DIVISÃO GALIZIEN: QUANDO O ANTICOMUNISMO NÃO PODE APAGAR A HISTÓRIA DO NAZISMO
A história da chamada Divisão Galizien é um dos capítulos mais controversos da Segunda Guerra Mundial na Europa Oriental. Oficialmente denominada, em diferentes momentos, 14ª Divisão de Granadeiros da Waffen-SS (1ª Galega) e posteriormente associada à designação 1ª Ucraniana, a unidade foi criada em 1943, no contexto da guerra entre a Alemanha nazista e a União Soviética.
Sua existência não pode ser compreendida fora da estrutura da Waffen-SS, organização militar vinculada à SS de Heinrich Himmler e ao regime de Adolf Hitler. Portanto, qualquer tentativa de apresentar a Divisão Galizien simplesmente como uma formação militar ucraniana independente ou como uma força exclusivamente dedicada à luta pela liberdade da Ucrânia distorce sua realidade histórica.
ORIGEM E COMPOSIÇÃO
A unidade foi formada principalmente por voluntários de origem ucraniana provenientes da Galícia, região histórica que, durante o século XX, sofreu profundas mudanças territoriais e políticas e que hoje está dividida principalmente entre a Ucrânia e a Polônia.
A formação da divisão ocorreu em 1943, quando a Alemanha nazista buscava ampliar suas forças para combater o Exército Vermelho. O recrutamento encontrou apoio entre setores do nacionalismo ucraniano que enxergavam a União Soviética como inimiga e acreditavam que uma derrota soviética poderia abrir caminho para algum projeto de independência ucraniana.
Essa motivação, entretanto, precisa ser analisada criticamente.
O fato de determinados voluntários desejarem a independência da Ucrânia ou serem radicalmente anticomunistas não transforma a Alemanha nazista em uma aliada democrática. Os voluntários entraram em uma estrutura militar que servia aos interesses da Alemanha de Hitler.
A própria historiografia mostra que as motivações individuais não eram necessariamente idênticas: alguns homens estavam movidos pelo nacionalismo, outros pelo anticomunismo, outros pelo contexto brutal da ocupação e outros por uma combinação desses fatores. Isso não muda o fato institucional fundamental: a divisão fazia parte da Waffen-SS alemã.
QUEM COMANDAVA A DIVISÃO?
A conclusão histórica é inequívoca: a Divisão Galizien era uma formação da Waffen-SS, portanto integrava a estrutura militar do Estado nazista alemão. A afirmação de que “a Divisão Galizien não era nazista” é, no mínimo, historicamente enganosa quando aplicada à própria unidade militar.
É importante, porém, fazer uma distinção que costuma ser perdida nesse debate: dizer que a Divisão pertencia à Waffen-SS não significa automaticamente afirmar que cada ucraniano que nela serviu era pessoalmente membro do Partido Nazista ou que cada integrante participou de crimes de guerra. Essas são questões diferentes.
O que Paulo Bilynskyj afirmou
O deputado federal Paulo Francisco Muniz Bilynskyj já havia defendido publicamente essa interpretação. Em entrevista, afirmou que a SS Galizien teria sido uma divisão ucraniana que lutava exclusivamente contra a União Soviética e sustentou que não seria uma divisão nazista. Também argumentou que seu avô não poderia ser considerado nazista por ter servido naquela formação.
Há, portanto, uma parte da argumentação que merece ser examinada com cuidado e outra que não resiste aos documentos históricos.
1. O nome oficial resolve uma parte fundamental da questão
A unidade foi criada em 1943, durante a Segunda Guerra Mundial, com o nome 14. Waffen-Grenadier-Division der SS (galizische Nr. 1) — a chamada Divisão Galizien.
O ponto decisivo é o “der SS”.
Ela não era simplesmente uma unidade ucraniana independente que ocasionalmente cooperava com a Alemanha. Era uma divisão da Waffen-SS, estrutura militar subordinada à SS de Heinrich Himmler.
Os próprios documentos do Tribunal Militar Internacional de Nuremberg deixam claro que a Waffen-SS fazia parte integrante da SS. A acusação em Nuremberg explicou que, mesmo quando unidades da Waffen-SS eram colocadas operacionalmente sob comandos do Exército, elas continuavam pertencendo à estrutura da SS e permaneciam politicamente vinculadas ao NSDAP.
E isso é fundamental:
Waffen-SS não era sinônimo de Wehrmacht.
Era o braço militar da SS, organização criada e controlada pelo regime nazista.
2. Nuremberg declarou a SS uma organização criminosa
Esse é provavelmente o ponto mais forte para responder à afirmação do deputado.
No julgamento de Nuremberg, em 30 de setembro de 1946, o Tribunal declarou criminosa a organização SS, incluindo expressamente os membros da Waffen-SS.
O julgamento afirmou que a declaração alcançava as pessoas oficialmente aceitas como membros da SS, incluindo integrantes da Allgemeine SS, Waffen-SS e outras formações da organização, ressalvando situações específicas, como pessoas compulsoriamente incorporadas que não tivessem cometido crimes.
Portanto, historicamente, não faz sentido dizer:
“A Waffen-SS era uma organização não nazista.”
Ela era uma organização militar do regime nazista.
E a Divisão Galizien era uma divisão dessa organização.
3. Mas existe uma nuance importante — e aqui Bilynskyj toca em um ponto real
Há uma questão diferente: a Deschênes Commission, comissão canadense criada para investigar supostos criminosos de guerra nazistas que haviam entrado no Canadá, analisou especificamente a Divisão Galizien.
O relatório oficial canadense de 1986/1987 concluiu que a Galicia Division não deveria ser indiciada como grupo por crimes de guerra e que a simples pertença à divisão não era suficiente para justificar a acusação criminal individual. O governo canadense mantém o relatório integral da comissão em seus arquivos oficiais.
Isso é verdadeiro.
Mas há uma diferença enorme entre:
“A Divisão não foi considerada coletivamente culpada de crimes de guerra pela Comissão Deschênes”
e
“A Divisão não era nazista.”
A primeira afirmação tem fundamento documental.
A segunda não.
A própria documentação histórica de Nuremberg estabelece a natureza da Waffen-SS.
4. “Não era nazista” e “não era composta por nazistas” não são a mesma coisa
Essa distinção é essencial.
A Divisão Galizien foi formada majoritariamente por voluntários ucranianos da Galícia. Muitos tinham motivações nacionalistas ucranianas, anticomunistas e antissoviéticas. Alguns desejavam combater a União Soviética e buscavam uma Ucrânia independente.
Isso não transforma automaticamente todos eles em nazistas ideológicos.
Além disso, ser ucraniano e combater a União Soviética não significa ser nazista.
Mas a pergunta histórica feita sobre a unidade militar é outra:
A que estrutura militar ela pertencia?
Resposta:
À Waffen-SS.
E a Waffen-SS era parte da estrutura do regime nazista.
5. A própria Alemanha nazista criou a Divisão
Outro elemento importante é que a formação da unidade não ocorreu de maneira independente dos nazistas.
A criação da divisão foi promovida pelas autoridades alemãs na Galícia ocupada e recebeu apoio de Heinrich Himmler. A unidade foi organizada dentro da estrutura da Waffen-SS.
Portanto, dizer que ela era simplesmente uma “divisão ucraniana” é incompleto.
Ela era:
uma divisão formada predominantemente por ucranianos + organizada pelos alemães + incorporada à Waffen-SS + subordinada à estrutura militar da SS.
Essa é a descrição historicamente correta.
6. E quanto aos crimes de guerra?
Aqui também é necessário evitar dois extremos.
Seria incorreto afirmar:
“Todos os integrantes da Galizien eram criminosos de guerra.”
Isso exigiria responsabilização individual e provas específicas.
Mas também seria incorreto afirmar:
“A Divisão nunca esteve relacionada a crimes contra civis.”
Existem investigações e estudos que relacionam integrantes ou subunidades da formação a atrocidades contra civis poloneses e outras populações. Documentos apresentados ao Parlamento canadense, por exemplo, discutiram a participação de elementos associados à SS Galizien no massacre de Huta Pieniacka, em 1944.
Portanto, a questão dos crimes de guerra deve ser tratada individualmente e documentalmente, mas isso não altera a natureza institucional da unidade.
A confirmação conclusiva
Se a pergunta for:
“A Divisão Galizien era uma unidade nazista?”
SIM — institucionalmente, era uma formação da Waffen-SS, a organização militar da SS nazista.
“Todos os seus integrantes eram nazistas ideológicos ou membros do Partido Nazista?”
NÃO necessariamente.
Não se pode transformar automaticamente a filiação à unidade em prova de que cada indivíduo compartilhava integralmente a ideologia nazista ou participou de crimes.
“A Divisão Galizien foi considerada coletivamente culpada por crimes de guerra pela Comissão Deschênes?”
Não. A Comissão Deschênes concluiu que a divisão não deveria ser indiciada como grupo e que a simples pertença à unidade não bastava para processar alguém.
“Isso significa que a Divisão Galizien não era nazista?”
Não.
Essa conclusão não decorre do relatório Deschênes.
Portanto, qual é o problema da fala de Bilynskyj?
A fala mistura três questões diferentes:
- a ideologia individual dos voluntários ucranianos;
- a eventual responsabilidade individual por crimes de guerra;
- a natureza institucional da Divisão Galizien.
Nas duas primeiras questões existem discussões históricas legítimas e necessidade de análise individual.
Na terceira, porém, há muito menos espaço para ambiguidade:
A Divisão Galizien era uma divisão da Waffen-SS. A Waffen-SS fazia parte da SS de Hitler. E o Tribunal de Nuremberg declarou a SS uma organização criminosa, incluindo expressamente a Waffen-SS.
Assim, afirmar simplesmente que “a Divisão Galizien não era nazista” é historicamente incorreto se a expressão estiver sendo usada para negar sua vinculação institucional ao regime nazista.
A formulação historicamente defensável seria outra:
“A Divisão Galizien era uma formação ucraniana incorporada à Waffen-SS do regime nazista; isso não permite, por si só, concluir que cada integrante fosse ideologicamente nazista ou individualmente responsável por crimes de guerra.”
Essa frase consegue preservar tanto o fato da colaboração institucional com a Alemanha nazista quanto o princípio da responsabilidade individual.
Em resumo: Bilynskyj está errado ao negar a natureza nazista da estrutura à qual a Divisão Galizien pertencia; mas estaria correto apenas se sua afirmação fosse interpretada de maneira muito mais restrita — isto é, que não se pode chamar automaticamente cada voluntário ucraniano de “nazista” ou criminoso de guerra. Essa é a distinção histórica que precisa ser feita
POR QUE A DIVISÃO FOI CRIADA?
A Alemanha nazista precisava desesperadamente de homens para sua guerra contra a União Soviética. Depois dos enormes desgastes sofridos pela Wehrmacht na Frente Oriental, Berlim passou a recrutar contingentes de diferentes nacionalidades para as Waffen-SS.
No caso da Galícia, o projeto alemão encontrou setores dispostos a colaborar militarmente em razão do forte antissovietismo e do nacionalismo ucraniano.
Para alguns voluntários, a esperança era que uma vitória alemã sobre Stalin permitisse a construção de uma Ucrânia independente.
Mas existe uma contradição histórica incontornável:
combater o stalinismo ao lado de Hitler não significava lutar pela democracia.
A Alemanha nazista não pretendia estabelecer uma Ucrânia democrática e soberana baseada nos princípios modernos de direitos humanos. O projeto nazista para o Leste Europeu estava associado à conquista territorial, exploração econômica, racismo, colonização e violência em massa.
Portanto, não se pode transformar retrospectivamente uma aliança militar com Hitler em uma suposta cruzada democrática contra o comunismo.
A ATUAÇÃO NA FRENTE ORIENTAL
A Divisão Galizien foi empregada principalmente na luta contra o Exército Vermelho.
Sua trajetória militar esteve ligada à derrota alemã na Frente Oriental. Em 1944, sofreu pesadas perdas na batalha de Brody. Posteriormente, seus remanescentes continuaram envolvidos na guerra até o colapso do Terceiro Reich.
No final do conflito, parte dos seus integrantes foi capturada pelos Aliados e internada. Muitos posteriormente emigraram para países ocidentais, inclusive o Canadá.
A trajetória desses veteranos depois da guerra tornou-se um dos grandes problemas políticos e históricos do pós-guerra, especialmente porque o início da Guerra Fria criou uma situação na qual o anticomunismo passou a influenciar fortemente as políticas ocidentais.
CRIMES DE GUERRA: O QUE PODE E O QUE NÃO PODE SER AFIRMADO
É justamente aqui que precisamos fugir de dois extremos.
O primeiro extremo é dizer:
“Todos os integrantes da Divisão Galizien eram criminosos de guerra.”
Isso não é uma conclusão juridicamente sustentável.
O segundo extremo é afirmar:
“A Divisão Galizien era inocente e não existe qualquer evidência de crimes.”
Isso também é historicamente incorreto.
Há documentação e investigações envolvendo unidades e subunidades relacionadas à Galizien em ações contra populações civis, especialmente contra poloneses. A investigação do Instituto de Memória Nacional da Polônia, por exemplo, concluiu que o 4º regimento/batalhão associado à divisão participou de crimes contra civis em Huta Pieniacka. Há também documentação e estudos sobre Pidkamin e Palikrowy.
Ao mesmo tempo, é importante observar que nem todos esses episódios ocorreram sob a mesma cadeia de comando, e algumas unidades policiais ucranianas posteriormente incorporadas ou associadas à divisão estavam, em determinados momentos, sob comando policial alemão e não diretamente subordinadas à divisão.
Essa distinção é fundamental para uma análise histórica séria.
A responsabilidade por um crime deve ser atribuída de acordo com evidências, cadeia de comando, participação concreta e conhecimento dos envolvidos.
HUTA PIENIACKA E A VIOLÊNCIA CONTRA CIVIS
Um dos episódios mais conhecidos é o massacre de Huta Pieniacka, ocorrido em fevereiro de 1944.
Investigações polonesas e ucranianas chegaram a conclusões sobre a participação de elementos ligados à SS-Galizien, embora existam divergências sobre a quantidade exata de vítimas, a cadeia de comando e a distribuição das responsabilidades entre unidades alemãs, formações nacionalistas ucranianas e integrantes de estruturas policiais.
O episódio demonstra algo que não pode ser apagado pela propaganda política:
a guerra no Leste Europeu não foi apenas uma guerra entre exércitos. Civis foram transformados em alvos, comunidades inteiras foram destruídas e a população foi submetida a massacres, deportações, perseguições e represálias.
Por isso, qualquer tentativa de transformar a Divisão Galizien em uma simples organização de “heróis anticomunistas” é uma simplificação histórica extremamente perigosa.
E OS JUDEUS?
É preciso igualmente ter cuidado para não fazer uma afirmação mais ampla do que as evidências permitem.
A região da Ucrânia ocupada pelos nazistas foi cenário de uma das maiores campanhas de extermínio do Holocausto. Milhões de judeus foram assassinados pelos nazistas e por colaboradores locais em diferentes circunstâncias.
Entretanto, a responsabilidade histórica por crimes específicos precisa ser atribuída às unidades e indivíduos que efetivamente participaram deles.
Isso é diferente de afirmar, sem qualificação documental, que toda a Divisão Galizien participou diretamente do extermínio dos judeus.
A Waffen-SS, contudo, pertenceu à estrutura nazista responsável por uma vasta gama de crimes de guerra e crimes contra a humanidade. O Tribunal Militar Internacional de Nuremberg declarou a SS uma organização criminosa, dentro das condições estabelecidas em seu julgamento.
Portanto, duas verdades precisam coexistir:
a Waffen-SS era uma organização nazista criminosa;
e
a responsabilidade penal individual por determinado crime precisa ser demonstrada individualmente.
Isso é justiça, não relativização.
O FIM DA GUERRA
Com a derrota da Alemanha em 1945, a divisão deixou de existir como instrumento militar do Terceiro Reich.
Parte dos seus integrantes foi capturada e internada pelos Aliados. Posteriormente, diversos veteranos emigraram para países ocidentais, especialmente Canadá, Reino Unido e Austrália.
O caso canadense tornou-se particularmente controverso.
Na década de 1980, o governo canadense criou a Comissão Deschênes, destinada a investigar a presença de possíveis criminosos de guerra no Canadá.
A comissão concluiu que a Divisão Galizien não deveria ser acusada coletivamente como grupo e que a simples condição de membro da divisão não era suficiente para estabelecer responsabilidade criminal individual. O relatório também registrou que acusações contra membros da divisão não haviam sido substanciadas perante a comissão.
Essa conclusão, entretanto, não equivale a uma certidão histórica de inocência de todos os integrantes.
A própria questão permaneceu controversa, e críticos observaram limitações da investigação, inclusive quanto ao acesso a determinadas fontes e testemunhos provenientes da Europa Oriental.
Portanto, é intelectualmente desonesto utilizar a Comissão Deschênes para dizer simplesmente:
“A Divisão Galizien foi inocentada de tudo.”
Não foi isso que a comissão estabeleceu.
Ela rejeitou a ideia de uma condenação coletiva automática e insistiu na necessidade de evidências individualizadas.
A CONTROVÉRSIA CONTEMPORÂNEA
A Divisão Galizien permanece um símbolo profundamente controverso.
Setores ultranacionalistas, neonazistas e da extrema-direita procuram apresentar sua participação na guerra contra a União Soviética como uma epopeia heroica.
O problema dessa narrativa é que ela transforma o anticomunismo em salvo-conduto moral.
E isso é extremamente perigoso.
Ser contra Stalin não transforma Hitler em democrata.
Ser contra o comunismo não transforma uma organização da Waffen-SS em organização democrática.
Defender a independência nacional não transforma colaboração militar com o regime nazista em exemplo de liberdade.
A história precisa ser mais complexa do que os slogans políticos.
O PERIGO DA ROMANTIZAÇÃO
Uma sociedade democrática precisa aprender com a história justamente para não repetir seus erros.
A Segunda Guerra Mundial demonstra que o extremismo político pode começar pela demonização absoluta do adversário.
Primeiro, transforma-se o adversário político em inimigo.
Depois, o inimigo passa a ser apresentado como uma ameaça existencial.
Em seguida, seus direitos começam a ser considerados descartáveis.
Finalmente, a violência passa a ser apresentada como necessária para “salvar a nação”.
Foi assim que diversos regimes autoritários construíram suas justificativas.
Por isso, quando grupos contemporâneos procuram recuperar símbolos, personagens ou organizações associadas ao nazismo, ao fascismo ou a movimentos supremacistas, é necessário reagir com conhecimento histórico e não com silêncio.
DEMOCRACIA NÃO É ANTICOMUNISMO, NEM ANTISOCIALISMO, NEM ANTIPETISMO
Aqui chegamos à principal lição para o Brasil contemporâneo.
Democracia não significa amar o PT.
Democracia não significa amar Bolsonaro.
Democracia não significa ser de esquerda ou de direita.
Democracia significa reconhecer que pessoas diferentes têm o mesmo direito de participar da vida política.
Um democrata pode ser socialista, liberal, conservador, social-democrata, progressista ou qualquer outra coisa dentro da legalidade democrática.
O que não pode ser normalizado é a defesa de regimes totalitários, supremacistas ou organizações criminosas do passado como se fossem modelos políticos legítimos.
E existe uma diferença essencial entre criticar duramente o PT, Lula, Bolsonaro, a esquerda ou a direita e desumanizar seus adversários.
A primeira atitude faz parte da democracia.
A segunda pode alimentar o extremismo.
E A EXTREMA-DIREITA BRASILEIRA?
É necessário também evitar uma generalização injusta.
Não é correto afirmar que todo bolsonarista é neonazista. Existem milhões de brasileiros conservadores ou de direita que rejeitam o nazismo, respeitam as eleições e defendem a democracia. Mas existem muitos entre essa ideologia que são declaradamente neonazistas, tem em seu poder símbolos, frases e fotos de Nazistas, como do próprio Hitler.
Entretanto, também seria irresponsável negar a existência de setores extremistas que procuram normalizar símbolos, discursos ou ideias autoritárias, racistas, supremacistas e antidemocráticas.
Esses grupos devem ser enfrentados democraticamente, com investigação quando houver crime, educação política, memória histórica e respeito às instituições.
Da mesma maneira, extremistas de esquerda que defendessem regimes autoritários ou violência política também deveriam ser rejeitados.
O critério democrático precisa valer para todos.
Não existe democracia seletiva.
Não existe “meu extremista pode, o extremista do outro lado não pode”.
Não existe liberdade apenas para quem concorda conosco.
ACORDA, BRASIL!
A grande lição da história da Divisão Galizien não está em escolher entre nazismo e stalinismo.
A verdadeira lição é compreender que uma sociedade pode ser destruída quando o ódio político passa a valer mais do que a dignidade humana.
É preciso estudar a história para reconhecer como regimes autoritários manipulam medos, ressentimentos, nacionalismos e inimigos imaginários.
É preciso lembrar que a pobreza não diminui a dignidade de ninguém.
É preciso reconhecer que trabalhadores, minorias, idosos, jovens, pessoas vulneráveis e cidadãos comuns merecem respeito independentemente de sua posição política.
É preciso votar em pessoas que compreendam que o mandato político não é propriedade pessoal, mas uma responsabilidade perante a sociedade.
E é preciso rejeitar candidatos que transformam adversários em inimigos a serem exterminados politicamente.
O Brasil não precisa de novos salvadores da pátria.
Precisa de cidadãos conscientes, instituições fortes, imprensa livre, Justiça independente, eleições respeitadas e políticos submetidos à lei.
A história da Segunda Guerra Mundial nos ensina que a democracia pode morrer quando as pessoas deixam de perceber o perigo do extremismo.
Por isso, acordar para a democracia significa não permitir que o passado seja romantizado, não aceitar que o nazismo seja lavado pela propaganda e não transformar o ódio ao adversário em programa político.
Que ninguém seja obrigado a amar Lula.
Que ninguém seja obrigado a gostar de Bolsonaro.
Que ninguém seja obrigado a ser de esquerda ou de direita.
Mas que todos compreendam uma coisa:
o adversário político continua sendo um ser humano.
E quando uma sociedade perde essa capacidade de reconhecer a humanidade de quem pensa diferente, ela começa a abandonar a democracia.
Acorda, Brasil. Não durma diante do extremismo. Democracia exige vigilância, memória histórica, pluralidade, empatia e, acima de tudo, respeito à dignidade humana.
Agora farei uma observação histórica importante: fiz uma correção de precisão em relação ao enunciado original. Não é adequado afirmar simplesmente que “a Divisão Galizien foi condenada como organização criminosa pelo Tribunal de Nuremberg”. O que Nuremberg declarou criminosa foi a SS, sob determinadas condições jurídicas; a Divisão Galizien, especificamente, não recebeu uma condenação coletiva naquele tribunal. Por outro lado, existem investigações posteriores que atribuíram crimes a unidades relacionadas à divisão, inclusive o 4º batalhão em Huta Pieniacka.
Também mantive a crítica ao extremismo político sem atribuir neonazismo indistintamente a todos os bolsonaristas, porque essa generalização enfraqueceria justamente o argumento democrático do texto.

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