O STF, a dita polarização política, a desinformação e a responsabilidade da escolha.
O Brasil precisa fazer uma pausa, respirar e olhar para si mesmo. A política deixou de ser, para parcelas da sociedade, uma disputa legítima de ideias e passou a ser tratada como uma guerra moral em que o adversário é apresentado como inimigo absoluto. Nesse ambiente, o Supremo Tribunal Federal (STF) tornou-se um dos principais alvos de uma campanha permanente de desconfiança, hostilidade e, em determinados setores, até de defesa explícita de seu fechamento ou de sua destruição institucional.
É necessário, entretanto, separar crítica legítima de ódio institucional.
Criticar uma decisão do STF é perfeitamente democrático. Questionar votos de ministros, discordar de interpretações constitucionais, defender mudanças legislativas ou até considerar que determinado ministro errou é direito de qualquer cidadão. O que ameaça a democracia é transformar toda decisão judicial desfavorável em prova de que "o STF é inimigo do povo", ou transformar ministros, parlamentares, jornalistas, professores, partidos e adversários políticos em inimigos que precisam ser eliminados do debate público.
A Constituição é clara ao estabelecer que cabe ao STF, precipuamente, a guarda da própria Constituição. Portanto, quando uma decisão desagrada a determinado grupo político, isso não significa automaticamente que a Corte esteja "contra o povo". Significa que existe uma instituição constitucional exercendo uma função que lhe foi atribuída pelo próprio ordenamento jurídico.
O STF não é um partido político
Existe uma confusão perigosa no debate brasileiro: tratar o STF como se fosse uma legenda eleitoral.
Ministros do Supremo não são deputados, senadores, governadores ou candidatos à Presidência. Sua função é jurisdicional. O Tribunal pode cometer erros, decisões podem ser controversas e seus integrantes podem ser criticados. Mas a crítica precisa ser feita com argumentos jurídicos, fatos e evidências — não mediante a fabricação de uma narrativa segundo a qual onze ministros estariam permanentemente conspirando contra dezenas de milhões de brasileiros.
Essa generalização é intelectualmente frágil.
Também é preciso lembrar que o STF não possui poder absoluto. O Brasil possui separação de Poderes, Congresso Nacional, Presidência da República, Ministério Público, tribunais, governos estaduais, municípios, imprensa, sociedade civil e eleitorado. A democracia brasileira é justamente construída sobre instituições que controlam umas às outras.
Quando alguém diz "o STF manda em tudo", deveria perguntar também: por que tantos conflitos políticos acabam chegando ao Judiciário?
Essa pergunta é fundamental.
O problema começa quando a crítica vira deslegitimação
Uma democracia saudável suporta críticas duríssimas. Uma democracia doente começa a considerar qualquer instituição legítima apenas quando ela produz o resultado desejado por determinado grupo.
Se uma decisão favorece meu lado, "a Justiça funcionou".
Se desfavorece meu lado, "a Justiça é uma ditadura".
Essa lógica não é democrática. É simplesmente a substituição do Estado de Direito pela conveniência política.
Os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023 demonstraram até onde pode chegar a radicalização. Houve invasão e depredação das sedes dos Três Poderes. O próprio STF registra que, até janeiro de 2026, 1.399 pessoas haviam sido responsabilizadas por atos relacionados àquele episódio.
Isso não significa que todo eleitor de direita, todo conservador, todo bolsonarista ou todo evangélico seja golpista. Essa generalização seria tão injusta quanto a acusação de que todo eleitor de esquerda é criminoso ou inimigo do Brasil.
Não é disso que se trata.
A questão é outra: qualquer projeto político que pretenda destruir, intimidar ou submeter instituições independentes precisa ser enfrentado democraticamente, independentemente de estar à direita, à esquerda ou no centro.
Não se pode transformar o PT em sinônimo de crime
Outro fenômeno igualmente perigoso é a associação automática entre o Partido dos Trabalhadores e organizações criminosas.
É perfeitamente legítimo criticar o PT. É legítimo criticar governos petistas, dirigentes, parlamentares e políticas públicas. Também é legítimo investigar e punir qualquer integrante de partido que tenha cometido crime.
Mas uma coisa é responsabilizar pessoas concretas por crimes comprovados. Outra é transformar milhões de eleitores e uma organização partidária inteira em uma caricatura criminosa.
O mesmo raciocínio deve ser aplicado à direita.
Se houver integrantes de qualquer partido envolvidos com corrupção, organizações criminosas, milícias ou outros delitos, que sejam investigados, processados e, havendo prova e condenação conforme a lei, responsabilizados.
Mas não se pode fazer uma operação seletiva na qual o crime do adversário vira "prova de que todo o partido é criminoso", enquanto suspeitas ou crimes envolvendo aliados são tratados como perseguição.
A régua precisa ser a mesma para todos.
Se existe envolvimento de agentes políticos com milícias ou organizações criminosas, isso deve ser investigado com rigor, independentemente da ideologia, religião, partido ou posição social do investigado. Não é aceitável utilizar o combate ao crime como arma de propaganda política.
O perigo da comparação com nazismo e fascismo
A comparação entre o ambiente brasileiro e a Alemanha nazista deve ser utilizada com muito cuidado. O Brasil de hoje não é a Alemanha de Hitler, e fazer equivalências simplistas pode banalizar acontecimentos históricos de proporções monstruosas.
Mas existe uma lição histórica universal que merece ser lembrada.
Regimes autoritários frequentemente começam pela construção de inimigos absolutos: um grupo é apresentado como responsável por todos os problemas nacionais; depois, sua dignidade é diminuída; posteriormente, sua participação política é questionada; e finalmente podem surgir propostas para retirar direitos, silenciar vozes ou eliminar instituições que protegem o pluralismo.
Hitler e Mussolini demonstraram, de maneiras distintas, como propaganda, nacionalismo extremado, culto ao líder, desumanização dos adversários e destruição progressiva dos mecanismos de controle podem produzir tragédias.
Por isso, a questão não é afirmar que "todo bolsonarista é nazista" — afirmação tão absurda quanto perigosa.
A questão é reconhecer que nenhuma sociedade deve permitir que o ódio político se transforme em método permanente de mobilização.
E essa advertência vale para todos os lados.
A religião não pode ser transformada em instrumento de guerra política
Outro ponto especialmente delicado é a utilização da fé.
O povo evangélico brasileiro é plural. Há pessoas conservadoras, progressistas, moderadas, independentes, pobres, ricas, intelectuais, trabalhadores, empresários e pessoas que simplesmente não desejam transformar sua fé em programa partidário.
Ser evangélico não significa ser bolsonarista.
Ser católico não significa ser petista.
Ser ateu não significa ser de esquerda.
Ser conservador não significa ser antidemocrático.
Ser progressista não significa defender corrupção.
Essas simplificações servem apenas para criar tribos políticas.
A fé pode inspirar valores importantes como responsabilidade, compaixão, justiça, honestidade e respeito ao próximo. Mas quando líderes religiosos apresentam um candidato como se ele fosse o representante exclusivo de Deus na política, o cidadão precisa redobrar a prudência.
Nenhum político recebe mandato divino.
Todo político recebe mandato constitucional e eleitoral — e deve prestar contas à sociedade.
A verdadeira ameaça é quando o cidadão deixa de pensar
Talvez esse seja o aspecto mais preocupante.
Uma sociedade democrática não pode ser formada por pessoas que simplesmente repetem o que ouviram em vídeos, grupos de WhatsApp, igrejas, canais políticos, influenciadores ou redes sociais.
É preciso perguntar:
Quem está dizendo isso?
Qual é a fonte?
Existe documento?
Existe decisão judicial?
Existe investigação?
Há provas independentes?
Essa informação também seria aceita se prejudicasse o meu próprio lado?
A democracia exige cidadãos capazes de desconfiar inclusive daqueles que admiram.
Quem só verifica informações contra o adversário não está procurando a verdade. Está procurando munição.
Acorda, Brasil: a eleição não pode ser um campeonato de torcidas
As eleições de 2026 exigirão uma responsabilidade enorme do eleitorado. O TSE destaca justamente a importância do voto consciente, da compreensão das funções dos cargos e da fiscalização dos representantes.
Por isso, antes de votar para deputado estadual, deputado federal, senador, governador ou presidente, o brasileiro deveria abandonar a pergunta:
"Ele é do meu lado?"
E substituí-la por perguntas muito mais importantes:
"Ele respeita a democracia?"
"Respeita o resultado eleitoral quando perde?"
"Defende as instituições quando elas contrariam seus interesses?"
"Tem histórico de honestidade e responsabilidade?"
"Suas propostas são economicamente e administrativamente viáveis?"
"Como votou quando teve mandato?"
"Quem financia sua campanha?"
"Quais grupos políticos e econômicos o cercam?"
"Ele espalha informações verificáveis ou vive de boatos?"
"Defende a liberdade de expressão inclusive para quem discorda dele?"
"Combate corrupção mesmo quando o suspeito pertence ao seu próprio grupo?"
"Respeita pobres, trabalhadores, minorias e adversários?"
"Apresenta soluções ou apenas fabrica inimigos?"
Essas perguntas deveriam valer para candidatos de direita, esquerda, centro e qualquer outra corrente.
O eleitor não deve entregar seu voto a alguém simplesmente porque essa pessoa fala sua linguagem, frequenta sua igreja, veste sua camisa política ou ataca os inimigos que ele aprendeu a odiar.
O Brasil precisa sair do "nós contra eles"
É perfeitamente possível ser de direita e defender o STF.
É possível ser de esquerda e criticar decisões do STF.
É possível ser conservador e defender direitos humanos.
É possível ser progressista e exigir responsabilidade fiscal.
É possível ser evangélico e votar em candidatos diferentes.
É possível ser católico e não apoiar determinado partido.
É possível ser brasileiro sem transformar adversários políticos em inimigos pessoais.
Essa maturidade é indispensável.
O Brasil não precisa de uma população uniformizada politicamente. Precisa de uma população livre para discordar.
Democracia não é todo mundo pensar igual.
Democracia é permitir que pessoas pensem diferente sem que uma delas precise destruir a outra.
A responsabilidade é nossa
O STF não pode ser colocado acima da crítica. Presidente da República não pode estar acima da Constituição. Congresso Nacional não pode estar acima da lei. Governadores não podem estar acima da fiscalização. Partidos não podem estar acima da sociedade. Igrejas não podem ser transformadas em máquinas eleitorais. E cidadãos não podem ser tratados como massa de manobra.
A democracia precisa de instituições fortes, mas também precisa de cidadãos conscientes.
O Brasil já conheceu ditaduras, censura, perseguição política, tortura, cassações e restrições de direitos. Não deveríamos precisar repetir essas experiências para compreender o valor da liberdade.
Por isso, é preciso interromper a escalada do ódio político antes que ela se torne normalidade.
Não devemos combater o extremismo com outro extremismo. Não devemos combater mentira com outra mentira. Não devemos combater intolerância tornando-nos intolerantes.
Devemos combater tudo isso com verdade, Constituição, educação, investigação, imprensa livre, Justiça independente, eleições legítimas e cidadania consciente.
E, sobretudo, com memória histórica.
Porque quando a política ensina o cidadão a odiar mais do que pensar, a democracia começa a perder.
Acorda, Brasil!
Não basta cantar que o país está deitado em "berço esplêndido". É preciso levantar, estudar, comparar, investigar, questionar e votar.
Que ninguém escolha deputado estadual, deputado federal, senador, governador ou presidente apenas porque recebeu um vídeo inflamado no celular.
Que ninguém vote apenas pelo ódio ao PT.
Que ninguém vote apenas pelo ódio ao bolsonarismo.
Que ninguém trate o STF como santo ou demônio.
Que ninguém transforme político em messias.
Examinemos todos. Cobremos todos. Fiscalizemos todos.
Porque o Brasil não pertence a Bolsonaro, Lula, PT, PL, STF, Congresso, igrejas ou qualquer liderança individual.
O Brasil pertence ao seu povo.
E a democracia somente continuará sendo nossa se tivermos coragem de defendê-la inclusive quando ela permite que o outro fale.
Esse é o verdadeiro despertar de uma nação.
Acorda, Brasil. O voto é seu. A Constituição é de todos. E o futuro não pode ser entregue ao ódio.

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