Quando a Bíblia é retirada de seu contexto para justificar ódio, exploração e autoritarismo
Há uma diferença enorme entre ter fé e utilizar a fé como instrumento de manipulação. A religião pode ser fonte de esperança, solidariedade, consolo, justiça e transformação humana. Entretanto, quando textos religiosos são retirados deliberadamente de seu contexto histórico, cultural e literário para justificar preconceito, exploração, intolerância política ou até violência, a religião deixa de cumprir uma função espiritual e passa a ser utilizada como instrumento de poder.
O problema não está na Bíblia, nem nas pessoas que sinceramente professam a fé cristã. O problema está na interpretação irresponsável, seletiva e oportunista de seus textos.
O perigoso método do “versículo solto”
Um dos mecanismos mais perigosos do fundamentalismo religioso é escolher uma frase, isolá-la do capítulo, ignorar o contexto histórico e transformá-la em uma espécie de “prova divina” para qualquer ideia que o intérprete queira defender.
É possível fazer isso com praticamente qualquer livro.
Uma frase pode significar uma coisa dentro de uma narrativa histórica, outra dentro de uma poesia e outra dentro de uma carta destinada a uma comunidade específica. Por isso, interpretar um texto religioso exige perguntas fundamentais:
Quem escreveu? Para quem escreveu? Em qual período histórico? Qual era o problema enfrentado por aquela comunidade? Qual era o gênero literário? O que vem antes e depois do versículo? E, principalmente, qual princípio geral o texto pretendia transmitir?
Ignorar tudo isso e utilizar apenas uma frase para condenar pessoas, exigir dinheiro, defender violência ou legitimar autoritarismo é uma forma de manipulação intelectual e religiosa.
Quando a Bíblia é usada para alimentar preconceito
Um exemplo contemporâneo é a utilização seletiva de determinados textos bíblicos para justificar hostilidade contra pessoas LGBTQIA+.
É preciso reconhecer que existem passagens bíblicas historicamente interpretadas como condenatórias de determinadas práticas sexuais. Porém, transformar essas passagens em autorização para humilhar, perseguir, discriminar, agredir ou desumanizar pessoas é outra coisa.
O cristianismo não pode ser reduzido a alguns versículos escolhidos para atacar determinado grupo enquanto se ignoram dezenas de ensinamentos sobre misericórdia, justiça, humildade, amor ao próximo, cuidado com os pobres, acolhimento dos marginalizados e condenação da hipocrisia.
Jesus, nos Evangelhos, não apresenta a violência, o ódio e a perseguição como método de transformação humana.
Portanto, uma pessoa pode ter uma interpretação religiosa conservadora sobre determinado comportamento sem que isso lhe conceda licença para transformar sua crença particular em instrumento de perseguição social.
Discordância religiosa não é autorização para desumanização.
E nenhuma interpretação religiosa deveria ser utilizada para justificar violência ou crimes.
O dinheiro e a exploração da fé
Outro problema extremamente grave aparece quando determinados líderes religiosos utilizam textos bíblicos para convencer pessoas pobres de que Deus exige delas determinadas contribuições financeiras, enquanto o próprio líder acumula patrimônio, influência e privilégios.
Aqui é necessário fazer uma distinção importante: dízimo e contribuição religiosa fazem parte da tradição bíblica e de diversas tradições cristãs, e muitas pessoas contribuem voluntariamente por convicção sincera.
O problema surge quando a contribuição deixa de ser uma expressão voluntária de fé e transforma-se em mecanismo de medo, culpa ou coerção.
“Se você não der, Deus vai puni-lo.”
“Se você não entregar determinada quantia, sua vida financeira ficará amaldiçoada.”
“Quanto mais você entregar, mais rico Deus fará você.”
Quando a religião é transformada nesse tipo de mecanismo, o fiel deixa de contribuir por amor e passa a contribuir por medo.
E existe uma pergunta que precisa ser feita:
Por que, em determinadas situações, o sacrifício financeiro é sempre exigido do pobre, enquanto o líder religioso aparece cada vez mais rico?
A fé não pode ser transformada em máquina de arrecadação.
Se existe transparência, responsabilidade, prestação de contas e utilização legítima dos recursos para manutenção da comunidade e assistência social, estamos diante de uma situação. Mas, quando há fraude, extorsão, enriquecimento ilícito ou qualquer outro crime, não estamos diante de “perseguição religiosa”: estamos diante de uma questão que deve ser tratada pelas instituições competentes.
A perigosa mistura entre fé e fanatismo político
Outro fenômeno preocupante é a transformação da religião em instrumento de guerra política.
O cidadão deixa de votar segundo suas convicções e passa a acreditar que determinado candidato ou grupo político representa literalmente “Deus”, enquanto seus adversários representam “o demônio”.
Nesse momento, a política deixa de ser debate democrático e transforma-se em batalha religiosa.
O adversário deixa de ser simplesmente alguém que pensa diferente e passa a ser considerado inimigo moral absoluto.
É justamente aí que discursos perigosos podem encontrar terreno fértil.
Parte dos movimentos políticos ligados à extrema direita brasileira incorporou, em diferentes momentos, linguagem religiosa para apresentar disputas políticas como uma luta entre “bem e mal”. Isso não significa que todo cristão de direita seja extremista, nem que toda pessoa religiosa envolvida com política seja fanática. Generalizações desse tipo seriam injustas.
O problema está no fanatismo político-religioso, independentemente de qual lado político o pratique.
Quando alguém acredita que sua posição política foi escolhida diretamente por Deus, qualquer crítica passa a ser interpretada como blasfêmia, perseguição ou conspiração.
E uma sociedade democrática não pode funcionar assim.
O 8 de janeiro e o limite que não pode ser ultrapassado
Os acontecimentos de 8 de janeiro de 2023, em Brasília, demonstraram até onde pode chegar uma parcela radicalizada quando a desinformação política, o fanatismo e a rejeição das instituições se combinam.
Houve invasão e depredação das sedes dos Três Poderes da República. Houve participantes que defendiam intervenção militar e ruptura da ordem constitucional.
Isso não deve ser confundido com o direito legítimo de qualquer cidadão protestar pacificamente.
Protestar é direito democrático. Destruir prédios públicos, ameaçar autoridades ou tentar romper a ordem constitucional é outra coisa.
E aqui está uma das maiores contradições do discurso autoritário travestido de religiosidade: invoca-se Deus para justificar atitudes que contradizem princípios básicos de convivência, responsabilidade e respeito ao próximo.
Não existe democracia saudável quando uma parte da sociedade acredita que sua vontade política está acima da Constituição.
A demonização do STF, das urnas e das instituições
Também é extremamente perigoso transformar instituições públicas em inimigos absolutos.
O Supremo Tribunal Federal pode e deve ser criticado. Ministros do STF podem ser questionados. Decisões judiciais podem ser debatidas. O Congresso pode ser criticado. O Executivo pode ser criticado.
Criticar instituições é democracia.
O problema começa quando a crítica se transforma em deslegitimação permanente:
“Tudo é fraude.”
“Todas as instituições estão contra nós.”
“As urnas são manipuladas.”
“O STF é uma organização criminosa.”
“Quem pensa diferente é inimigo.”
“Somente o nosso grupo representa o povo verdadeiro.”
Esse tipo de discurso destrói a confiança pública.
E uma democracia sem confiança institucional torna-se extremamente vulnerável.
As urnas eletrônicas podem e devem ser auditadas, fiscalizadas e aperfeiçoadas. Instituições democráticas podem ser reformadas. Autoridades podem ser responsabilizadas quando cometem irregularidades.
Mas existe uma diferença fundamental entre fiscalizar democraticamente e espalhar acusações sem provas destinadas a convencer milhões de pessoas de que todo o sistema eleitoral é uma fraude.
O perigo da desumanização do adversário
Talvez esse seja o ponto mais perigoso de todos.
Quando alguém chama o adversário político de “demônio”, “inimigo de Deus”, “traidor da pátria” ou “inimigo que precisa ser eliminado”, está ajudando a construir uma lógica em que a violência começa a parecer aceitável.
Hoje se pede censura.
Amanhã, perseguição.
Depois, prisão arbitrária.
Depois, violência.
A história demonstra que sociedades não chegam ao autoritarismo de uma única vez. Normalmente existe um processo de desumanização do outro, acompanhado da destruição da confiança nas instituições e da construção de uma narrativa segundo a qual somente determinado grupo possui legitimidade para governar.
Por isso, discursos que incentivam ódio contra autoridades, jornalistas, professores, artistas, minorias, pessoas LGBTQIA+, adversários políticos ou qualquer outro grupo social precisam ser tratados com extrema responsabilidade.
Não é possível defender a família destruindo a convivência familiar
Existe ainda uma enorme contradição em determinados discursos que afirmam defender “a família, a pátria, Deus e os bons costumes”, mas simultaneamente estimulam ódio contra pessoas que pertencem à própria sociedade.
Família não é monopólio ideológico.
Patriotismo não é monopólio partidário.
Deus não pertence a partido político.
E ninguém recebeu uma procuração divina para decidir quem merece dignidade.
Cristãos podem ser de direita, de esquerda, de centro ou simplesmente não se identificar com nenhuma dessas categorias.
A fé cristã não deveria funcionar como título de propriedade sobre a consciência política de ninguém.
O verdadeiro perigo é transformar Deus em cabo eleitoral
Uma das coisas mais perigosas que podem acontecer é um líder religioso convencer seus seguidores de que votar em determinado candidato significa votar em Deus, enquanto votar no adversário significaria votar contra Deus.
Isso é uma forma de captura da consciência.
A pessoa deixa de analisar propostas, histórico, competência, integridade, respeito às instituições e consequências das políticas públicas.
Ela simplesmente pergunta:
“Quem é o candidato de Deus?”
Essa pergunta, além de não possuir resposta objetiva, abre espaço para manipuladores.
Porque o político pode mudar.
O partido pode mudar.
O discurso pode mudar.
Mas, se o eleitor acreditar que determinado líder político representa diretamente a vontade divina, torna-se muito mais difícil reconhecer seus erros.
A fé não pode ser utilizada como escudo contra a lei
Também é fundamental lembrar que liberdade religiosa não significa imunidade jurídica.
O Estado democrático deve proteger a liberdade de culto, de consciência e de crença.
Mas liberdade religiosa não autoriza:
fraude;
extorsão;
violência;
ameaças;
discriminação ilegal;
abuso financeiro;
corrupção;
incitação criminosa;
ou tentativa de destruir a ordem constitucional.
Se alguém comete um crime dentro de uma igreja, não deixa de ser crime porque aconteceu dentro de uma igreja.
Se alguém utiliza a Bíblia para ameaçar uma pessoa, a Bíblia não transforma a ameaça em algo legítimo.
Se alguém utiliza a religião para obter vantagem financeira mediante fraude, a fé não transforma fraude em milagre.
Nenhum livro sagrado deve servir como salvo-conduto para criminosos.
Acorda, Brasil
O Brasil precisa despertar antes que o fanatismo consiga convencer pessoas comuns de que democracia é inimiga da fé, que instituições são inimigas do povo, que adversários políticos são inimigos de Deus e que violência pode ser justificada por uma suposta missão divina.
O alerta não deve ser dirigido somente à esquerda, à direita, aos religiosos ou aos não religiosos.
Deve ser dirigido a todos.
Porque quando o autoritarismo cresce, ele não pergunta em quem você votou.
Quando a violência política se instala, ela não respeita denominação religiosa.
Quando instituições democráticas são destruídas, todos perdem.
É perfeitamente possível ser cristão e defender a democracia.
É perfeitamente possível ser religioso e respeitar a ciência.
É perfeitamente possível ter convicções morais conservadoras e defender direitos fundamentais.
É perfeitamente possível ser progressista e respeitar a liberdade religiosa.
O que não podemos aceitar é que qualquer grupo declare possuir monopólio sobre Deus, sobre a verdade, sobre o patriotismo ou sobre a moralidade.
A Bíblia merece ser estudada com responsabilidade, não transformada em coleção de frases para legitimar interesses particulares.
A religião merece respeito, mas líderes religiosos também precisam ser responsabilizados quando ultrapassam os limites da lei.
A política merece participação popular, mas não pode ser transformada em guerra santa.
E a democracia merece defesa permanente, porque nenhuma democracia está protegida para sempre.
Acorda, Brasil.
Não permita que o medo substitua a razão.
Não permita que o ódio substitua a solidariedade.
Não permita que o fanatismo substitua a consciência.
Não permita que versículos retirados de contexto sejam utilizados para justificar aquilo que a própria humanidade deveria reconhecer como injustiça.
E, sobretudo, não entregue sua consciência a quem diz falar em nome de Deus enquanto pede que você odeie, tema, obedeça cegamente ou destrua o outro.
Leia. Estude. Questione. Confira. Compare. Pense.
Porque fé verdadeira não deveria ter medo da verdade.
E democracia verdadeira não deveria ter medo do cidadão que pensa.

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