16/08/26

A história brasileira não cabe na caricatura “direita boa contra esquerda destruidora”

 


A farsa do monopólio da direita sobre a família, a fé, a pátria e o bem

Há uma mentira política recorrente no Brasil: a de que a direita — sobretudo sua vertente extremista — teria o monopólio da família, da religião, do patriotismo e do bem. Essa narrativa é sedutora porque transforma valores amplamente compartilhados em propriedade eleitoral de um grupo. Quem discorda passa a ser acusado de inimigo da família, de Deus e da pátria. O mecanismo é antigo: em vez de discutir políticas públicas, resultados econômicos, direitos e responsabilidades, cria-se uma fronteira moral entre os “bons cidadãos” e os supostos agentes do mal.
O problema não está em alguém valorizar a família, a fé ou o país. O problema está em afirmar que somente uma corrente política pode fazê-lo. Famílias são plurais; religiões são diversas; patriotismo não é obediência a um líder; e o bem comum não se prova por slogans, bandeiras ou declarações religiosas, mas por políticas que protegem a vida, a dignidade, a liberdade, a educação, a saúde, o trabalho e a democracia. A extrema direita não inventou esses valores e tampouco recebeu de Deus um certificado de exclusividade sobre eles.

A história brasileira não cabe na caricatura “direita boa contra esquerda destruidora”

Também é historicamente incorreta a afirmação de que o Brasil teria sido governado exclusivamente pela direita até 2003 e que, desde então, a esquerda teria “destruído o país”. Desde a Independência, o Estado brasileiro passou por regimes e projetos muito diferentes. Muitos deles foram conservadores, oligárquicos, autoritários ou liberal-conservadores; outros foram trabalhistas, nacional-desenvolvimentistas, reformistas ou de centro. Não é rigoroso colar o mesmo rótulo ideológico em todos eles.
PeríodoGovernos e principais dirigentesCaracterização histórica cuidadosa
Império (1822–1889)Pedro I; Regências; Pedro IIMonarquia constitucional, escravista e profundamente hierárquica, marcada pela disputa entre liberais e conservadores. Não corresponde às categorias partidárias atuais.
Primeira República (1889–1930)Deodoro da Fonseca; Floriano Peixoto; Prudente de Morais; Campos Sales; Rodrigues Alves; Afonso Pena; Nilo Peçanha; Hermes da Fonseca; Venceslau Brás; Delfim Moreira; Epitácio Pessoa; Artur Bernardes; Washington LuísRepública oligárquica, dominada por elites agrárias e por mecanismos de controle eleitoral. Houve governos civis e militares, mas não democracia social no sentido contemporâneo.
Revolução de 1930 e Era Vargas (1930–1945)Getúlio Vargas: Governo Provisório, Governo Constitucional e Estado NovoMistura de centralização autoritária, nacionalismo, industrialização e legislação trabalhista. O Estado Novo foi uma ditadura; o varguismo não pode ser reduzido nem a uma direita liberal nem à esquerda democrática.
República de 1946 (1946–1964)Eurico Dutra; Getúlio Vargas; Café Filho; Carlos Luz; Nereu Ramos; Juscelino Kubitschek; Jânio Quadros; Ranieri Mazzilli; João GoulartPeríodo plural, com liberais, conservadores, trabalhistas, nacionalistas e reformistas. Goulart defendia as Reformas de Base e foi derrubado pelo golpe de 1964; portanto, a esquerda e o trabalhismo já estavam no centro da disputa pelo poder muito antes de 2003.
Ditadura militar (1964–1985)Castelo Branco; Costa e Silva; Junta Militar de 1969; Emílio Médici; Ernesto Geisel; João FigueiredoRegime autoritário de direita, com censura, cassações, repressão e graves violações de direitos humanos, embora também tenha promovido projetos de desenvolvimento e forte intervenção estatal.
Nova República (1985–atualidade)José Sarney; Fernando Collor; Itamar Franco; Fernando Henrique Cardoso; Luiz Inácio Lula da Silva; Dilma Rousseff; Michel Temer; Jair Bolsonaro; Luiz Inácio Lula da SilvaPeríodo democrático com coalizões variadas. Houve governos de centro, centro-direita, centro-esquerda, esquerda e direita; nenhum deles pode ser analisado com honestidade por uma etiqueta única.
Essa cronologia, compatível com a divisão histórica reconhecida por estudos e instituições de referência, mostra o erro da frase “a esquerda só governou a partir de 2003”. O trabalhismo de Vargas, o nacional-desenvolvimentismo de setores do período democrático de 1946 e o reformismo de João Goulart são experiências anteriores que não podem ser apagadas para fabricar uma história sob medida.

Quem “destruiu” o Brasil?

A pergunta correta não é “qual lado destruiu o Brasil?”, como se a história fosse um duelo entre anjos e demônios. A pergunta correta é: quais governos adotaram quais políticas, com quais resultados, custos e beneficiários? O Brasil acumulou desigualdade, concentração de renda, dependência tecnológica, vulnerabilidade externa e crises fiscais sob governos de diferentes orientações. A dívida pública e os acordos com organismos internacionais não nasceram em 2003, nem podem ser atribuídos exclusivamente à esquerda.
No caso do FMI, há um fato objetivo que merece ser reconhecido sem propaganda e sem exagero: em 2005, durante o primeiro governo Lula, o Brasil antecipou o pagamento do empréstimo do Fundo Monetário Internacional, conforme registro do Banco Central. Mais tarde, o país também passou a contribuir financeiramente para mecanismos internacionais de apoio, o que inverteu simbolicamente a posição de devedor recorrente. Isso não significa que a dívida pública brasileira tenha desaparecido, nem que todos os problemas econômicos tenham sido resolvidos; significa que houve, naquele contexto, melhora das reservas internacionais e redução da dependência de um programa de empréstimo do FMI.
A saída do Brasil do chamado Mapa da Fome da FAO, anunciada em 2014, também deve ser descrita com precisão. O indicador apontava que a prevalência de subalimentação havia caído abaixo do limite utilizado pela organização. Isso não quer dizer que nenhuma pessoa passasse fome ou que a pobreza tivesse sido eliminada. Quer dizer que políticas de aumento de renda, emprego, alimentação escolar, transferência de renda e fortalecimento de programas sociais produziram uma redução mensurável da insegurança alimentar. Reconhecer esse resultado não exige transformar Lula em santo; exige apenas não negar um dado porque ele contraria uma preferência ideológica.

A religião não é propriedade eleitoral de nenhuma corrente

Outro ponto que desmonta a acusação de que governos progressistas perseguem igrejas é a própria legislação. A Lei nº 10.825, de 2003, alterou o Código Civil para reconhecer as organizações religiosas como pessoas jurídicas de direito privado. Em 2009, o presidente Lula sancionou a Lei nº 12.025, que instituiu o Dia Nacional da Marcha para Jesus. A sanção da lei não transforma o governo Lula em governo confessional, nem significa que uma administração deva favorecer uma religião. Significa, simplesmente, que a narrativa segundo a qual o governo “persegue igrejas” não se sustenta como descrição geral dos fatos.
A liberdade religiosa, porém, não começou com Lula, nem pertence à esquerda como propriedade partidária. Ela é um direito constitucional que protege católicos, evangélicos, espíritas, judeus, muçulmanos, religiões de matriz africana, agnósticos e ateus. O Estado democrático não deve perseguir nenhuma fé, mas também não deve permitir que uma igreja governe as demais ou que um governante use Deus como aval para atacar adversários.
Dizer que um governo democrático “prende pastores e padres” exige prova concreta: nome, processo, decisão judicial, crime imputado e contexto. Prisão eventualmente determinada pela Justiça, quando baseada em indícios e garantias processuais, não é perseguição religiosa pelo simples fato de o acusado ser religioso. Se um pastor ou padre comete crime, sua condição religiosa não pode funcionar como imunidade; se não cometeu, deve ter direito à defesa e ao devido processo. A democracia protege a liberdade de culto, não a impunidade de líderes religiosos.

O profeta da mentira e o uso indevido do nome de Deus

O episódio mencionado pelo deputado Otoni de Paula — um ex-aliado do bolsonarismo que teria exibido vídeo de um fanático dizendo ter recebido de Deus uma advertência contra um suposto governo “diabólico” de esquerda — ilustra uma técnica perigosa: converter opinião política em revelação divina. Não disponho, para este texto, de fonte primária suficiente para reproduzir literalmente a fala ou atribuí-la ao deputado sem risco de erro. O episódio deve, portanto, ser tratado como relato a ser verificado, não como fato documentalmente estabelecido.
A crítica, contudo, é válida no plano político e moral: ninguém pode apresentar sua preferência eleitoral como sentença de Deus e, a partir disso, classificar milhões de brasileiros como endemoniados, traidores ou inimigos espirituais. Atribuir a Deus uma mensagem que serve para blindar um líder, demonizar adversários ou justificar a ruptura institucional é uma forma de manipulação religiosa. Pessoas podem acreditar sinceramente que sua fé orienta suas escolhas; o que não podem exigir é que a comunidade política aceite como prova pública uma revelação particular.
Há ainda uma contradição evidente: aqueles que se apresentam como defensores da família, da moral e da verdade frequentemente recorrem a misoginia, humilhação, calúnia, intolerância e julgamento sumário. A religião é reduzida a instrumento de guerra cultural, e o próximo deixa de ser alguém a quem se deve respeito para virar inimigo a ser eliminado simbolicamente. Isso não é defesa da fé; é instrumentalização da fé.

Instituições, urnas e o perigo da mentira repetida

O alerta mais grave diz respeito à tentativa persistente de colocar em dúvida as instituições democráticas. Criticar o STF, o Congresso, o governo ou a Justiça Eleitoral é legítimo. Democracia não exige silêncio diante de decisões judiciais ou políticas públicas. O que ameaça a democracia é espalhar acusações sem prova, afirmar fraude eleitoral sem evidência auditável e tratar o resultado de uma eleição como legítimo apenas quando favorece o próprio grupo.
A Justiça Eleitoral informa que o processo eletrônico de votação pode ser auditado antes, durante e depois das eleições por diversas entidades fiscalizadoras. A urna eletrônica não deve ser protegida por fé cega: deve ser examinada por procedimentos técnicos, transparência, fiscalização e auditoria. Justamente por isso, a crítica responsável apresenta evidências verificáveis e aceita o resultado dos testes. A crítica irresponsável substitui a prova por vídeos, rumores, capturas de tela e discursos de líderes que jamais admitem a possibilidade de estar errados.
A demonização do STF, da esquerda, dos progressistas e de qualquer pessoa que pense diferente produz um ambiente no qual a violência política se torna imaginável. Primeiro, o adversário é chamado de inimigo do Brasil; depois, de inimigo de Deus; por fim, passa a ser tratado como alguém sem direito à palavra, ao voto ou à própria existência política. Esse caminho não defende a pátria: destrói o espaço comum no qual cidadãos diferentes podem viver sob as mesmas leis.

Acorda, Brasil — mas acorda para os fatos

O Brasil não precisa escolher entre família e direitos, entre religião e liberdade, entre pátria e democracia. Precisa rejeitar quem tenta monopolizar esses valores para obter poder. Uma família pode ser defendida com políticas de cuidado, educação, saúde, moradia, emprego e proteção contra a violência — não com a perseguição a famílias que não se encaixam num modelo único. A religião pode ser respeitada sem ser transformada em arma eleitoral. A pátria pode ser amada sem que se exija submissão a um chefe. O bem pode ser buscado sem que se conceda a um grupo o direito de definir quem é humano, patriota ou salvo.
Se forças extremistas voltarem ao poder mantendo a estratégia de deslegitimar urnas, tribunais, imprensa, universidades, movimentos sociais e cidadãos divergentes, o risco não será apenas uma disputa partidária mais agressiva. O risco será a erosão gradual das regras que permitem a alternância de poder. Instituições desacreditadas tornam-se mais vulneráveis; mentiras repetidas tornam-se justificativas; e a intolerância, quando normalizada, pode abrir espaço para autoritarismo.
Por isso, o dever das pessoas de bom senso é exigir provas, consultar fontes, desconfiar de vídeos sem contexto, separar fé de propaganda e responsabilizar quem mente deliberadamente. Não se trata de substituir uma idolatria de direita por uma idolatria de esquerda. Trata-se de defender a realidade contra a fantasia política, a democracia contra o autoritarismo e a dignidade humana contra a desumanização do adversário.
Acorda, Brasil — mas não para obedecer a falsos profetas. Acorda para a história, para os fatos, para a pluralidade e para a responsabilidade democrática.

Referências

FAMÍLIA, RELIGIÃO, PÁTRIA E O BEM... O QUE SE ENTENDE POR ISSO?

UMA FARSA DO MONOPÓLIO MORAL DA EXTREMA DIREITA

Há uma afirmação que se tornou recorrente no discurso político brasileiro: “Eu voto na direita porque a direita defende a família, a religião, a pátria e o bem; a esquerda está destruindo o Brasil.” À primeira vista, parece uma frase simples. O problema é que ela transforma conceitos que pertencem a toda a sociedade — família, fé, patriotismo, solidariedade e busca pelo bem comum — em propriedades exclusivas de uma corrente política.

Nenhuma ideologia possui escritura registrada sobre a família. Nenhum partido recebeu de Deus uma procuração para representar todos os religiosos. E patriotismo não é propriedade de direita, esquerda ou centro.

A democracia começa justamente quando compreendemos que pessoas de diferentes posições políticas podem amar o país, constituir famílias, professar uma religião, defender valores morais e desejar uma sociedade melhor.

UMA BREVE OLHADA PARA A HISTÓRIA DO BRASIL

Também é necessário cuidado com uma afirmação muito comum: a de que o Brasil teria sido governado essencialmente pela esquerda durante a maior parte de sua história.

A realidade histórica é muito mais complexa.

Desde a Independência, em 1822, o Brasil passou pelo Império de D. Pedro I, pelas Regências e pelo longo Segundo Reinado de D. Pedro II. Em 1889 veio a República. A Primeira República foi dominada pelas oligarquias estaduais, especialmente pelas elites de São Paulo e Minas Gerais. Depois vieram governos como os de Getúlio Vargas, Eurico Gaspar Dutra, Juscelino Kubitschek, Jânio Quadros, João Goulart, a ditadura militar de 1964–1985 e, posteriormente, a Nova República.

A própria organização constitucional demonstra como o país atravessou regimes profundamente diferentes. A Constituição de 1824, por exemplo, foi outorgada por D. Pedro I depois da dissolução da Assembleia Constituinte e estabeleceu o Poder Moderador, concentrando enorme autoridade nas mãos do imperador.

Portanto, é historicamente inadequado simplesmente chamar todos os governos anteriores a Lula de “direita” no sentido contemporâneo. As categorias esquerda, direita, liberal, conservador, nacional-desenvolvimentista, autoritário e democrático mudaram de significado ao longo de dois séculos.

Entretanto, existe uma questão importante: Lula, Dilma e novamente Lula representam a primeira experiência prolongada de governos federais liderados pelo Partido dos Trabalhadores e por uma coalizão política identificada com a esquerda desde a redemocratização. Isso é muito diferente de afirmar que “a esquerda governou o Brasil durante toda a sua história”.

ENTÃO, QUEM GOVERNOU O BRASIL ANTES DA ESQUERDA CHEGAR À PRESIDÊNCIA?

O Brasil passou por monarquia, oligarquias republicanas, governos autoritários, ditaduras, governos trabalhistas, desenvolvimentistas, liberais, conservadores e diferentes coalizões.

Durante o Império, o país era uma monarquia constitucional e escravista.

Durante a República Velha, o poder esteve fortemente associado às oligarquias agrárias e às elites políticas estaduais.

Getúlio Vargas rompeu com a República Velha em 1930 e construiu um Estado centralizador, nacionalista e trabalhista. Seu governo não pode ser simplesmente encaixado na esquerda contemporânea: houve políticas sociais e trabalhistas importantes, mas também autoritarismo, censura e, durante o Estado Novo, uma ditadura.

Depois vieram governos democraticamente eleitos com diferentes orientações políticas, até o golpe de 1964 instalar uma ditadura militar que duraria 21 anos.

Portanto, a história brasileira não é uma história de “esquerda destruindo um país que sempre foi governado pela direita”. É uma história de alternância entre regimes, elites, projetos econômicos e diferentes concepções de Estado.

E A DÍVIDA COM O FMI?

Aqui existe um fato objetivo que merece ser lembrado.

Em dezembro de 2005, durante o primeiro governo Lula, o Brasil antecipou e liquidou integralmente os empréstimos que ainda possuía com o Fundo Monetário Internacional. O Banco Central registrou que o saldo de US$ 15,5 bilhões foi pago antecipadamente, utilizando reservas internacionais.

Isso não significa que o Brasil tenha deixado de possuir dívida pública — jamais deixou. Tampouco significa que todos os problemas econômicos tenham desaparecido.

Mas significa algo específico e historicamente importante: o Brasil quitou antecipadamente sua dívida então existente com o FMI e encerrou aquele programa de assistência financeira.

É justamente aí que uma discussão séria deveria começar.

Se alguém afirma que determinado governo “destruiu o Brasil”, precisa apresentar indicadores, séries históricas, dados fiscais, crescimento, emprego, inflação, pobreza, desigualdade, reservas internacionais e outros elementos objetivos.

Não basta dizer: “eu ouvi falar”.

O BRASIL PASSOU A EMPRESTAR DINHEIRO?

Também é preciso colocar os fatos no lugar correto.

Depois da melhora das contas externas e do acúmulo de reservas, o Brasil passou de uma situação de dependência de programas do FMI para uma posição financeira internacional muito diferente.

Isso não transforma o Brasil em uma potência econômica sem problemas, mas representa uma mudança importante em relação à situação de vulnerabilidade externa existente em períodos anteriores.

O ponto central é este: a história econômica não pode ser reduzida a slogans partidários.

Um governo pode acertar em algumas políticas e errar em outras. Um governo pode melhorar determinados indicadores e piorar outros. Democracia exige justamente essa capacidade de avaliar resultados sem transformar governantes em santos ou demônios.

E O MAPA DA FOME?

Outro fato frequentemente transformado em disputa ideológica é a saída do Brasil do Mapa da Fome.

A FAO registra que o Brasil saiu do Mapa da Fome em 2014, depois de mais de uma década de fortalecimento da proteção social e de políticas de segurança alimentar. A organização também destacou a redução de 82% no número de pessoas subalimentadas entre 2002 e 2014.

Isso não significa que Lula sozinho tenha produzido esse resultado. Políticas públicas são construídas ao longo de anos, por diferentes instituições e governos.

Mas também é incorreto negar que os governos petistas tenham desempenhado papel importante nesse processo.

E existe uma informação ainda mais interessante: o Brasil voltou a sair do Mapa da Fome no período 2022–2024, segundo a FAO. Ou seja, a questão alimentar não pertence ideologicamente a um partido. Ela depende de políticas públicas, condições econômicas, emprego, renda, agricultura, proteção social e decisões de diferentes governos.

“MAS O GOVERNO LULA PERSEGUE IGREJAS!”

Essa afirmação precisa ser confrontada com fatos.

Em 2009, durante o segundo governo Lula, foi sancionada a Lei nº 12.025, que instituiu o Dia Nacional da Marcha para Jesus. A lei foi sancionada em 3 de setembro de 2009 pelo próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Isso, por si só, não prova que um governo seja “religioso” ou “defensor de determinada igreja”. Mas desmonta a narrativa simplista de que governos de esquerda seriam automaticamente inimigos dos evangélicos.

Mais importante ainda: liberdade religiosa não pertence à direita.

A Constituição de 1988 assegura expressamente a liberdade de consciência e de crença, o livre exercício dos cultos religiosos e a proteção aos locais de culto e suas liturgias. Também determina que ninguém seja privado de direitos por motivo de crença religiosa ou convicção filosófica ou política.

Essa garantia constitucional vale para católicos, evangélicos, espíritas, religiões de matriz africana, judeus, muçulmanos, outras tradições religiosas, agnósticos, ateus e pessoas que simplesmente não desejam professar religião.

A liberdade religiosa pertence ao cidadão. Não pertence a um partido.

DEUS COMO CABO ELEITORAL

Existe ainda uma questão mais delicada.

Quando alguém aparece dizendo que “Deus mandou avisar que determinado governo é diabólico”, estamos diante de uma afirmação religiosa que não pode ser apresentada como fato político verificável.

Nenhum cidadão possui certificado divino de autoridade política.

Uma pessoa pode acreditar sinceramente que recebeu uma orientação espiritual. Ela tem liberdade para expressar sua fé. Mas isso não transforma automaticamente sua declaração em verdade objetiva nem dá a ela autoridade para falar em nome de Deus perante toda a sociedade.

É especialmente perigoso quando líderes ou influenciadores utilizam supostas revelações sobrenaturais para transformar adversários políticos em inimigos de Deus.

A partir daí, a disputa deixa de ser:

“Qual projeto de país é melhor?”

e passa a ser:

“Quem está com Deus e quem está contra Deus?”

Esse segundo caminho é perigosíssimo para uma democracia plural.

Não cabe ao Estado determinar quem é salvo ou condenado. Tampouco cabe ao político transformar sua preferência partidária em mandamento religioso.

O PROBLEMA NÃO É A FÉ. É A MANIPULAÇÃO DA FÉ.

É perfeitamente legítimo que um cristão seja de direita.

Também é perfeitamente legítimo que seja de esquerda.

Pode ser católico, evangélico, espírita ou pertencer a qualquer outra tradição religiosa.

Pode inclusive ser religioso e não querer que sua religião seja utilizada como instrumento partidário.

O problema surge quando alguém afirma:

“Eu sou o verdadeiro cristão porque voto neste candidato.”

Ou:

“Quem vota na esquerda é contra Deus.”

Ou:

“Quem critica determinado político está atacando a família e a religião.”

Isso transforma uma convicção política em uma espécie de identidade religiosa obrigatória.

E aí temos um problema democrático.

STF, URNAS E A DESLEGITIMAÇÃO DAS INSTITUIÇÕES

Outro fenômeno que merece atenção é a repetição sistemática de discursos que apresentam o Supremo Tribunal Federal, o sistema eleitoral, jornalistas, professores, universidades, movimentos sociais, partidos e adversários políticos como partes de uma grande conspiração.

Criticar o STF é legítimo.

Criticar o governo é legítimo.

Criticar o Congresso é legítimo.

Criticar a imprensa é legítimo.

Questionar políticas públicas é legítimo.

O que não fortalece a democracia é transformar toda instituição que contraria determinada corrente política em instituição ilegítima.

Da mesma maneira, uma democracia não pode funcionar se cada derrota eleitoral for imediatamente interpretada como prova de fraude.

O princípio democrático é simples: quem acusa fraude precisa apresentar evidências verificáveis.

Sem evidências, a acusação transforma-se apenas em narrativa.

A GRANDE CONTRADIÇÃO

Existe uma contradição profunda no discurso de quem afirma defender “família, pátria e religião”, mas simultaneamente estimula o ódio contra brasileiros que pensam diferente.

A família não deveria ser propriedade eleitoral.

A pátria não deveria ser propriedade partidária.

A religião não deveria ser propriedade de candidato.

E o bem não deveria ter dono político.

Um cidadão de esquerda pode amar a família.

Um cidadão de direita pode amar a família.

Um católico pode ser conservador.

Um evangélico pode ser progressista.

Um ateu pode ser patriota.

Um socialista pode amar o Brasil.

Um liberal pode defender políticas sociais.

A democracia existe justamente porque não somos obrigados a pensar da mesma maneira.

“A ESQUERDA ESTÁ DESTRUINDO O BRASIL”?

Essa afirmação precisa responder a uma pergunta simples:

Qual esquerda? Qual governo? Qual política? Qual indicador? Qual período?

Se a acusação não consegue responder a essas perguntas, provavelmente estamos diante de propaganda política, e não de análise.

Governos de esquerda podem cometer erros.

Governos de direita podem cometer erros.

Governos de centro podem cometer erros.

Presidentes podem errar.

Ministros podem errar.

Parlamentares podem errar.

Instituições podem errar.

É justamente por isso que democracias precisam de imprensa livre, Judiciário independente, Legislativo atuante, eleições, fiscalização, oposição e liberdade de expressão.

O perigo começa quando alguém acredita que somente o seu grupo representa o “bem” e que todos os outros representam o “mal”.

O VERDADEIRO PATRIOTISMO

Patriotismo não é gritar mais alto.

Não é vestir uma camisa verde e amarela.

Não é colocar a bandeira no carro.

Não é chamar adversários de traidores.

Patriotismo também é defender a Constituição.

É respeitar o resultado eleitoral.

É aceitar que o adversário político também é brasileiro.

É defender a liberdade religiosa de quem possui uma fé diferente.

É defender o direito de quem não possui fé.

É exigir honestidade de políticos do próprio campo.

É denunciar corrupção independentemente da legenda.

É proteger crianças, idosos, trabalhadores e pessoas vulneráveis.

É desejar que o país seja melhor para quem pensa como nós e também para quem pensa diferente de nós.

O ALERTA QUE PRECISA SER FEITO

O Brasil precisa ter cuidado com qualquer movimento político que procure transformar adversários em inimigos absolutos, instituições em inimigas do povo, eleições em suspeitas permanentes e divergências políticas em batalhas religiosas.

Isso não é exclusividade de uma única ideologia. Qualquer grupo político que faça isso deve ser questionado.

A experiência histórica demonstra que democracias não costumam desaparecer de uma só vez. Elas podem ser enfraquecidas gradualmente pela normalização da mentira, pelo desprezo às instituições, pela desumanização do adversário e pela ideia de que somente determinado grupo possui legitimidade para governar.

Por isso, a pergunta não deveria ser:

“Qual lado é dono da família, de Deus, da pátria e do bem?”

A pergunta correta deveria ser:

“Quais propostas melhor defendem a democracia, os direitos fundamentais, a liberdade, a justiça social, o desenvolvimento econômico e a dignidade humana — e quais evidências sustentam essa conclusão?”

Essa é uma pergunta muito mais difícil.

Mas é também uma pergunta muito mais democrática.

O Brasil não precisa de cidadãos que obedeçam cegamente à direita ou à esquerda.

Precisa de cidadãos que leiam, estudem, comparem fontes, questionem discursos, desconfiem de salvadores da pátria e exijam provas antes de acreditar em acusações extraordinárias.

E, sobretudo, precisa compreender que Deus não precisa de candidato, partido ou cabo eleitoral para continuar sendo Deus.

Quando a religião é utilizada para fabricar medo, quando a mentira é apresentada como profecia e quando a política transforma brasileiros em inimigos uns dos outros, é hora de parar, respirar e perguntar:

Quem realmente está defendendo o Brasil — e quem está apenas tentando conquistar poder utilizando os sentimentos mais profundos do povo?

Acordar não significa escolher automaticamente esquerda ou direita.

Acordar significa deixar de entregar o próprio pensamento a qualquer político, influenciador, pastor, padre, deputado ou suposto “profeta” que exija fé cega em suas palavras.

A democracia brasileira pertence a todos.

A família pertence a todos.

A liberdade religiosa pertence a todos.

A pátria pertence a todos.

E o Brasil pertence aos brasileiros — não a uma ideologia, não a um partido e muito menos a quem se proclama, por conta própria, representante exclusivo do bem.



 

15/08/26

Quando a democracia esquece o passado... Mas eu não esqueço... Jamais esquecerei.

de 1964 a 8 de janeiro de 2023 e o perigo permanente do autoritarismo

“Temos ódio e nojo à ditadura.”

A frase pronunciada por Ulysses Guimarães em 5 de outubro de 1988 permanece como uma das declarações mais contundentes da história democrática brasileira. Naquele dia, ao promulgar a Constituição Federal, Ulysses não estava apenas encerrando formalmente os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte. Estava simbolicamente fechando uma porta que o Brasil jamais deveria voltar a abrir: a porta do autoritarismo, da censura, da perseguição política, da tortura e do poder sem limites.

É importante, entretanto, separar história de montagem digital. Não há registro autêntico de Ulysses, naquele discurso de 1988, fazendo a denúncia nominal de Jair Bolsonaro que atualmente circula em vídeos nas redes sociais. O discurso original está preservado no acervo da Câmara dos Deputados, e verificações recentes demonstraram que vídeos que atribuem a Ulysses críticas específicas a Bolsonaro foram manipulados por inteligência artificial.

Mas existe algo ainda mais importante: o conteúdo verdadeiro do discurso de Ulysses é suficientemente poderoso sem precisar ser adulterado.

Ele sabia, como poucos homens de sua geração, o que significava perder a democracia.

1964: quando o discurso de “salvar a democracia” terminou em ditadura

Em 1964, o Brasil viveu uma ruptura institucional. O governo constitucional de João Goulart foi derrubado e os militares assumiram o controle do Estado.

Durante décadas, setores favoráveis ao regime tentaram apresentar aquele episódio como uma “Revolução de 1964” destinada a impedir que o Brasil se transformasse em uma ditadura comunista.

Essa narrativa, porém, não explica o que veio depois.

O que veio depois foram Atos Institucionais, cassações de mandatos, perseguições políticas, censura, prisões arbitrárias, tortura, assassinatos e desaparecimentos forçados.

O regime que dizia defender a democracia suspendeu direitos democráticos.

E existe outro elemento que não pode ser ignorado: a participação dos Estados Unidos.

Documentos históricos mostram que Washington acompanhava cuidadosamente a crise brasileira e preparou a Operação Brother Sam, destinada a oferecer apoio logístico aos militares brasileiros caso fosse necessário. A Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos registra que o governo norte-americano desejava garantir no Brasil um governo alinhado aos interesses americanos e anticomunista.

Documentos preservados nos arquivos americanos mostram inclusive comunicações dos chefes militares dos Estados Unidos sobre a operação e o envio de recursos e armamentos.

É uma das grandes ironias da Guerra Fria: em nome da defesa da “democracia” contra o comunismo, uma potência estrangeira apoiava logisticamente uma ruptura da ordem constitucional brasileira.

A história precisa ser lembrada justamente para que determinadas palavras não sejam utilizadas para esconder seus resultados.

A ditadura não foi apenas um governo militar

Outro erro comum é imaginar que a ditadura brasileira consistiu simplesmente em militares ocupando cargos no governo.

Não.

Tratava-se de um sistema político autoritário que criou mecanismos institucionais de repressão.

Existiam órgãos de inteligência, estruturas policiais, centros de interrogatório e mecanismos destinados a localizar, prender e destruir aqueles considerados inimigos do regime.

Entre esses lugares esteve o DOI-CODI de São Paulo.

E é nesse ponto que o nome de Carlos Alberto Brilhante Ustra se torna impossível de ignorar.

Ustra comandou o DOI-CODI do II Exército, em São Paulo, entre 1970 e 1974. Documentos produzidos por comissões de verdade associam sua atuação a graves violações de direitos humanos, incluindo sequestros, torturas, assassinatos e desaparecimentos forçados.

A Comissão da Memória e Verdade de São Paulo registra estimativa de dezenas de mortes relacionadas ao DOI-CODI paulista durante o período em que Ustra esteve no comando.

A Comissão Nacional da Verdade foi criada justamente para investigar graves violações de direitos humanos ocorridas entre 1946 e 1988 e produziu um relatório final em três volumes.

Não estamos, portanto, diante de uma simples disputa entre “opiniões de esquerda e de direita”.

Estamos diante de documentos, testemunhos, investigações históricas e registros oficiais sobre violações cometidas pelo Estado.

O que significa tortura praticada pelo Estado?

Tortura não é método legítimo de investigação.

Tortura não é patriotismo.

Tortura não é combate ao comunismo.

Tortura não é defesa da família.

Tortura não é defesa da ordem.

Tortura é a destruição deliberada da dignidade humana.

O preso político não precisava ser culpado de qualquer crime para ser submetido à violência. Bastava ser considerado suspeito, opositor ou integrante de uma organização considerada inimiga.

Homens e mulheres foram presos clandestinamente. Famílias foram destruídas. Pessoas desapareceram. Cadáveres foram ocultados. Informações foram falsificadas.

Há casos documentados de pessoas mortas sob tortura nas dependências do DOI-CODI paulista. O caso de Luiz Eduardo da Rocha Merlino, por exemplo, consta dos registros da Comissão da Verdade de São Paulo como morte sob tortura, com a cadeia de comando apontando para o DOI-CODI comandado por Ustra.

É preciso ter coragem para olhar para essa história.

Porque quem relativiza a tortura está ensinando às próximas gerações que determinados seres humanos podem perder seus direitos quando o Estado decide classificá-los como inimigos.

E essa é precisamente a lógica que uma democracia deve impedir.

A questão Bolsonaro e o culto ao passado autoritário

Jair Bolsonaro entrou na política institucional no final dos anos 1980, tornando-se vereador do Rio de Janeiro em 1989. Portanto, também aqui é necessário evitar anacronismos: Ulysses não poderia ter feito em 5 de outubro de 1988 o discurso específico que hoje circula nas redes sociais contra Bolsonaro.

Mas existe um episódio posterior, perfeitamente documentado, que ajuda a compreender a associação política entre Bolsonaro e a memória da ditadura.

Durante a votação do impeachment de Dilma Rousseff, em 2016, Jair Bolsonaro dedicou seu voto à memória de Carlos Alberto Brilhante Ustra.

Esse fato não é invenção de adversários políticos. Está registrado historicamente.

E essa homenagem é particularmente significativa porque Ustra não é uma figura neutra na história brasileira. Seu nome aparece nos registros das comissões de verdade associado a graves violações de direitos humanos.

É perfeitamente legítimo discutir politicamente a trajetória de Bolsonaro. O que não é legítimo, do ponto de vista histórico, é transformar fatos comprovados em propaganda falsa.

A democracia precisa de verdade.

E chegamos ao 8 de janeiro de 2023

Aqui a história ganha uma dimensão ainda mais preocupante.

Em 8 de janeiro de 2023, grupos invadiram e depredaram as sedes do Supremo Tribunal Federal, do Congresso Nacional e do Palácio do Planalto.

Não foi uma simples manifestação política.

Foi uma agressão contra as instituições republicanas.

O próprio STF registrou que os edifícios dos Três Poderes foram severamente vandalizados e que as instituições precisaram reconstruir suas instalações após os ataques.

Posteriormente, investigações e processos passaram a examinar diferentes núcleos e responsabilidades relacionados aos atos antidemocráticos. Em abril de 2026, o STF divulgou balanço atualizado das investigações e condenações, registrando milhares de medidas processuais relacionadas aos acontecimentos.

Portanto, quando alguém afirma que o 8 de janeiro foi apenas uma “manifestação de indignados”, está apagando uma parte essencial dos acontecimentos.

Manifestação política é direito democrático.

Invadir prédios públicos para impedir ou pressionar o funcionamento das instituições é outra coisa.

A perigosa fabricação do inimigo

É aqui que chegamos ao problema mais profundo.

Nenhuma democracia morre somente porque um governante decide destruí-la.

Ela começa a morrer quando uma parcela da sociedade passa a acreditar que determinados cidadãos não deveriam ter os mesmos direitos que ela.

Quando o adversário político deixa de ser adversário e passa a ser “inimigo”.

Quando juiz passa a ser tratado como inimigo do povo simplesmente porque toma decisões desagradáveis.

Quando jornalistas são considerados traidores porque criticam o governo.

Quando professores são acusados de doutrinação simplesmente porque ensinam história.

Quando universidades passam a ser tratadas como centros de conspiração.

Quando instituições eleitorais são demonizadas porque o resultado das urnas não agradou.

Quando o Supremo Tribunal Federal é apresentado como uma organização criminosa simplesmente porque exerce sua função constitucional.

Essa lógica é perigosíssima.

É preciso poder criticar o STF.

É preciso poder criticar ministros.

É preciso poder criticar o Congresso.

É preciso poder criticar o presidente.

É preciso poder questionar decisões judiciais dentro dos instrumentos legais.

Mas criticar uma instituição é completamente diferente de destruir sua legitimidade perante a sociedade para justificar sua eliminação.

As urnas eletrônicas e a desconfiança como arma política

Outro ponto fundamental é a transformação da desconfiança eleitoral em instrumento permanente de mobilização.

Em uma democracia, perder uma eleição não significa que o sistema inteiro foi fraudado.

Significa que o eleitorado escolheu outro candidato.

Se existem evidências concretas de fraude, elas devem ser apresentadas e examinadas pelos mecanismos institucionais.

Mas transformar suspeitas sem provas em uma certeza absoluta é outra coisa.

É uma forma de preparar psicologicamente a população para rejeitar antecipadamente qualquer resultado eleitoral desfavorável.

E isso representa um risco enorme.

Porque uma democracia depende de uma regra elementar:

quem ganha governa dentro da Constituição; quem perde fiscaliza, critica e se prepara para disputar novamente.

Se o derrotado decide que só aceitará uma eleição quando vencer, já não estamos falando de democracia.

Estamos falando de personalismo político.

A alienação dos pobres contra os próprios interesses

Existe ainda uma questão social que merece reflexão.

É possível encontrar trabalhadores pobres defendendo políticas que podem prejudicar trabalhadores pobres.

É possível encontrar pessoas negras apoiando discursos de discriminação.

É possível encontrar cidadãos que dependem dos serviços públicos defendendo a destruição de políticas públicas.

É possível encontrar trabalhadores defendendo privilégios que beneficiam principalmente aqueles que possuem muito mais poder econômico.

Isso acontece porque o comportamento político não é determinado exclusivamente pela condição econômica.

Identidade, religião, medo, ressentimento, pertencimento, propaganda, desinformação, valores familiares e percepção de ameaça também influenciam profundamente as escolhas políticas.

Por isso é inadequado simplesmente chamar essas pessoas de “burras” ou “ignorantes”.

O problema é mais complexo.

A manipulação política funciona justamente porque transforma problemas reais em inimigos imaginários.

O trabalhador que está desempregado pode ser convencido de que o culpado é o imigrante.

O pobre pode ser convencido de que o inimigo é outro pobre que recebe uma política social.

O cidadão pode ser convencido de que o problema é o Supremo.

O eleitor pode ser convencido de que jornalistas são seus inimigos.

O indivíduo pode ser convencido de que qualquer pessoa que pensa diferente é uma ameaça.

Assim nasce uma sociedade fragmentada.

E uma sociedade fragmentada é muito mais fácil de manipular.

Mas não devemos repetir o mesmo erro no sentido inverso

Também é necessário fazer uma crítica à esquerda, ao centro e a qualquer setor político que caia na tentação de tratar milhões de brasileiros como inimigos.

Não se combate autoritarismo com autoritarismo.

Não se combate propaganda com mentira.

Não se combate extremismo desumanizando pessoas.

É perfeitamente possível condenar ideias autoritárias sem odiar todos aqueles que foram atraídos por elas.

Uma democracia madura precisa convencer.

Precisa educar.

Precisa apresentar fatos.

Precisa mostrar contradições.

Precisa defender direitos inclusive para aqueles que discordam dela.

Caso contrário, acabaremos reproduzindo aquilo que estamos tentando combater.

O alerta de Ulysses continua atual

Embora seja incorreto atribuir a Ulysses uma previsão específica sobre Bolsonaro em 1988, suas palavras daquele dia continuam assustadoramente atuais.

Ulysses advertiu contra o caminho da ruptura constitucional, contra o fechamento do Parlamento e contra a destruição das liberdades.

O acervo oficial da Câmara registra seu discurso de 5 de outubro de 1988 como o pronunciamento de promulgação da Constituição, no qual ressaltou a importância dos direitos, das instituições e da democracia.

A grandeza de Ulysses não está em ter previsto nominalmente um personagem futuro.

Está em ter compreendido uma verdade política permanente:

instituições democráticas precisam ser defendidas antes que sejam destruídas.

O perigo de uma nova tentativa autoritária

O Brasil precisa olhar com extrema atenção para qualquer movimento político que:

  • ataque sistematicamente a legitimidade das eleições;
  • apresente adversários como inimigos nacionais;
  • incentive a desconfiança absoluta nas instituições;
  • defenda intervenção militar contra governos legitimamente eleitos;
  • trate a Constituição como obstáculo;
  • tente transformar Forças Armadas em instrumento partidário;
  • glorifique torturadores;
  • incentive violência política;
  • ataque jornalistas e pesquisadores;
  • transforme o Supremo Tribunal Federal em inimigo absoluto;
  • ou tente convencer a sociedade de que somente um determinado líder pode “salvar” o país.

Nenhum desses comportamentos pertence ao funcionamento normal de uma democracia.

E a experiência brasileira demonstra que rupturas institucionais nunca são tão simples quanto seus defensores prometem.

Em 1964 disseram que seria necessário salvar o Brasil.

O resultado foi uma ditadura que durou duas décadas.

Em 1988, Ulysses ajudou a construir uma Constituição destinada justamente a impedir que aquilo se repetisse.

Em 2023, os prédios dos Três Poderes foram novamente atacados por aqueles que recusavam a legitimidade do resultado eleitoral e defendiam uma ruptura institucional.

A história, portanto, não é uma linha reta.

Ela pode retroceder.

Acorda, Brasil

O maior perigo talvez não seja apenas o político autoritário.

O maior perigo é a sociedade se acostumar com o autoritarismo.

É o cidadão achar normal pedir fechamento do Supremo.

É achar normal pedir intervenção militar porque perdeu uma eleição.

É achar normal homenagear torturadores.

É achar normal ameaçar jornalistas.

É achar normal espalhar mentira eleitoral.

É achar normal chamar milhões de brasileiros de inimigos.

É achar que democracia só é boa quando o candidato de sua preferência vence.

Não.

Democracia é aceitar que o outro também tem direitos.

Democracia é aceitar que o adversário político continuará existindo amanhã.

Democracia é aceitar que um juiz pode contrariar você.

Democracia é aceitar que uma eleição pode produzir um resultado que você detesta.

Democracia é poder protestar sem destruir as instituições.

Democracia é poder criticar o presidente sem ser preso por isso.

Democracia é poder criticar o Supremo sem transformar crítica em tentativa de destruição institucional.

Democracia é, acima de tudo, reconhecer que nenhum homem é maior que a República.

Nem Bolsonaro.

Nem Lula.

Nem qualquer presidente.

Nem qualquer ministro.

Nem qualquer general.

Nem qualquer deputado.

Nem qualquer partido.

A Constituição é maior.

O Estado Democrático de Direito é maior.

A República é maior.

E é exatamente por isso que o Brasil precisa permanecer vigilante.

Não se trata de viver permanentemente com medo de uma nova ditadura. Trata-se de compreender que a democracia precisa ser cultivada diariamente.

As instituições precisam ser aperfeiçoadas, não destruídas.

As urnas precisam ser fiscalizadas, não demonizadas sem provas.

O Supremo pode ser criticado, mas não pode ser transformado em inimigo público por conveniência política.

As Forças Armadas devem permanecer subordinadas à Constituição, e não a projetos pessoais de poder.

E a memória das vítimas da ditadura precisa permanecer viva para que ninguém volte a acreditar que tortura, censura, desaparecimento e violência de Estado sejam instrumentos aceitáveis de governo.

Ulysses Guimarães não previu nominalmente Bolsonaro em 1988.

Mas deixou uma mensagem que atravessa gerações:

“Temos ódio e nojo à ditadura.”

Essa frase não pertence à esquerda.

Não pertence à direita.

Não pertence a um partido.

Pertence à memória democrática brasileira.

E talvez seja exatamente isso que o Brasil precise compreender novamente:

a democracia não é propriedade de quem venceu a eleição. É o patrimônio também de quem perdeu.

Acorda, Brasil.

Não porque amanhã necessariamente haverá uma nova ruptura.

Mas porque nenhuma sociedade responsável espera a democracia ser destruída para só então perceber que deveria tê-la defendido.

A democracia precisa ser defendida antes do incêndio.

Depois dele, pode ser tarde demais.

14/08/26

PORQUE TANTO ÓDIO DE PARTES DOS EVANGÉLICOS E OUTROS, CONTRA O STF E SEUS MAGISTRADOS?


 

A Desconstrução do STF e das Instituições

O Supremo Tribunal Federal, em qualquer democracia, exerce uma função contramajoritária. Isso significa que seu papel não é agradar a maioria, mas proteger a Constituição, mesmo que isso desagrade a opinião pública ou o governo vigente.

O que se viu nos últimos anos no Brasil foi uma estratégia política deliberada de transformar o STF no "inimigo do povo". Quando líderes políticos não conseguem impor suas vontades de forma absoluta (devido aos freios e contrapesos do sistema democrático), a tática autoritária clássica é convencer a base de que a instituição que os freia é ilegítima, corrupta ou "trabalha contra o país". Para pessoas de vida simples e trabalhadoras, que muitas vezes não têm tempo para estudar o complexo funcionamento do sistema judiciário, uma narrativa simplista e repetida à exaustão ("o STF solta bandidos e persegue pessoas de bem") torna-se uma verdade absoluta. É um método que canaliza as frustrações reais da população contra um alvo fabricado.

A Guerra de Narrativas e a Seletividade Moral

O fenômeno da criminalização do adversário político é outra marca de processos de radicalização. A estratégia de associar o PT (e a esquerda em geral) exclusivamente a organizações criminosas serve a um propósito muito claro: desumanizar o oponente. Se o adversário não é mais um adversário político, mas um "inimigo da pátria" ou a personificação do mal, qualquer ação contra ele passa a ser justificada.

Ao mesmo tempo, ocorre a "vista grossa" ou a blindagem discursiva sobre os próprios problemas. As ligações históricas e perigosas de setores da extrema direita com o crime organizado paramilitar (as milícias no Rio de Janeiro, o garimpo ilegal, a grilagem de terras) são ignoradas, minimizadas ou justificadas por essa mesma base. É uma seletividade moral onde a corrupção ou o crime só existem quando praticados pelo outro lado.

O Paralelo Histórico: O Risco do Comportamento de Manada

A sua náusea e a comparação com a Alemanha dos anos 1930 nascem de uma observação atenta do comportamento humano. Você está presenciando a banalidade do mal e a radicalização pelo pertencimento.

O fascismo e o nazismo não cresceram porque a maioria de suas populações era composta por monstros sociopatas, mas porque pessoas comuns foram convencidas, pelo medo e pela propaganda, de que estavam sob ameaça existencial. O ódio unifica. Ter um inimigo em comum (sejam os judeus no passado, ou o STF, a esquerda e as minorias hoje) cria um senso de identidade e pertencimento em grupos religiosos e sociais. É urgente interromper esse ciclo antes que o ódio retórico se converta em violência física sistêmica, pois a história é implacável em nos mostrar onde a desumanização termina.

Refutação e Chamamento à Consciência

A ideia de que o STF e as instituições "só fazem maldades contra os brasileiros" é a maior armadilha já plantada contra a nossa liberdade. Instituições são formadas por seres humanos e, portanto, são falhas, cometem erros e devem ser criticadas juridicamente e politicamente. Porém, são as instituições a única barreira que separa a civilização da barbárie. Sem uma Suprema Corte, sem um sistema eleitoral independente, sem regras claras, o que impera é a lei do mais forte — o domínio do autoritarismo e das milícias. Defender as instituições não é endeusar seus ministros, mas defender as regras do jogo que nos mantêm livres.

Diante do abismo que a polarização e o extremismo cavaram, não há outra saída senão o despertar político cidadão. O Brasil caminha para o desgaste irreversível de sua democracia se não mudarmos a forma como escolhemos nossos representantes.

Este é um chamamento urgente para a responsabilidade do voto: Não podemos mais entregar o destino do país a políticos que usam o pânico moral, o ódio e a religião como ferramentas de manipulação. Precisamos de uma avaliação profunda, sincera e racional sobre cada candidato a Deputado Estadual e Federal, Senador, Governador e Presidente da República.

Precisamos eleger construtores, não destruidores. Políticos que debatam projetos reais para a desigualdade, a fome, a segurança e a economia, e não aqueles que vivem de fabricar crises institucionais para se manterem no poder.

O aviso está dado pelas páginas mais sombrias da história mundial. Acorda, Brasil, que ainda dorme em Berço Esplêndido. A democracia não é eterna; ela só sobrevive enquanto houver quem tenha coragem de defendê-la.

QUANDO O ÓDIO ÀS INSTITUIÇÕES AMEAÇA A DEMOCRACIA; VEMOS NA IRA PLANTADA PELO BOLSONARISMO EM MUITA GENTE CONTRA O STF

O STF, a dita polarização política, a desinformação e a responsabilidade da escolha.

O Brasil precisa fazer uma pausa, respirar e olhar para si mesmo. A política deixou de ser, para parcelas da sociedade, uma disputa legítima de ideias e passou a ser tratada como uma guerra moral em que o adversário é apresentado como inimigo absoluto. Nesse ambiente, o Supremo Tribunal Federal (STF) tornou-se um dos principais alvos de uma campanha permanente de desconfiança, hostilidade e, em determinados setores, até de defesa explícita de seu fechamento ou de sua destruição institucional.

É necessário, entretanto, separar crítica legítima de ódio institucional.

Criticar uma decisão do STF é perfeitamente democrático. Questionar votos de ministros, discordar de interpretações constitucionais, defender mudanças legislativas ou até considerar que determinado ministro errou é direito de qualquer cidadão. O que ameaça a democracia é transformar toda decisão judicial desfavorável em prova de que "o STF é inimigo do povo", ou transformar ministros, parlamentares, jornalistas, professores, partidos e adversários políticos em inimigos que precisam ser eliminados do debate público.

A Constituição é clara ao estabelecer que cabe ao STF, precipuamente, a guarda da própria Constituição. Portanto, quando uma decisão desagrada a determinado grupo político, isso não significa automaticamente que a Corte esteja "contra o povo". Significa que existe uma instituição constitucional exercendo uma função que lhe foi atribuída pelo próprio ordenamento jurídico.

O STF não é um partido político

Existe uma confusão perigosa no debate brasileiro: tratar o STF como se fosse uma legenda eleitoral.

Ministros do Supremo não são deputados, senadores, governadores ou candidatos à Presidência. Sua função é jurisdicional. O Tribunal pode cometer erros, decisões podem ser controversas e seus integrantes podem ser criticados. Mas a crítica precisa ser feita com argumentos jurídicos, fatos e evidências — não mediante a fabricação de uma narrativa segundo a qual onze ministros estariam permanentemente conspirando contra dezenas de milhões de brasileiros.

Essa generalização é intelectualmente frágil.

Também é preciso lembrar que o STF não possui poder absoluto. O Brasil possui separação de Poderes, Congresso Nacional, Presidência da República, Ministério Público, tribunais, governos estaduais, municípios, imprensa, sociedade civil e eleitorado. A democracia brasileira é justamente construída sobre instituições que controlam umas às outras.

Quando alguém diz "o STF manda em tudo", deveria perguntar também: por que tantos conflitos políticos acabam chegando ao Judiciário?

Essa pergunta é fundamental.

O problema começa quando a crítica vira deslegitimação

Uma democracia saudável suporta críticas duríssimas. Uma democracia doente começa a considerar qualquer instituição legítima apenas quando ela produz o resultado desejado por determinado grupo.

Se uma decisão favorece meu lado, "a Justiça funcionou".

Se desfavorece meu lado, "a Justiça é uma ditadura".

Essa lógica não é democrática. É simplesmente a substituição do Estado de Direito pela conveniência política.

Os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023 demonstraram até onde pode chegar a radicalização. Houve invasão e depredação das sedes dos Três Poderes. O próprio STF registra que, até janeiro de 2026, 1.399 pessoas haviam sido responsabilizadas por atos relacionados àquele episódio.

Isso não significa que todo eleitor de direita, todo conservador, todo bolsonarista ou todo evangélico seja golpista. Essa generalização seria tão injusta quanto a acusação de que todo eleitor de esquerda é criminoso ou inimigo do Brasil.

Não é disso que se trata.

A questão é outra: qualquer projeto político que pretenda destruir, intimidar ou submeter instituições independentes precisa ser enfrentado democraticamente, independentemente de estar à direita, à esquerda ou no centro.

Não se pode transformar o PT em sinônimo de crime

Outro fenômeno igualmente perigoso é a associação automática entre o Partido dos Trabalhadores e organizações criminosas.

É perfeitamente legítimo criticar o PT. É legítimo criticar governos petistas, dirigentes, parlamentares e políticas públicas. Também é legítimo investigar e punir qualquer integrante de partido que tenha cometido crime.

Mas uma coisa é responsabilizar pessoas concretas por crimes comprovados. Outra é transformar milhões de eleitores e uma organização partidária inteira em uma caricatura criminosa.

O mesmo raciocínio deve ser aplicado à direita.

Se houver integrantes de qualquer partido envolvidos com corrupção, organizações criminosas, milícias ou outros delitos, que sejam investigados, processados e, havendo prova e condenação conforme a lei, responsabilizados.

Mas não se pode fazer uma operação seletiva na qual o crime do adversário vira "prova de que todo o partido é criminoso", enquanto suspeitas ou crimes envolvendo aliados são tratados como perseguição.

A régua precisa ser a mesma para todos.

Se existe envolvimento de agentes políticos com milícias ou organizações criminosas, isso deve ser investigado com rigor, independentemente da ideologia, religião, partido ou posição social do investigado. Não é aceitável utilizar o combate ao crime como arma de propaganda política.

O perigo da comparação com nazismo e fascismo

A comparação entre o ambiente brasileiro e a Alemanha nazista deve ser utilizada com muito cuidado. O Brasil de hoje não é a Alemanha de Hitler, e fazer equivalências simplistas pode banalizar acontecimentos históricos de proporções monstruosas.

Mas existe uma lição histórica universal que merece ser lembrada.

Regimes autoritários frequentemente começam pela construção de inimigos absolutos: um grupo é apresentado como responsável por todos os problemas nacionais; depois, sua dignidade é diminuída; posteriormente, sua participação política é questionada; e finalmente podem surgir propostas para retirar direitos, silenciar vozes ou eliminar instituições que protegem o pluralismo.

Hitler e Mussolini demonstraram, de maneiras distintas, como propaganda, nacionalismo extremado, culto ao líder, desumanização dos adversários e destruição progressiva dos mecanismos de controle podem produzir tragédias.

Por isso, a questão não é afirmar que "todo bolsonarista é nazista" — afirmação tão absurda quanto perigosa.

A questão é reconhecer que nenhuma sociedade deve permitir que o ódio político se transforme em método permanente de mobilização.

E essa advertência vale para todos os lados.

A religião não pode ser transformada em instrumento de guerra política

Outro ponto especialmente delicado é a utilização da fé.

O povo evangélico brasileiro é plural. Há pessoas conservadoras, progressistas, moderadas, independentes, pobres, ricas, intelectuais, trabalhadores, empresários e pessoas que simplesmente não desejam transformar sua fé em programa partidário.

Ser evangélico não significa ser bolsonarista.

Ser católico não significa ser petista.

Ser ateu não significa ser de esquerda.

Ser conservador não significa ser antidemocrático.

Ser progressista não significa defender corrupção.

Essas simplificações servem apenas para criar tribos políticas.

A fé pode inspirar valores importantes como responsabilidade, compaixão, justiça, honestidade e respeito ao próximo. Mas quando líderes religiosos apresentam um candidato como se ele fosse o representante exclusivo de Deus na política, o cidadão precisa redobrar a prudência.

Nenhum político recebe mandato divino.

Todo político recebe mandato constitucional e eleitoral — e deve prestar contas à sociedade.

A verdadeira ameaça é quando o cidadão deixa de pensar

Talvez esse seja o aspecto mais preocupante.

Uma sociedade democrática não pode ser formada por pessoas que simplesmente repetem o que ouviram em vídeos, grupos de WhatsApp, igrejas, canais políticos, influenciadores ou redes sociais.

É preciso perguntar:

Quem está dizendo isso?

Qual é a fonte?

Existe documento?

Existe decisão judicial?

Existe investigação?

Há provas independentes?

Essa informação também seria aceita se prejudicasse o meu próprio lado?

A democracia exige cidadãos capazes de desconfiar inclusive daqueles que admiram.

Quem só verifica informações contra o adversário não está procurando a verdade. Está procurando munição.

Acorda, Brasil: a eleição não pode ser um campeonato de torcidas

As eleições de 2026 exigirão uma responsabilidade enorme do eleitorado. O TSE destaca justamente a importância do voto consciente, da compreensão das funções dos cargos e da fiscalização dos representantes.

Por isso, antes de votar para deputado estadual, deputado federal, senador, governador ou presidente, o brasileiro deveria abandonar a pergunta:

"Ele é do meu lado?"

E substituí-la por perguntas muito mais importantes:

"Ele respeita a democracia?"

"Respeita o resultado eleitoral quando perde?"

"Defende as instituições quando elas contrariam seus interesses?"

"Tem histórico de honestidade e responsabilidade?"

"Suas propostas são economicamente e administrativamente viáveis?"

"Como votou quando teve mandato?"

"Quem financia sua campanha?"

"Quais grupos políticos e econômicos o cercam?"

"Ele espalha informações verificáveis ou vive de boatos?"

"Defende a liberdade de expressão inclusive para quem discorda dele?"

"Combate corrupção mesmo quando o suspeito pertence ao seu próprio grupo?"

"Respeita pobres, trabalhadores, minorias e adversários?"

"Apresenta soluções ou apenas fabrica inimigos?"

Essas perguntas deveriam valer para candidatos de direita, esquerda, centro e qualquer outra corrente.

O eleitor não deve entregar seu voto a alguém simplesmente porque essa pessoa fala sua linguagem, frequenta sua igreja, veste sua camisa política ou ataca os inimigos que ele aprendeu a odiar.

O Brasil precisa sair do "nós contra eles"

É perfeitamente possível ser de direita e defender o STF.

É possível ser de esquerda e criticar decisões do STF.

É possível ser conservador e defender direitos humanos.

É possível ser progressista e exigir responsabilidade fiscal.

É possível ser evangélico e votar em candidatos diferentes.

É possível ser católico e não apoiar determinado partido.

É possível ser brasileiro sem transformar adversários políticos em inimigos pessoais.

Essa maturidade é indispensável.

O Brasil não precisa de uma população uniformizada politicamente. Precisa de uma população livre para discordar.

Democracia não é todo mundo pensar igual.

Democracia é permitir que pessoas pensem diferente sem que uma delas precise destruir a outra.

A responsabilidade é nossa

O STF não pode ser colocado acima da crítica. Presidente da República não pode estar acima da Constituição. Congresso Nacional não pode estar acima da lei. Governadores não podem estar acima da fiscalização. Partidos não podem estar acima da sociedade. Igrejas não podem ser transformadas em máquinas eleitorais. E cidadãos não podem ser tratados como massa de manobra.

A democracia precisa de instituições fortes, mas também precisa de cidadãos conscientes.

O Brasil já conheceu ditaduras, censura, perseguição política, tortura, cassações e restrições de direitos. Não deveríamos precisar repetir essas experiências para compreender o valor da liberdade.

Por isso, é preciso interromper a escalada do ódio político antes que ela se torne normalidade.

Não devemos combater o extremismo com outro extremismo. Não devemos combater mentira com outra mentira. Não devemos combater intolerância tornando-nos intolerantes.

Devemos combater tudo isso com verdade, Constituição, educação, investigação, imprensa livre, Justiça independente, eleições legítimas e cidadania consciente.

E, sobretudo, com memória histórica.

Porque quando a política ensina o cidadão a odiar mais do que pensar, a democracia começa a perder.

Acorda, Brasil!

Não basta cantar que o país está deitado em "berço esplêndido". É preciso levantar, estudar, comparar, investigar, questionar e votar.

Que ninguém escolha deputado estadual, deputado federal, senador, governador ou presidente apenas porque recebeu um vídeo inflamado no celular.

Que ninguém vote apenas pelo ódio ao PT.

Que ninguém vote apenas pelo ódio ao bolsonarismo.

Que ninguém trate o STF como santo ou demônio.

Que ninguém transforme político em messias.

Examinemos todos. Cobremos todos. Fiscalizemos todos.

Porque o Brasil não pertence a Bolsonaro, Lula, PT, PL, STF, Congresso, igrejas ou qualquer liderança individual.

O Brasil pertence ao seu povo.

E a democracia somente continuará sendo nossa se tivermos coragem de defendê-la inclusive quando ela permite que o outro fale.

Esse é o verdadeiro despertar de uma nação.

Acorda, Brasil. O voto é seu. A Constituição é de todos. E o futuro não pode ser entregue ao ódio.

Soberania nacional: até onde uma nação pode interferir nos assuntos internos de outra? Brasil Soberano é Brasil dos brasileiros

ACORDA BRASIL PARA A VERDADE DOS FATOS A Soberania Ameaçada: O Imperialismo Contemporâneo e a Urgência da Autodeterminação dos Povos frent...