Nativos: A Doutrina Monroe simplesmente não reconhecia a existência ou os direitos dos povos indígenas.
Qualquer território que não fosse propriedade europeia era visto como domínio "potencial" dos Estados Unidos. Isso serviu de base ideológica para o Destino Manifesto, justificando o avanço para o oeste, que resultou na expropriação violenta de terras, quebra de tratados e quase extermínio de diversas nações nativas norte-americanas. Intervenções no Caribe e América Latina: No início do século XX, o presidente Theodore Roosevelt adicionou o "Corolário Roosevelt" à doutrina (a política do Big Stick, ou "Grande Porrete").
Isso transformou os EUA em uma "polícia internacional", justificando ocupações militares brutais, golpes de estado e controle econômico em países como Panamá, Cuba, Nicarágua, Haiti e República Dominicana.
As Raízes Sombrias do "America First"
Quando Donald Trump ressuscitou o slogan "America First" (América em Primeiro Lugar), ele trouxe de volta uma frase com um passado profundamente excludente e racista.
Simpatia Fascista e Antissemitismo: O America First Committee foi criado em 1940 para tentar manter os EUA fora da Segunda Guerra Mundial.
Embora tivesse apoiadores variados, seus principais porta-vozes, como o aviador Charles Lindbergh, usavam abertamente retórica antissemita e expressavam simpatia pela Alemanha Nazista, defendendo a criação de um "muro ocidental de raça e armas" para evitar a "infiltração de sangue inferior". A Extrema-Direita Moderna: Hoje, políticos e grupos de extrema-direita usam o "America First" não apenas como protecionismo econômico, mas como um apito de cachorro para o nacionalismo cristão e o supremacismo branco.
O slogan é frequentemente acompanhado por teorias da conspiração, como a "grande substituição", que retrata imigrantes e minorias como invasores que ameaçam a identidade nacional.
O Impacto nas Minorias e a Realidade Econômica
A retórica da extrema-direita tem impactos devastadores sobre os imigrantes, os trabalhadores humildes e as minorias estadunidenses.
No entanto, essa narrativa entra em conflito direto com a realidade de quem constrói e sustenta a economia dos Estados Unidos:
A Espinha Dorsal do Trabalho Pesado: Os imigrantes compõem cerca de 19,1% de toda a força de trabalho civil dos EUA.
Eles são a base de indústrias essenciais e exaustivas: representam mais de 25% dos trabalhadores da construção civil e mais de 25% dos trabalhadores agrícolas. Sustentando a Economia e os Aposentados:
Imigrantes (incluindo os indocumentados) geram um enorme superávit fiscal. Em 2022, eles pagaram quase US$ 383 bilhões em impostos federais e mais de US$ 196 bilhões em impostos estaduais e locais. Esse dinheiro ajuda a sustentar programas como o Medicare e o Social Security (previdência) para os cidadãos americanos, benefícios aos quais muitos desses imigrantes nunca terão acesso. O Custo da Exclusão:
Políticas de deportação em massa e restrição severa de fronteiras não "devolvem empregos" aos nativos. Pelo contrário: reduzem a base de consumidores, geram escassez de mão de obra (o que aumenta a inflação de alimentos e serviços) e prejudicam o crescimento do PIB.
O verniz de "América em Primeiro Lugar" frequentemente serve para proteger os interesses de uma elite econômica, enquanto joga a classe trabalhadora branca contra trabalhadores imigrantes e minorias, dividindo e enfraquecendo aqueles que mais lutam para sobreviver.
Fonte: The British Academy
As ocupações do Haiti (1915–1934) e da República Dominicana (1916–1924) são exemplos clássicos de como o "Corolário Roosevelt" da Doutrina Monroe foi aplicado na prática. O pretexto oficial era sempre "restaurar a ordem", "civilizar" ou impedir que potências europeias (especialmente a Alemanha, às vésperas da Primeira Guerra Mundial) cobrassem dívidas à força no Caribe.
A realidade, no entanto, foi a imposição de controle militar direto para proteger interesses corporativos estadunidenses, garantir o pagamento de dívidas a bancos de Wall Street e expropriar terras.
A Ocupação do Haiti (1915–1934)
Em 1915, após o assassinato do presidente haitiano Vilbrun Guillaume Sam durante uma revolta, o presidente dos EUA, Woodrow Wilson, ordenou o desembarque de fuzileiros navais em Porto Príncipe. O verdadeiro temor, porém, era que a instabilidade ameaçasse os interesses do National City Bank of New York (atual Citibank), que já controlava grande parte da dívida haitiana e do banco nacional do país.
Controle e Mudança Constitucional: Os militares dos EUA forçaram a eleição de um presidente pró-americano e redigiram uma nova constituição para o Haiti. O ponto mais controverso dessa nova lei foi permitir que estrangeiros comprassem terras no Haiti — algo que a nação caribenha havia proibido desde sua independência em 1804 para evitar o retorno da escravidão ou do controle colonial.
Trabalho Forçado (A Corvée): Para construir infraestrutura (estradas que facilitariam a movimentação de tropas e mercadorias dos EUA), os fuzileiros navais ressuscitaram um sistema de trabalho forçado chamado corvée. Haitianos eram arrancados de suas casas e forçados a trabalhar acorrentados, sob a mira de armas.
A Resistência dos Cacos: A brutalidade gerou uma forte resistência armada camponesa, conhecida como a rebelião dos Cacos, liderada por Charlemagne Péralte. Os EUA responderam com extrema violência. Quando Péralte foi capturado e assassinado em 1919, os fuzileiros navais fotografaram seu corpo amarrado a uma porta em uma pose de crucificação e distribuíram a imagem para aterrorizar a população. Em vez de medo, a foto o transformou em um mártir.
A Ocupação da República Dominicana (1916–1924)
No país vizinho, a história seguiu um roteiro semelhante. Em 1916, a República Dominicana estava atolada em dívidas e guerra civil. Usando o pretexto de que o país havia violado um acordo anterior de pagamento de dívidas, os EUA enviaram a Marinha.
Governo Militar Direto: Diferente do Haiti, onde os EUA mantiveram uma fachada de governo local, na República Dominicana o Capitão Harry S. Knapp estabeleceu um governo militar direto dos EUA. O exército dominicano foi dissolvido.
Interesses Açucareiros: O principal objetivo econômico era estabilizar e proteger a indústria açucareira, que estava sendo comprada por corporações estadunidenses. O governo militar reformulou as leis de propriedade de terras (assim como no Haiti), facilitando para que empresas dos EUA tomassem terras de camponeses dominicanos para expandir os canaviais.
Censura e Guerra de Guerrilha: A ocupação impôs forte censura à imprensa. No leste do país, uma feroz guerra de guerrilha eclodiu contra os ocupantes. Os rebeldes, chamados pejorativamente de gavilleros (bandidos) pelas forças americanas, lutaram até 1922.
O Legado Compartilhado: A Base para as Ditaduras
O legado mais duradouro (e destrutivo) dessas ocupações não foram as estradas construídas, mas o aparato de segurança deixado para trás.
Para poderem retirar suas tropas sem perder o controle, os EUA criaram e treinaram forças de segurança centralizadas e implacáveis em ambos os países: a Gendarmerie d'Haïti e a Guardia Nacional Dominicana. Essas instituições, treinadas para suprimir suas próprias populações e não para defender o país de ameaças externas, pavimentaram o caminho para ditaduras brutais.
Na República Dominicana, o chefe da Guardia Nacional treinada pelos EUA usou a força policial para tomar o poder após a saída americana. O nome dele era Rafael Trujillo, que governou o país com mão de ferro (e apoio americano) por mais de 30 anos. No Haiti, a Guarda Nacional centralizou o poder em Porto Príncipe, criando a estrutura repressiva que, mais tarde, seria explorada pela dinastia ditatorial da família Duvalier.
O caso de Cuba é, talvez, o exemplo mais cínico de como os Estados Unidos usaram a retórica de "libertação" para mascarar um projeto de dominação econômica e territorial no Caribe, em linha direta com os princípios da Doutrina Monroe.
No final do século XIX, os cubanos já estavam em uma guerra sangrenta e quase vitoriosa pela independência contra a Espanha. Em 1898, sob o pretexto de ajudar os rebeldes (e após a misteriosa explosão do navio USS Maine no porto de Havana), os EUA declararam guerra à Espanha.
A Guerra Hispano-Americana durou apenas alguns meses. Mas quando a poeira baixou, os cubanos descobriram que não haviam conquistado a independência, mas sim trocado de dono.
De Aliados a Ocupantes: O Fim da Guerra (1898)
No Tratado de Paris de 1898, que encerrou a guerra, a Espanha cedeu o controle de Cuba, Porto Rico, Guam e das Filipinas. O detalhe crucial: nenhum representante cubano foi convidado para a assinatura do tratado. O destino de Cuba foi decidido entre Madri e Washington.
Em vez de entregar o poder aos líderes revolucionários cubanos, os EUA instalaram um governo militar em Havana que durou de 1898 a 1902. O exército rebelde cubano foi desarmado e marginalizado.
A Emenda Platt: A "Independência" Acorrentada (1901)
O golpe de mestre do imperialismo estadunidense em Cuba veio em 1901, com a Emenda Platt. Os EUA declararam que só retirariam suas tropas da ilha se os cubanos incluíssem este documento, redigido pelo Congresso dos EUA, em sua nova Constituição. Sob a ameaça de ocupação militar permanente, Cuba cedeu.
A Emenda Platt transformou Cuba em um protetorado legal dos EUA. Seus principais pontos estabeleciam que:
Direito de Intervenção: Os EUA tinham o direito legal de intervir militarmente em Cuba a qualquer momento para "preservar a independência cubana" ou manter um governo adequado para a "proteção da vida, propriedade e liberdade individual" (o que, na prática, significava proteger os negócios americanos).
Controle da Política Externa e Dívidas: Cuba estava proibida de assinar tratados com outras potências estrangeiras que os EUA considerassem uma ameaça e não podia contrair dívidas públicas além de sua capacidade de pagamento (evitando que bancos europeus tivessem desculpas para intervir, pura Doutrina Monroe).
Bases Navais (O Legado de Guantánamo): Cuba foi forçada a vender ou arrendar terras para a criação de estações navais de carvão e bases marítimas dos EUA. É exatamente por causa da Emenda Platt que a Base Naval da Baía de Guantánamo existe até hoje em território cubano.
A Exploração Econômica: Uma Colônia de Wall Street
Com a política cubana subjugada, o caminho estava livre para a invasão econômica.
O Monopólio do Açúcar: Empresas estadunidenses entraram em Cuba e compraram vastas extensões de terra a preços de banana (muitas vezes de cubanos que haviam sido arruinados pela guerra de independência). Em pouco tempo, corporações dos EUA controlavam as maiores e mais lucrativas plantações de cana-de-açúcar da ilha.
Domínio Total da Infraestrutura: O capital estadunidense passou a dominar as ferrovias, as companhias de eletricidade, as refinarias, as minas e os serviços telefônicos. A economia de Cuba foi estruturada para produzir açúcar barato para os EUA e importar produtos manufaturados americanos, esmagando qualquer chance de desenvolvimento industrial independente.
As Consequências e a Revolução
Os EUA usaram o direito de intervenção da Emenda Platt repetidas vezes. Fuzileiros navais voltaram a ocupar Cuba entre 1906 e 1909, e novamente em 1912 (para esmagar um protesto de trabalhadores afro-cubanos que exigiam igualdade, resultando em um massacre) e em 1917.
Sempre que o governo cubano ameaçava os interesses das corporações açucareiras, ou quando protestos populares ganhavam força, Washington enviava navios de guerra. Para manter o controle, os EUA frequentemente apoiaram governos corruptos e brutais, culminando no apoio à ditadura de Fulgencio Batista décadas depois.
A revogação formal da Emenda Platt só ocorreu em 1934 (embora Guantánamo tenha sido mantida). No entanto, o ressentimento profundo contra essas décadas de dominação econômica, humilhação nacional e soberania roubada foi o principal combustível que alimentou a Revolução Cubana de 1959.
O massacre de 1912 em Cuba (frequentemente chamado de A Guerra de 1912 ou o Massacre do Partido Independiente de Color) é um dos episódios mais sombrios da história cubana e mostra exatamente como a intervenção dos EUA, somada ao racismo já existente na ilha, criou uma tempestade perfeita de violência contra a população negra.
Para entender o massacre, é preciso entender quem lutou pela independência e quem acabou ficando com o poder.
A Traição Pós-Independência
Durante as guerras de independência de Cuba contra a Espanha (1868–1898), os afro-cubanos foram fundamentais. Eles compunham até 80% do Exército Libertador Cubano (Mambises). Líderes negros, como o General Antonio Maceo, eram heróis nacionais. A promessa da revolução era uma Cuba de igualdade racial, resumida na frase de José Martí: "Cubano é mais do que branco, mais do que mulato, mais do que negro".
No entanto, quando os EUA intervieram em 1898 e ocuparam a ilha, essa promessa foi destruída.
A Importação da Segregação: As tropas de ocupação dos EUA e os administradores americanos trouxeram consigo a mentalidade de Jim Crow (leis de segregação racial do sul dos EUA). Eles se recusaram a lidar com líderes militares negros cubanos, desarmaram as tropas afro-cubanas e colocaram cubanos brancos — muitos dos quais haviam sido leais à Espanha — em posições de poder.
Marginalização Econômica: Com a entrada maciça de capital americano (protegida pela Emenda Platt, que discutimos antes), os afro-cubanos foram sistematicamente excluídos dos novos empregos nas corporações americanas, no serviço público e nas forças policiais recém-criadas. Além disso, o governo cubano, pressionado por investidores brancos, incentivou a imigração de espanhóis para "branquear" a força de trabalho e a população.
O Surgimento do Partido Independiente de Color (PIC)
Frustrados com a exclusão política e econômica, veteranos afro-cubanos, liderados por Evaristo Estenoz e Pedro Ivonnet, fundaram o Partido Independiente de Color (PIC) em 1908. Foi o primeiro partido político negro fundado fora do continente africano.
Eles não pediam o separatismo. Pediam o que lhes havia sido prometido: igualdade de acesso a empregos públicos, o fim da discriminação e a expansão da educação pública. O partido ganhou força rapidamente, o que aterrorizou a elite branca cubana e os investidores americanos.
Em 1910, o governo cubano (liderado por José Miguel Gómez) aprovou a Emenda Morúa, que baniu partidos políticos baseados em raça, tornando o PIC ilegal da noite para o dia.
O Massacre de 1912
Em maio de 1912, o PIC organizou um protesto armado na província de Oriente (onde a população negra era majoritária). O objetivo não era uma guerra civil, mas forçar o governo a revogar a Emenda Morúa e permitir que o partido participasse das eleições.
Foi aqui que a sombra dos Estados Unidos e a Emenda Platt selaram o destino dos afro-cubanos.
A Ameaça Americana: O presidente dos EUA, William Howard Taft, invocou a Emenda Platt e enviou navios de guerra e fuzileiros navais para a base de Guantánamo. A mensagem para o governo cubano foi clara: se vocês não esmagarem essa rebelião negra e protegerem as propriedades americanas (as plantações de açúcar), nós ocuparemos Cuba novamente e tiraremos vocês do poder.
A Histeria e a Matança: Pressionado pelos EUA e movido pelo próprio racismo, o presidente cubano lançou o exército nacional, milícias brancas e guardas rurais contra a população negra. A imprensa espalhou pânico, inventando histórias de que os negros estavam estuprando mulheres brancas e planejando um "Haiti em Cuba" (o maior medo das elites brancas de toda a América Latina).
O Resultado: O que se seguiu não foi uma batalha, foi um massacre. Qualquer afro-cubano, membro do PIC ou não, que parecesse suspeito foi caçado. Estima-se que entre 3.000 e 6.000 afro-cubanos foram brutalmente assassinados em poucas semanas. Evaristo Estenoz e Pedro Ivonnet foram caçados e executados pelas forças do governo.
O massacre de 1912 foi um golpe devastador. Ele desmantelou o movimento político negro em Cuba e enviou uma mensagem aterrorizante de que qualquer tentativa de organização racial seria recebida com extermínio, garantindo a subordinação política dos afro-cubanos pelas décadas seguintes. O medo de uma nova intervenção americana sob a Emenda Platt foi a alavanca que o governo cubano usou para justificar o banho de sangue.
A Revolução Haitiana (1791–1804) foi um evento sem precedentes: a primeira e única revolta de escravizados na história da humanidade que resultou na fundação de um Estado livre e independente. Para os negros escravizados nas Américas, o Haiti tornou-se um farol de esperança. Para as elites brancas e donos de escravos, tornou-se o pesadelo absoluto.
O medo de que o exemplo haitiano se espalhasse gerou um fenômeno conhecido como "haitianismo" — um pânico moral e político que moldou severamente as políticas internas e externas de países escravocratas, especialmente os Estados Unidos e o Brasil.
O "Cordão Sanitário" dos Estados Unidos
Quando o Haiti declarou independência da França em 1804, os EUA (que na época tinham Thomas Jefferson, um dono de escravos, como presidente) reagiram com pânico imediato. O sul dos EUA dependia do trabalho escravo, e a ideia de que os negros pudessem se organizar, derrotar exércitos europeus e governar a si mesmos era uma ameaça existencial ao sistema americano.
Isolamento Diplomático e Econômico: Os EUA, junto com potências europeias, impuseram um embargo brutal ao Haiti. O governo americano se recusou a reconhecer a independência haitiana por quase seis décadas. O reconhecimento oficial só veio em 1862, durante a Guerra Civil Americana, quando o presidente Abraham Lincoln já estava em conflito aberto com o sul escravocrata.
Controle Interno Rígido: O medo de infiltradores haitianos levou a um endurecimento das leis em estados do sul. Leis foram aprovadas para impedir a entrada de marinheiros negros livres vindos do Caribe em portos americanos, por medo de que trouxessem ideias de liberdade e revolta. As restrições sobre a educação de escravizados e a circulação de negros livres tornaram-se muito mais severas.
O Destino Manifesto "Branco": O espectro do Haiti foi usado para justificar a necessidade de expandir os EUA para o sul e para o oeste, criando novos estados escravocratas para "diluir" a densidade da população negra e evitar que os escravizados tivessem superioridade numérica em qualquer região, como ocorreu em São Domingos (Haiti).
O Pânico no Brasil Império
No Brasil, o medo do "haitianismo" foi, se possível, ainda mais intenso do que nos EUA. O Brasil foi o maior importador de africanos escravizados da história e a última nação das Américas a abolir a escravidão (1888). Em várias províncias, como na Bahia e no Rio de Janeiro, a população negra e parda superava vastamente a branca.
As elites brasileiras viveram o século XIX aterrorizadas com a possibilidade de um "novo Haiti".
Repressão Brutal de Revoltas: Qualquer levante escravo era tratado com pânico extremo e brutalidade desproporcional, sob a suspeita de ser o início de uma revolução haitiana. A Revolta dos Malês (1835) na Bahia, liderada por escravizados muçulmanos urbanos, quase se transformou nesse pesadelo. A repressão do governo imperial foi feroz, com execuções públicas, prisões, tortura e a deportação forçada de centenas de negros livres e libertos (os chamados libertos) de volta para a África.
A "Política de Branqueamento": O medo de que uma nação de maioria negra inevitavelmente se transformasse em um Haiti levou as elites intelectuais e políticas do Brasil Império e da Primeira República a adotarem políticas de "branqueamento". O Estado brasileiro começou a subsidiar massivamente a imigração de europeus (italianos, alemães, etc.) não apenas para substituir a mão de obra escrava pós-abolição, mas com o objetivo explícito de mudar a demografia do país, tornando-o "mais branco" e, na visão deles, "mais civilizado" e seguro contra revoltas negras.
O Controle Pós-Abolição: Mesmo após 1888, o fantasma do Haiti justificou a criação de leis de vadiagem e um policiamento ostensivo e violento sobre a população negra recém-liberta no Brasil. A capoeira e as religiões de matriz africana foram criminalizadas para impedir a organização social e cultural negra.
O "medo do Haiti" não foi apenas um sentimento; foi uma ferramenta política ativa. Ele foi usado para justificar o isolamento internacional da primeira nação negra livre das Américas (o que contribuiu enormemente para a pobreza estrutural que o Haiti enfrenta hoje) e para legitimar políticas de segregação, imigração racista e violência estatal em todo o continente americano ao longo de todo o século XIX.
A destruição econômica do Haiti não foi um acidente, nem fruto de "má gestão" após a independência, como muitas vezes é retratado de forma racista. Foi o resultado direto de um cerco econômico e militar implacável imposto pelas potências coloniais, com a França no comando.
Após conquistar sua liberdade em 1804 derrotando o exército de Napoleão Bonaparte, o Haiti viu-se completamente isolado. Nenhuma nação queria negociar comercialmente ou reconhecer um país formado por ex-escravizados. A economia haitiana, que antes da revolução era a colônia mais rica do mundo (produzindo metade do açúcar e do café da Europa), estagnou.
A situação chegou a um ponto de ruptura em 1825, quando a França executou o que hoje seria considerado o maior esquema de extorsão internacional da história.
A Extorsão com Navios de Guerra (1825)
Em julho de 1825, o rei francês Carlos X enviou o Barão de Mackau ao Haiti acompanhado de um esquadrão de navios de guerra armados com 500 canhões. A ordem era simples: ou o Haiti aceitava as condições da França, ou seria bombardeado, reocupado e a escravidão seria reimposta.
Sem aliados e sob a mira de canhões, o presidente haitiano Jean-Pierre Boyer foi forçado a assinar um acordo aceitando a "concessão" da independência em troca de duas condições devastadoras:
Redução de Tarifas: O Haiti teve que reduzir as tarifas de importação para bens franceses em 50%, garantindo que a França dominasse o comércio da ilha.
A "Dívida de Independência": O Haiti foi obrigado a pagar 150 milhões de francos de ouro à França para "indenizar" os antigos donos de escravos franceses pelas suas "propriedades perdidas" (ou seja, as terras roubadas e os próprios seres humanos que haviam se libertado).
O Impacto Financeiro: Uma Nação Sangrada
O valor de 150 milhões de francos era absurdamente alto — representava cerca de 10 vezes a receita anual total do governo haitiano na época. Para pagar a primeira parcela, o Haiti foi forçado a tomar um empréstimo de bancos franceses com juros extorsivos (o que os historiadores chamam de "dupla dívida").
Embora o valor principal tenha sido posteriormente reduzido para 90 milhões de francos, o dano já estava feito e se perpetuou por mais de um século:
Fuga de Capital Contínua: De 1825 a 1947 (122 anos), o Haiti transferiu vastas somas de sua riqueza para a França e, posteriormente, para bancos dos EUA (como o atual Citibank, que comprou a dívida durante a ocupação americana).
Destruição do Desenvolvimento Interno: Em vez de investir em escolas, hospitais, ferrovias, pontes ou modernização agrícola, o governo haitiano passava a maior parte de sua existência canalizando sua receita — às vezes até 80% do orçamento nacional anual — para pagar a dívida.
A "Taxa Rural": Para conseguir pagar os franceses, o governo haitiano impôs impostos brutais sobre os camponeses e reduziu o país a uma economia de subsistência e exportação de baixo valor, esgotando o solo sem investir em tecnologia.
A cruel ironia histórica: O Haiti foi forçado a pagar à França o equivalente moderno a bilhões de dólares por ter tido a audácia de se libertar da escravidão.
O subdesenvolvimento sistêmico que vemos no Haiti hoje não começou com desastres naturais recentes ou corrupção moderna (embora esta exista, frequentemente patrocinada por forças externas). Ele começou no momento em que as potências coloniais decidiram que o primeiro país negro livre do mundo tinha que falhar para servir de exemplo, e usaram a dívida externa como arma para garantir isso.


