Fardas, Poder e Democracia
A presença expressiva de ex-militares, delegados e policiais em campanhas eleitorais — fenômeno amplamente visível nas ruas e avenidas de cidades como Goiânia — reflete uma intersecção histórica entre as corporações de segurança e as plataformas políticas, especialmente de partidos de direita e extrema direita. Essa mobilização baseia-se em alinhamentos ideológicos, estratégias eleitorais e interesses de classe.
A Engenharia da Candidatura Fardada
Afinidade Ideológica: A carreira militar e policial é forjada sob os pilares da hierarquia, disciplina, obediência e rigidez. Essa rotina profissional alinha-se diretamente à visão política que defende um Estado fundamentado no controle social severo, na valorização de símbolos pátrios e na manutenção estrita da ordem.
O Discurso de "Lei e Ordem": O medo da violência urbana é uma ferramenta poderosa de atração de eleitores. Candidatos oriundos das forças de segurança utilizam a patente ou a antiga profissão como principal cartão de visitas, prometendo o combate ao crime com "pulso firme".
A Ilusão da Farda: A imagem de um candidato militar ou policial transmite ao eleitorado uma promessa imediata de força e proteção. Essa percepção facilita a conquista rápida de votos, ancorada na crença de que a experiência repressiva se traduzirá em eficiência administrativa.
Defesa de Interesses Corporativos: A política institucional funciona como um espaço de proteção sindical para essas categorias. As forças de segurança buscam cadeiras no parlamento e no executivo para garantir repasses de orçamento, melhores salários, blindagem jurídica e a manutenção de privilégios estruturais.
O Alerta Democrático e as Críticas ao Modelo
A migração em massa da caserna e das delegacias para a política levanta debates profundos sobre os rumos do país e os riscos institucionais envolvidos.
A Sombra do Coronelismo: O Brasil possui um histórico sombrio de uso da força para coerção política. Há o receio constante de que o prestígio de autoridades de segurança em suas comunidades reproduza dinâmicas do coronelismo e do voto de cabresto, onde ações justificadas em nome da "segurança" escondem práticas de intimidação.
Polarização e Extremismo: Críticos desse fenômeno apontam que a radicalização do discurso de ordem pode asfixiar a democracia. O extremismo político frequentemente cria um ambiente de intolerância, onde adversários ideológicos — sejam eles o PT, lideranças de esquerda, progressistas ou qualquer grupo discordante — passam a ser demonizados e tratados como inimigos a serem eliminados do espaço público, flertando com ideais de matriz autoritária e antidemocrática.
A Urgência da Pluralidade: A administração pública exige mais do que a lógica do combate. É fundamental que os representantes eleitos, sejam eles ex-militares ou civis, possuam pluralidade de pensamento e empatia genuína pela população mais pobre e humilde, que frequentemente é a mais afetada pelas políticas de segurança.
O momento eleitoral exige atenção à realidade democrática. O voto consciente e voltado para lideranças honestas e comprometidas com a pluralidade é a principal barreira para evitar que o Estado seja capturado por lógicas que enfraquecem a liberdade e os direitos fundamentais da sociedade.
Falando Mais, Sobre Fardas, Poder e Democracia: o perigo de transformar a “lei e ordem” em projeto político, com mais clareza.
Nas ruas e avenidas de Goiânia, como em tantas outras cidades brasileiras, chama atenção a presença de candidatos oriundos das forças policiais e militares, incluindo ex-militares, delegados e agentes de segurança, especialmente em legendas situadas à direita e, em alguns casos, na extrema direita. Esse fenômeno merece ser observado com atenção — não porque policiais ou militares estejam impedidos de participar da política, mas porque nenhuma profissão, patente ou farda pode substituir o debate democrático sobre ideias, propostas, direitos e deveres.
É importante começar por uma ressalva: não é correto afirmar que todo policial, delegado ou militar é de extrema direita, nem que todo candidato oriundo dessas categorias defende autoritarismo. Existem profissionais de segurança pública com diferentes visões políticas, inclusive progressistas, democráticas e comprometidas com os direitos humanos. O problema está quando a identidade profissional passa a ser utilizada como argumento político suficiente para pedir o voto.
Por que a extrema direita encontra tanta afinidade com candidatos da segurança pública?
Há uma afinidade política evidente entre determinados setores da extrema direita e segmentos das forças de segurança. Ela está relacionada a valores como autoridade, disciplina, hierarquia, nacionalismo e defesa de uma concepção mais rígida de ordem social.
Isso, entretanto, não significa que disciplina e hierarquia sejam, por si mesmas, características antidemocráticas. Forças policiais e militares precisam de organização, comando e disciplina para cumprir suas funções institucionais. O problema começa quando esses valores, necessários dentro de uma instituição, são transferidos para toda a sociedade como se o cidadão devesse obedecer politicamente da mesma maneira que um subordinado obedece a uma cadeia de comando.
Uma democracia funciona de outra forma. O cidadão não é subordinado de um governante. O governante é subordinado à Constituição, às leis e à soberania popular.
O discurso da “lei e ordem”
Outro elemento importante é o discurso da “lei e ordem”.
Diante do crescimento da violência, do medo e da insegurança, é natural que o cidadão queira proteção. O problema surge quando o medo é transformado em instrumento eleitoral.
O candidato aparece associado à imagem da farda, da arma, da autoridade, da coragem e do combate ao criminoso. A mensagem implícita pode ser extremamente simples: “eu sou policial; portanto, sei combater o crime.”
Mas combater a criminalidade exige muito mais do que força.
Exige investigação, inteligência policial, prevenção, educação, políticas sociais, urbanismo, iluminação pública, oportunidades de trabalho, combate ao tráfico de armas, fortalecimento das instituições, sistema prisional eficiente e respeito ao devido processo legal.
A segurança pública não pode ser reduzida à lógica de “bandido bom é bandido morto”. Uma sociedade democrática precisa combater o crime sem transformar o Estado em criminoso.
A farda como cartão eleitoral
A patente ou a profissão podem funcionar como uma espécie de marca eleitoral.
Um candidato que já foi comandante, delegado, oficial ou policial chega às urnas carregando um capital simbólico construído durante anos. Muitas pessoas conhecem sua profissão antes mesmo de conhecerem suas propostas.
Isso facilita a comunicação eleitoral.
A população vê a farda e associa imediatamente aquela pessoa à proteção, coragem e autoridade. É compreensível psicologicamente. Porém, um currículo profissional não é automaticamente um currículo político.
Ser excelente policial não significa necessariamente ser excelente legislador.
Ser excelente militar não significa necessariamente compreender economia, educação, saúde, assistência social, cultura, habitação, meio ambiente ou políticas públicas.
Governar uma sociedade é infinitamente mais complexo do que comandar uma operação.
O fantasma do coronelismo
O Brasil precisa ter memória.
Durante a Primeira República, o coronelismo foi marcado pela concentração de poder local, pela dependência econômica, pelo controle político e pelo chamado voto de cabresto. O coronel não precisava necessariamente colocar uma arma na mão do eleitor: muitas vezes, seu poder econômico, social e político já era suficiente para controlar sua escolha.
Hoje, evidentemente, vivemos outra realidade institucional. O Brasil possui Constituição, eleições competitivas, Justiça Eleitoral, imprensa, partidos e instituições democráticas.
Mas a história oferece uma advertência permanente:
quando autoridade pessoal, poder econômico, prestígio institucional, medo e dependência social se combinam para controlar a escolha política do cidadão, a democracia começa a perder qualidade.
Por isso, nenhum eleitor deveria entregar seu voto simplesmente porque alguém ostenta uma patente, uma farda ou um título profissional.
Também existe o interesse corporativo
Outro aspecto que merece debate é a defesa dos interesses específicos das categorias de segurança.
É legítimo que policiais e militares reivindiquem melhores salários, condições de trabalho, equipamentos, aposentadoria, assistência e segurança jurídica. Toda categoria profissional tem direito de organizar-se e defender seus interesses dentro da democracia.
O problema aparece quando o representante político transforma o mandato público em extensão exclusiva dos interesses corporativos.
Um deputado, vereador ou senador não representa apenas policiais, militares ou delegados.
Representa toda a sociedade.
Seu compromisso precisa alcançar também o trabalhador informal, a professora, o agricultor, o pequeno comerciante, o desempregado, a mãe solo, o jovem da periferia, o idoso, a pessoa com deficiência, o estudante e milhões de brasileiros que não pertencem a nenhuma corporação poderosa.
O Estado não pode funcionar como uma máquina de privilégios para grupos organizados.
A verdadeira questão não é a farda — é o projeto de sociedade
É fundamental evitar uma generalização injusta.
Não há problema democrático em um policial, militar, delegado ou bombeiro candidatar-se a um cargo eletivo. Pelo contrário: profissionais da segurança pública têm todo o direito de participar da vida política, desde que respeitem as regras democráticas.
A pergunta correta não é:
“Ele é policial ou militar?”
A pergunta correta é:
“O que ele defende?”
Defende a Constituição?
Defende a liberdade de expressão?
Aceita o resultado das eleições mesmo quando perde?
Respeita adversários políticos?
Defende a independência entre os Poderes?
Respeita os direitos humanos?
Defende políticas públicas para os pobres?
Aceita críticas?
Reconhece que adversário político não é inimigo?
Rejeita violência política?
Defende uma polícia profissional, preparada e submetida à lei?
Essas perguntas são muito mais importantes do que a patente estampada no material eleitoral.
Democracia não combina com culto à autoridade
Existe uma diferença fundamental entre autoridade institucional e autoritarismo.
A autoridade policial deve existir para proteger o cidadão.
A autoridade militar deve existir dentro das atribuições constitucionais.
A autoridade política deve existir temporariamente e sob controle popular.
Nenhuma dessas autoridades pode se transformar em poder absoluto.
A democracia exige justamente aquilo que o autoritarismo não suporta: crítica, oposição, pluralidade, alternância de poder, imprensa livre, liberdade de pensamento e cidadãos capazes de dizer “não” ao governante.
Por isso, é perigoso quando determinados movimentos políticos passam a demonizar sistematicamente todos aqueles que pensam diferente, tratando adversários como inimigos da pátria, criminosos ou pessoas que deveriam ser eliminadas da vida pública.
Isso vale para qualquer campo político.
PT, direita, esquerda, centro, progressistas, conservadores ou qualquer outra corrente política precisam ser submetidos ao mesmo julgamento democrático: propostas, fatos, ética e respeito às instituições.
Não existe democracia quando um grupo considera que somente ele representa o “povo verdadeiro”.
Cuidado com a extrema direita — mas também com qualquer extremismo
É legítimo e necessário denunciar movimentos de extrema direita quando defendem autoritarismo, violência política, supremacismo, ruptura institucional ou eliminação de direitos democráticos.
Mas também é importante não cometer o mesmo erro que se critica.
Chamar indiscriminadamente todo eleitor de direita, todo conservador, todo policial, todo militar ou todo bolsonarista de “neonazista” pode transformar uma crítica necessária ao extremismo em generalização política.
Neonazismo é uma ideologia específica, historicamente associada à recuperação ou defesa de elementos do nazismo, e não pode ser utilizado como rótulo genérico para qualquer pessoa de direita.
A crítica democrática fica mais forte quando é precisa.
Se determinado candidato ou movimento reproduz discurso autoritário, racista, supremacista, antissemita, golpista ou de glorificação do nazismo, isso deve ser denunciado claramente — com fatos, declarações e evidências.
Não precisamos exagerar para defender a democracia.
O voto é a arma democrática do cidadão
O eleitor não deve votar na patente.
Não deve votar na farda.
Não deve votar no medo.
Não deve votar no ódio.
Não deve votar simplesmente porque alguém promete “colocar ordem”.
Deve votar depois de perguntar:
Quem é essa pessoa?
O que ela fez antes de pedir meu voto?
Quais são suas propostas?
Quem ela pretende proteger?
Como trata quem pensa diferente?
Respeita a democracia quando perde?
Tem empatia pelos pobres e pelos vulneráveis?
Defende o Estado de Direito?
Reconhece limites para o próprio poder?
Essas perguntas valem para qualquer candidato, independentemente de partido, profissão, ideologia ou religião.
A democracia brasileira não precisa de cidadãos obedientes a líderes carismáticos. Precisa de cidadãos conscientes, críticos e livres.
Acorda, Brasil!
O Brasil precisa aprender novamente uma lição fundamental de sua própria história: nenhuma sociedade democrática deve entregar poder demais a quem promete resolver tudo através da força.
Precisamos de policiais preparados, respeitados e bem remunerados.
Precisamos de militares profissionais e subordinados à Constituição.
Precisamos de políticos honestos, independentemente de sua origem profissional.
Mas precisamos, acima de tudo, de instituições fortes e de cidadãos conscientes de que a farda não confere superioridade moral a ninguém.
Um policial pode ser um excelente candidato — mas terá de provar isso por suas propostas.
Um militar pode ser um excelente parlamentar — mas terá de respeitar o pluralismo.
Um delegado pode ser um excelente gestor público — mas terá de compreender que segurança não é sinônimo de autoritarismo.
E um candidato civil também pode ser excelente ou péssimo.
O julgamento deve ser feito pelo eleitor.
Que o cidadão de Goiânia, de Goiás e de todo o Brasil olhe para a propaganda eleitoral e não veja apenas a farda, a patente, a arma ou o discurso de “ordem”.
Que procure enxergar o ser humano, o projeto político e o compromisso com a democracia.
Porque uma democracia não morre somente quando um tanque ocupa uma rua.
Ela também pode começar a morrer quando cidadãos deixam de questionar aqueles que pretendem exercer poder sobre suas vidas.
Acorda, Brasil.
Não durma diante do extremismo.
Não entregue seu voto ao medo.
Não confunda autoridade com autoritarismo.
Não confunda patriotismo com obediência cega.
E jamais permita que a política transforme vizinhos em inimigos.
Vote livre. Vote consciente. Vote em quem respeita o povo, a Constituição, as instituições e, sobretudo, o direito de cada brasileiro pensar diferente.
Porque a democracia pertence ao povo — e não aos coronéis, às corporações, às fardas ou aos líderes que se julgam donos da verdade.

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