UMA REFLEXÃO CRÍTICA SOBRE AS CONTROVÉRSIAS ENTRE APOSTÓLICOS, CATÓLICOS, ORTODOXOS E PROTESTANTES
Introdução
Uma das questões mais delicadas do cristianismo contemporâneo é a maneira como diferentes tradições cristãs compreendem a Virgem Maria, mãe de Jesus, a comunhão dos santos e a vida daqueles que morrem ou morreram de seus corpos na fé Cristã. Ao longo de toda a história, católicos, ortodoxos e diversos grupos protestantes desenvolveram interpretações diferentes sobre esses assuntos. O problema começa quando uma divergência teológica legítima é transformada em acusação, calúnia ou caricatura da fé do outro. Coisas que que se ascendeu em muito nos nossos dias.
É preciso, portanto, separar o que a Bíblia realmente afirma, o que a tradição cristã ensina, aquilo que é interpretação teológica e aquilo que é simplesmente uma afirmação sem fundamento histórico ou bíblico. E mesmo a teologia não é um consenso sobre o que é real. Pois a teologia cheia de ideias de homens dotados de pensamentos iníquos e foram da verdade do reino de Deus nada trás de verdadeiro conhecimento dos mistérios Divinos!
Também é importante não colocar todos os protestantes em uma única categoria. O protestantismo é extremamente diversificado entre: luteranos, reformados, anglicanos, batistas, metodistas, presbiterianos, pentecostais e outros grupos que não possuem exatamente a mesma compreensão sobre a Mãe Virgem Maria, os Santos e Anjos de Deus, a própria morte e a vida eterna.
Assim, uma crítica séria ao protestantismo não deve combater um espantalho. Deve enfrentar seus argumentos reais. entendendo que a culpa não é deles, mas da confusão gerada lá no inicio pelos reformadores do tempo de Lutero e posterior a ele.
1. A acusação de que Virgem Maria teria engravidado de um homem qualquer e não do próprio São José, como de fato não foi de São José, mas do Espírito Santo, isso é uma grave blasfêmia!
Uma das afirmações mais graves que podem ser dirigidas contra à Virgem Maria Santíssima é a tentativa de atribuir a gravidez de Jesus a uma relação sexual com outro homem. Porém, isso não corresponde ao relato dos Evangelhos de São Mateus e São Lucas.
É São Mateus que apresenta a Virgem Maria como a desposada de São José e faz a afirmação de que, antes de viverem juntos, ela se encontrou grávida "pelo próprio Espírito Santo de Deus" (Mt 1,18). São José, inicialmente sem compreender o acontecimento, pensa em deixá-la secretamente. Entretanto, segundo o relato, um Anjo lhe aparece em sonho e afirma:
"José, filho de Davi, não temas receber Maria, tua mulher, porque o que nela foi gerado é do Espírito Santo." (Mt 1,20)
São Lucas apresenta a mesma concepção sob outra perspectiva. O Anjo Gabriel anuncia a Virgem Maria que ela conceberá e dará à luz o Filho de Deus, e a Virgem Maria pergunta como isso aconteceria, sendo ela ainda uma moça virgem. A resposta é:
"O Espírito Santo virá sobre ti, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra." (Lc 1,35)
Portanto, a concepção virginal de Jesus não é uma invenção posterior do catolicismo medieval. Ela está presente nos próprios Evangelhos canônicos.
Isso também não significa que todo o protestantismo negue a virgindade de Maria. Pelo contrário: muitos protestantes históricos e evangélicos confessam explicitamente o nascimento virginal de Cristo. Portanto, seria historicamente incorreto afirmar que "os protestantes" em geral ensinam que a Virgem Maria engravidou de outro homem.
A crítica correta deve ser dirigida àqueles que efetivamente sustentam essa acusação, e não a milhões de cristãos que jamais a defenderam.
Dentre toda a crença sempre houve, há e haverá quem invente coisas da própria cabeça, dizendo ser profecias vinda de Deus, mentiras e falsidades teológicas humanamente materializadas.
2. A Virgem Maria não é uma mulher "qualquer" dentro do próprio relato bíblico.
Outro ponto fundamental encontra-se no Evangelho de São Lucas.
Quando o Anjo Gabriel apareceu a Virgem Maria, não a trata como uma personagem insignificante. Veja o que o próprio texto afirma:
"Alegra-te, cheia de graça, o Senhor está contigo." (Lc 1,28)
E sua prima Isabel também, cheia do Espírito Santo, proclama:
"Bendita és tu entre as mulheres e bendito é o fruto do teu ventre!" (Lc 1,42)
A própria Virgem Maria prediz de sim mesma:
"Todas as gerações me chamarão bem-aventurada." (Lc 1,48)
Essas palavras são extraordinariamente importantes e verdadeiras.
Mesmo que alguém não aceite todos os dogmas marianos da Igreja Católica, é difícil sustentar biblicamente que a Virgem Maria seja simplesmente uma mulher irrelevante na história da salvação. O próprio Evangelho apresenta a Virgem Maria como a Santa Mãe do Senhor, serva do Senhor, bendita entre as mulheres e aquela que seria chamada bem-aventurada pelas gerações futuras.
A grande questão que apresento aqui, ou segundo as ideias teológicas, que não é a minha, não deveria ser se a Virgem Maria é importante ou não. O próprio texto bíblico responde que sim. Ela é mais que importante. Ela é a razão da Salvação enviada por Deus a esta terra por Jesus Cristo. queiram os teólogos protestantes ou não. Não sou Católico, mas Apostólico. Por isso a minha veneração à Virgem Maria e defende-la como Rainha dos Céus. Não a colocando como uma deusa e nem tão pouco acima do Divino Pai Eterno, mas uma Santa criada por Ele para o auxiliar, trazendo o seu Filho como o Grande Salvador.
A questão é até onde essa importância deve ser desenvolvida teologicamente.
É nesse ponto que católicos e protestantes frequentemente divergem.
3. A suposta afirmação de Martinho Lutero sobre Jesus e Maria Madalena, uma infâmia que muito me entristece.
Outra afirmação que circula em determinados ambientes, inclusive na web, é a de que Martinho Lutero teria ensinado ou insinuado que Jesus mantinha relações sexuais com a Santa Maria Madalena.
É necessário ter extremo cuidado com tal acusação.
Não é historicamente responsável atribuir automaticamente essa afirmação a Martinho Lutero sem apresentar a fonte primária, a obra, o trecho e o contexto. Lutero fez críticas severas à Igreja de seu tempo, à autoridade papal, às indulgências e a determinadas práticas e doutrinas católicas, mas isso não significa que tenha defendido qualquer narrativa popular posteriormente atribuída a ele. Quero dizer que: Nem tudo atribuído a ele (Lutero) após a sua morte é realmente dele. Muita mentira surgiu depois dele, que não dá para mencionar todas aqui, seria impossível.
Além disso, em parte nenhuma dos Evangelhos canônicos há algo que apresente Jesus como sendo o marido de alguma mulher e, tão pouco de Maria Madalena e nem relata qualquer relação sexual entre ambos. Até por que Jesus foi um homem como qualquer um de nós hoje, teve investidas da mulheres querendo-o, pois era muito belo e de uma educação refinada, mas, lembre-se, ele era o filho do Deus Altíssimo e não se atentou para os desejos sexuais,
Maria Madalena aparece como uma das discípulas de Jesus e ocupa papel extraordinariamente importante na narrativa da Ressurreição. O Apóstolo São João relata que ela foi uma das primeiras pessoas a encontrar o Cristo ressuscitado e recebeu dele uma missão de anunciar aos discípulos aquilo que havia visto (Jo 20,11-18).
Portanto, uma crítica cristã intelectualmente séria deve rejeitar tanto a invenção quanto a falsa atribuição histórica. Isso é uma velha fake news que dominou partes da humanidade incrédula.
Se alguém afirma que Lutero ensinou que Jesus teve relações sexuais com Maria Madalena, cabe perguntar:
Onde está o documento original? Qual é a obra? Qual é a passagem? Qual é o contexto?
Sem isso, corre-se o risco de combater uma falsidade utilizando outra falsidade. Repito; é uma fake news combatendo outra fake news.
4. A Virgem Maria morreu e está simplesmente "dormindo no pó da Terra"? A Fake News de muitos dos que se dizem crentes.
Aqui existe uma questão mais complexa.
A doutrina católica da Assunção da Virgem Maria afirma que Ela, terminada sua vida terrestre, foi elevada à glória celeste em corpo e alma. Essa doutrina foi definida dogmaticamente pela Igreja Católica no século XX, embora a crença na glorificação de Maria Santíssima seja muito anterior.
Muitos protestantes não aceitam essa doutrina porque entendem que a Bíblia não apresenta uma declaração suficientemente explícita sobre essa a Assunção. E mesmo, porque se firmam em cortes de outros trechos bíblicos que afirmam que ninguém subiu aos Céus se não aquele que desceu de lá. Um equivoco muito sério. Devido às muitas traduções sem a verdadeira inspiração do Espírito de Deus, foi impossível aos homens compreenderem partes importantes da Bíblia e ficou muita coisa errada. Daí se basear somente em cortes bíblicos sem aceitar todo o contexto, tempo, cultura e região geográfica onde se deram os acontecimentos faz com que surjam ideias contraditórias e erroneas.
Entretanto, também é incorreto afirmar que todos os protestantes acreditam que a Virgem Maria esteja simplesmente "dormindo no pó da terra". Há diferentes posições protestantes sobre o estado dos mortos e sobre a Virgem Maria. Já ouvi pastores evangélicos defenderem a estadia da Virgem Maria na Glória de Deus como uma grande Rainha de Deus e não como a maioria querem que Ela seja, uma pessoa morta.
Aqui chegamos a uma questão ainda mais profunda:
O que acontece com o ser humano depois da morte?
5. "Hoje estarás comigo no Paraíso": o problema do estado dos mortos
Um dos textos mais fortes utilizados na discussão é o de São Lucas 23,43.
Jesus está crucificado entre dois criminosos. Um deles o reconhece e pede:
"Jesus, lembra-te de mim quando entrares no teu Reino."
Jesus responde:
"Em verdade te digo: hoje estarás comigo no Paraíso."
Essa passagem é fundamental porque coloca diante do cristão uma realidade difícil de ignorar: Jesus fala da ida daquele homem com Ele ao Paraíso imediatamente após a morte do corpo daquele homem.
Isso não significa que todas as tradições cristãs interpretarão cada detalhe da vida após a morte da mesma maneira. Mas a passagem constitui uma forte dificuldade para a ideia de que a morte seja simplesmente uma inexistência absoluta ou que a pessoa deixe de existir até a ressurreição final. Um equivoco, dizer que só hão de ressuscitar no ultimo dia. Ou que todos ficam dormindo no pó da terra, pois espírito não dorme. A menos que pensem que o ser humano seja somente matéria como os animais! Então para que ir a uma Igreja? Devíamos viver como os animais então!!! Nada disso. Somo matéria, o corpo de carne, e espírito a parte mais importante do ser humano.
O cristianismo, desde seus primeiros séculos, professou simultaneamente duas verdades:
há uma existência diante de Deus após a morte e haverá uma ressurreição dos mortos. Mas quais são esses mortos? São aqueles mortos do espírito que, ao se converterem, ressuscitam para uma nova vida, pois os mortos do corpo já tiveram o seu juízo final.
Não são necessariamente conceitos contraditórios.
A ressurreição final diz respeito à consumação da pessoa humana; a comunhão com Deus após a morte diz respeito à esperança daquele que morre em Cristo, a ida direto para a Glória dos Céus.
6. "Deus não é Deus de mortos, mas de vivos"
Outro texto extremamente significativo encontra-se em São Lucas 20,38.
Ao discutir a ressurreição, Jesus afirma:
"Deus não é Deus de mortos, mas de vivos; pois para ele todos vivem."
Cristo não apresenta Abraão, Isaac e Jacó como pessoas simplesmente apagadas da existência.
Esse princípio se harmoniza com a visão cristã segundo a qual a morte física não tem a palavra final.
São Paulo também afirma:
"Partir e estar com Cristo é muito melhor." (Fp 1,23)
E ainda:
"Preferimos deixar o corpo e habitar com o Senhor." (2Cor 5,8)
Esses textos são relevantes porque demonstram que a esperança cristã não consiste simplesmente em uma existência eterna desligada de Deus após a ressurreição. Existe uma dimensão de comunhão com Cristo que transcende a morte física. Esta é somente uma passagem, porque a vida mesmo vem depois desta.
7. E onde aparecem os Santos e Anjos?
Aqui chegamos ao ponto central da discussão.
No Apocalipse, São João descreve uma multidão imensa diante do trono de Deus e diante do Cordeiro:
"uma multidão imensa, que ninguém podia contar, de todas as nações, tribos, povos e línguas."
E eles são apresentados como aqueles que:
"lavaram suas vestes e as alvejaram no sangue do Cordeiro." (Ap 7,9-14)
Essa é uma das imagens mais poderosas de toda a literatura cristã, que confirmam a existência de Santos na Glória de Deus.
Eles não são apresentados como pessoas inexistentes. Eles estão diante de Deus, são Santos Eternos.
O Apocalipse também apresenta os vinte e quatro anciãos diante do trono e mostra figuras celestes oferecendo a Deus taças de ouro cheias de incenso, identificadas como as orações dos Santos (Ap 5,8).
Em Apocalipse 8,3-4, novamente aparece a imagem das orações dos santos subindo diante de Deus.
Portanto, o livro do Apocalipse apresenta uma realidade celestial na qual os Santos estão relacionados à adoração e às orações oferecidas diante do trono divino e estão diante dEle, Deus, e o adoram de dia e de noite o servindo-o.
Isso é importante para o diálogo entre apostólicos, católicos e protestantes.
8. Os Santos substituem Jesus? Não e Jamais seria assim. Eles o auxiliam em suas missões recebidas do Próprio Jesus.
Esse é um dos principais esclarecimentos que precisam ser feitos.
A doutrina apostólica, católica ou a ortodoxa não ensinam que os santos sejam deuses menores ou que possuam uma autoridade independente de Cristo. Longe disso.
Cristo permanece como único Salvador, único Redentor e único mediador da redenção.
A objeção protestante costuma citar 1Timóteo 2,5:
"Há um só Deus e um só mediador entre Deus e os homens, Cristo Jesus, homem."
Mas, esse texto precisa ser levado absolutamente a sério.
Porém, existe uma questão interessante: no mesmo capítulo, São Paulo pede que os cristãos façam "súplicas, orações, intercessões" uns pelos outros (1Tm 2,1).
Portanto, a existência de um único Mediador redentor não elimina necessariamente a possibilidade de intercessão subordinada e participada dos demais Santos e Anjos.
Quando um cristão pede a outro:
"Ore por mim",
ele não está afirmando que aquele outro cristão substituiu Jesus. Mas está pedindo uma unidade de força espiritual em seu favor.
Da mesma forma, a teologia católica e a fé apostólica entendem a intercessão dos Santos como a participação na única mediação de Cristo, e não como uma concorrência a ela.
Cristo é a fonte.
Os Santos não são outra fonte, mas uma aliança entre si e o Cristo Redentor.
9. "Mas os Santos estão mortos; como poderiam ouvir?" Seria isso mesmo? Ou é uma invenção diabólica para dividir o cristianismo?
Essa é uma das objeções mais comuns.
A resposta apostólica, católica ou ortodoxa está justamente na compreensão cristã da vida eterna.
Se os Santos estão vivos em Deus, como afirma Jesus, então chamá-los de "mortos" no sentido de inexistentes ou inconscientes é uma compreensão que precisa ser examinada à luz do conjunto das Escrituras. Ou dentro do conhecimento espiritual do Santíssimo Espírito de Deus, segunda a sua unção do entendimento dado aos escolhidos. Fora disso, só confusão e desentendimento entre os pecadores.
Hebreus 12,1 fala de uma grande "nuvem de testemunhas" que envolve os cristãos.
O Apocalipse apresenta os Santos diante do trono.
Jesus fala do Deus de Abraão, Isaac e Jacó como Deus dos vivos.
São Paulo fala de partir e estar com Cristo.
Assim, existe fundamento bíblico para afirmar que a morte física não destrói a existência daquele que pertence a Deus.
Entretanto, isso não significa que a Bíblia explique detalhadamente o mecanismo pelo qual os Santos percebem as orações dos fiéis. Esse ponto pertence à elaboração teológica da Igreja ou a verdadeira Inspiração do espírito Consolador e não deve ser apresentado como se houvesse um versículo bíblico dizendo literalmente: "os cristãos na Terra devem orar aos Santos no Céu pedindo a intercessão deles diante de Deus". Mesmo assim isso pode ser feito sim. Lembrando que são esses Santos que são escaldos pelo próprio Deus para estarem ao nosso lado como Anjos da Guarda para nos atender.
Essa distinção é essencial para uma argumentação honesta.
10. A Virgem Maria no centro da controvérsia
Maria Santíssima ocupa um lugar singular; porque sua relação com Cristo não é comparável à de qualquer outro Santo, Ela é sua Mãe.
Ela é apresentada como mãe de Cristo Jesus.
E se Jesus é verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem, então a Virgem Maria pode ser chamada, em sentido cristológico, de Mãe de Deus, expressão utilizada para proteger a verdade sobre a identidade de Cristo: aquele que nasceu de Maria Santíssima não é uma pessoa humana separada do Filho eterno, mas o próprio Filho encarnado.
Isso não significa que Maria santíssima seja uma deusa.
Não significa que a Virgem Maria seja superior à Santíssima Trindade. Longe disso.
Não significa que Maria Santíssima tenha criado Deus.
Significa que aquele que ela concebeu e deu à luz é o Filho eterno de Deus feito homem.
Por isso, a Igreja antiga desenvolveu o título Theotokos, "Mãe de Deus", justamente em defesa da identidade de Jesus Cristo.
11. A própria Maria Santíssima profetizou sua importância.
Talvez o argumento mais desconcertante para qualquer cristão que queira diminuir Maria Santíssima esteja na própria boca dela.
Maria diz:
"Desde agora todas as gerações me chamarão bem-aventurada."
E por quê?
Ela mesma responde:
"porque o Todo-Poderoso fez grandes coisas em meu favor." (Lc 1,48-49)
Observe-se a lógica.
Maria Santíssima não glorifica a si mesma como uma divindade.
Ela glorifica a Deus.
A honra de Maria Santíssima é, em última análise, uma consequência daquilo que Deus realizou nela.
Por isso, a verdadeira devoção mariana não deveria terminar em Maria Santíssima.
Ela deve conduzir a Cristo.
A própria Virgem Maria aponta nessa direção quando diz, em Caná:
"Fazei tudo o que ele vos disser." (Jo 2,5)
Essa frase resume uma das características mais profundas da verdadeira espiritualidade mariana:
Maria Santíssima não toma o lugar de Jesus; Maria aponta para Jesus.
12. O perigo da "guerra religiosa" entre cristãos
Existe, entretanto, um problema ainda maior.
É possível defender Maria Santíssima e os Santos utilizando argumentos injustos contra os protestantes.
Também é possível defender a Bíblia contra o catolicismo utilizando caricaturas e falsas acusações contra os católicos.
Ambos os comportamentos são perigosos.
Dizer que "todo protestante afirma que a Virgem Maria foi adúltera" é falso.
Dizer que "todo protestante acredita que Maria Santíssima é uma mulher qualquer" é uma generalização injusta.
Dizer que "Lutero ensinou que Jesus teve relações sexuais com Maria Madalena" sem apresentar fonte histórica confiável é irresponsável.
Da mesma forma, dizer que "todo católico adora Maria Santíssima como uma deusa" também é uma caricatura.
A diferença entre adoração e veneração é justamente um dos conceitos centrais da teologia católica. A adoração pertence somente a Deus; Maria Santíssima e os Santos são honrados por aquilo que Deus realizou neles.
Pode-se discordar dessa distinção teológica ou fé, mas é necessário representá-la corretamente antes de criticá-la.
13. O que a Bíblia não permite esquecer.
Existe um elemento que deveria unir os cristãos de todas as tradições.
O centro do cristianismo não é Maria Santíssima.
O centro não é São Pedro.
O centro não é São Paulo.
O centro não é Lutero.
O centro não é Calvino.
O centro é Jesus Cristo.
Maria Santíssima é bem-aventurada, porque o Cristo nasceu dela.
Os Santos são importantes porque pertencem a Cristo.
Os apóstolos são importantes porque anunciaram Cristo.
A Igreja é importante porque proclama Cristo.
A Bíblia é fundamental porque dá testemunhos de Cristo.
E o próprio Apocalipse apresenta a multidão celestial diante do Cordeiro.
O problema surge quando o cristão transforma uma doutrina secundária em motivo para destruir a fraternidade cristã.
Conclusão
A questão de Maria Santíssima, dos Santos e da vida após a morte exige mais do que slogans religiosos.
É preciso reconhecer que o Novo Testamento apresenta Maria Santíssima como uma mulher singular na história da salvação: escolhida para ser mãe de Jesus, chamada "cheia de graça", proclamada "bendita entre as mulheres" e apresentada profeticamente como aquela que seria chamada bem-aventurada por todas as gerações.
Também é necessário reconhecer que a Bíblia não apresenta a morte física como aniquilação da pessoa. Jesus afirma ao ladrão arrependido: "Hoje estarás comigo no Paraíso." São Paulo fala de partir e estar com Cristo. Jesus declara que Deus é Deus de vivos. O Apocalipse apresenta uma multidão incontável diante do trono e do Cordeiro, formada por pessoas que passaram pela grande tribulação e foram lavadas no sangue do Cordeiro.
Portanto, existe fundamento bíblico robusto para afirmar que aqueles que morreram em Cristo não estão separados da vida de Deus.
Quanto à intercessão dos Santos, apostólicos, católicos, ortodoxos e protestantes podem continuar discordando. Mas essa discordância deve ser construída sobre argumentos verdadeiros, não sobre acusações falsas.
O mesmo vale para Martinho Lutero e Maria Madalena: se não existe fonte histórica confiável que demonstre que Lutero tenha defendido relações sexuais entre Jesus e Madalena, essa afirmação não deve ser propagada como fato real. Isso é falso de todos os pontos de vistas.
A defesa da fé não precisa da mentiras.
A verdade cristã não precisa de calúnia para sobreviver.
Se Maria Santíssima é bem-aventurada, não é porque seja uma deusa, mas porque Deus realizou nela grandes coisas. E hoje ela merece nossa adoração e veneração.
Se os Santos estão na Glória, não é porque tenham se tornado deuses, mas porque foram redimidos pelo sangue do Cordeiro e mereceram galardões gloriosos..
E se o ladrão arrependido recebeu de Cristo naquela hora a promessa de estar com Ele no Paraíso, então a esperança cristã pode proclamar, com confiança, que a morte não é o fim.
No final de tudo, a pergunta mais importante não é simplesmente se alguém é apostólico, católico, protestante, ortodoxo ou de qualquer outra tradição.
A pergunta decisiva é:
Estamos colocando nossa confiança naquele que Maria Santíssima chamou de seu Salvador, aquele que morreu na cruz, ressuscitou dos mortos e é apresentado pelo Apocalipse como o Cordeiro que venceu?
Porque Maria Santíssima aponta para Ele.
Os Santos apontam para Ele.
Os Apóstolos apontam para Ele.
A Igreja deve apontar para Ele.
E a esperança cristã encontra sua última palavra não no túmulo, mas no Cristo ressuscitado:
"Eu sou a ressurreição e a vida. Quem crê em mim, ainda que morra, viverá." (Jo 11,25)