1º - Argentina sob Milei: entre o discurso da “liberdade”, a crise social e a irresponsabilidade diplomática
A Argentina de Javier Milei tornou-se um dos maiores laboratórios políticos da América Latina. Eleito com um discurso de ruptura radical com a política tradicional, Milei prometeu transformar profundamente a economia argentina, reduzir o tamanho do Estado, combater a inflação e devolver ao país uma suposta prosperidade por meio de uma agenda ultraliberal. Entretanto, quase três anos depois de sua chegada ao poder, a realidade argentina é muito mais complexa — e muito menos triunfalista — do que a propaganda política de seus apoiadores tenta apresentar.
É preciso reconhecer que o governo Milei conseguiu produzir alguns resultados macroeconômicos importantes. A inflação mensal caiu significativamente em relação ao período de hiperinflação e descontrole que marcou a crise anterior, e a atividade econômica apresentou crescimento de 2,7% em junho de 2026 na comparação com o mesmo mês de 2025.
Mas uma economia não é apenas uma planilha de inflação, superávit fiscal ou crescimento do PIB. Economia existe para atender às necessidades das pessoas. E é justamente nesse ponto que começam as grandes contradições do chamado “modelo Milei”.
Os dados oficiais do INDEC mostram uma taxa de desemprego de 7,8% no primeiro trimestre de 2026. Ao mesmo tempo, as vendas dos supermercados argentinos caíram 3,1% em junho de 2026 em relação ao mesmo mês do ano anterior, enquanto o acumulado do primeiro semestre apresentou queda de 2,8%.
Portanto, não basta anunciar que “a economia está melhorando”. É necessário perguntar: melhorando para quem?
Quando os indicadores macroeconômicos melhoram, mas milhões de pessoas continuam enfrentando dificuldades para consumir, trabalhar e manter seu padrão de vida, existe uma contradição que não pode ser escondida por propaganda política.
A inflação caiu, mas o custo social permanece
Uma das maiores armadilhas do debate argentino é confundir desaceleração da inflação com redução dos preços.
Se os preços continuam subindo, ainda que em ritmo menor, o trabalhador que perdeu poder de compra não recupera automaticamente aquilo que perdeu. Uma família que teve seus salários corroídos durante anos não volta à situação anterior simplesmente porque a inflação mensal caiu.
É justamente por isso que a discussão sobre Milei precisa abandonar tanto a propaganda oficial quanto a caricatura de que absolutamente nada mudou.
Mudou.
Mas a pergunta fundamental continua sendo: qual foi o preço social dessa mudança?
A política de austeridade implementada pelo governo argentino atingiu fortemente gastos públicos, investimentos e diferentes setores da economia. Em determinadas regiões e atividades, os efeitos foram particularmente duros.
Um exemplo emblemático aparece em Misiones, onde a retirada do mecanismo de preço mínimo para a erva-mate provocou forte queda na remuneração dos produtores. Reportagem da Folha mostrou trabalhadores argentinos migrando para o Brasil em busca de trabalho, enquanto o número de CPFs concedidos a argentinos saltou para quase 40 mil em 2025.
Esse fenômeno deveria provocar uma reflexão séria.
Se o modelo econômico é apresentado como uma máquina de gerar prosperidade, por que trabalhadores argentinos precisam atravessar a fronteira para procurar trabalho no Brasil?
Não significa que todo argentino esteja fugindo da Argentina, nem que o Brasil tenha se transformado em uma espécie de paraíso econômico. Significa que existem setores da população argentina sofrendo consequências concretas das transformações promovidas pelo governo Milei.
E existe ainda outra ironia
Durante determinados períodos anteriores, eram brasileiros que atravessavam a fronteira para fazer compras na Argentina porque determinados produtos eram mais baratos.
A situação cambial mudou.
A inflação, a desvalorização do peso e a recomposição dos preços argentinos reduziram fortemente esse chamado “turismo de compras” brasileiro. A imprensa chegou a registrar a queda das filas e do movimento comercial em cidades argentinas que dependiam dos compradores brasileiros.
A fronteira, entretanto, não é apenas uma linha no mapa. Ela é um espaço de integração econômica e humana.
Brasileiros e argentinos trabalham juntos, fazem negócios, estudam, viajam, constituem famílias e compartilham uma história de décadas.
É justamente por isso que a postura de Javier Milei em relação ao Brasil se torna ainda mais preocupante.
Milei e os ataques contra Lula
Uma coisa é discordar politicamente de Luiz Inácio Lula da Silva.
Outra coisa completamente diferente é um chefe de Estado estrangeiro transformar o presidente brasileiro em alvo permanente de insultos.
Em julho de 2026, durante evento político realizado em São Paulo para apoiar a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro, Milei atacou Lula pessoalmente e classificou o governo brasileiro com termos ofensivos. Também atacou o ministro Alexandre de Moraes.
Depois, em vez de diminuir a tensão, Milei continuou utilizando suas redes sociais para republicar conteúdos ofensivos contra Lula.
Isso deixou de ser simplesmente uma briga entre dois políticos.
Quando um presidente da República ataca reiteradamente o chefe de Estado de outro país, a questão deixa de ser pessoal e passa a envolver relações internacionais.
E foi exatamente o que aconteceu.
O Brasil chamou seu embaixador em Buenos Aires para consultas e, posteriormente, decidiu rebaixar o nível das relações diplomáticas com a Argentina enquanto persistissem as agressões de Milei.
É uma situação extremamente grave.
Brasil e Argentina são os dois maiores países da América do Sul e possuem uma relação econômica, cultural e histórica que ultrapassa governos e partidos.
A política externa não deveria ser uma guerra de postagem
Talvez esse seja um dos aspectos mais preocupantes do comportamento de Milei.
Governantes podem ser ideológicos.
Podem ser conservadores, progressistas, liberais, social-democratas ou socialistas.
Podem discordar profundamente uns dos outros.
Mas existe uma diferença entre ter convicções políticas e transformar a diplomacia em uma extensão das redes sociais.
Um presidente não deveria agir como um influenciador digital permanentemente indignado.
Uma postagem impulsiva pode gerar aplausos entre militantes, mas uma declaração presidencial pode produzir consequências diplomáticas, econômicas e comerciais para milhões de pessoas.
É necessário perguntar:
Qual é o benefício para o povo argentino quando seu presidente chama o presidente brasileiro de ladrão, corrupto ou presidiário?
Nenhum.
O trabalhador argentino não ganha salário maior.
O empresário argentino não conquista automaticamente novos mercados.
O produtor rural não vende mais.
O estudante não recebe uma universidade melhor.
O aposentado não consegue comprar mais medicamentos.
A indústria argentina não fica mais competitiva.
O único resultado concreto é o aumento da hostilidade política.
E isso atinge também os argentinos
É injusto transformar o povo argentino em sinônimo de Javier Milei.
Milei não é a Argentina.
Lula não é o Brasil.
Governos passam. Povos permanecem.
Existem milhões de argentinos que gostam do Brasil, brasileiros que gostam da Argentina e famílias dos dois países que possuem vínculos profundos.
A Argentina é tango, literatura, futebol, ciência, universidades, cultura, trabalhadores, artistas, agricultores, professores, empresários e milhões de cidadãos comuns.
Não é razoável que a relação entre dois povos seja contaminada pelas provocações de seus governantes.
E muito menos que argentinos e brasileiros passem a olhar uns para os outros com desconfiança por causa de uma disputa ideológica alimentada nas redes sociais.
A grande contradição do “libertarianismo” de Milei
Existe uma pergunta que precisa ser feita aos defensores mais apaixonados do presidente argentino:
Liberdade para quem?
Liberdade econômica não pode significar simplesmente liberdade para o mercado enquanto trabalhadores perdem poder de compra, pequenos produtores abandonam suas atividades e pessoas precisam atravessar fronteiras em busca de melhores oportunidades.
Da mesma maneira, combater privilégios do Estado pode ser legítimo. Reduzir desperdícios públicos pode ser necessário. Combater inflação pode ser fundamental.
Mas destruir mecanismos de proteção social sem construir alternativas pode produzir uma sociedade ainda mais desigual.
O Estado pode ser ineficiente.
Mas o mercado também pode ser cruel quando não existem regras capazes de proteger quem está em posição mais frágil.
A questão séria não é escolher entre “Estado absoluto” e “mercado absoluto”.
A questão é construir um Estado eficiente, democrático e socialmente responsável, capaz de regular a economia sem sufocar a iniciativa privada e, ao mesmo tempo, proteger a dignidade humana.
Argentina e Brasil precisam voltar à racionalidade
O Brasil não precisa gostar de Milei.
A Argentina não precisa gostar de Lula.
Brasileiros e argentinos não precisam concordar politicamente.
Mas os dois países precisam compreender que seus interesses nacionais são muito maiores que as personalidades de seus presidentes.
Milei pode continuar atacando Lula nas redes sociais.
Lula pode responder ou escolher ignorá-lo.
Mas existe uma coisa que não pode ser esquecida:
governos passam; relações entre povos permanecem.
A Argentina precisa resolver seus problemas econômicos olhando para seus trabalhadores, seus empresários, seus produtores, seus jovens e seus aposentados — e não apenas para gráficos que possam ser utilizados como propaganda.
O Brasil, por sua vez, precisa defender sua soberania e suas instituições sem transformar a crise em uma guerra contra o povo argentino.
E os argentinos precisam ter liberdade para avaliar o governo Milei pelos resultados concretos de suas próprias vidas, não pelos vídeos, memes, discursos inflamados e postagens agressivas de seu presidente.
Porque governar não é postar.
Governar não é insultar.
Governar não é fabricar inimigos.
Governar é assumir responsabilidade pelas consequências das próprias decisões.
E quando um presidente transforma seus adversários em inimigos permanentes, sua política econômica em dogma e suas redes sociais em instrumento de provocação internacional, é legítimo perguntar se estamos diante de uma verdadeira estratégia de governo ou simplesmente diante de um espetáculo político permanente.
A Argentina merece mais do que espetáculo.
O Brasil merece respeito.
E os argentinos e brasileiros merecem uma relação baseada na amizade, na cooperação, no comércio e na soberania — não no ódio fabricado por políticos que parecem acreditar que quanto mais alto gritam, mais razão possuem.
Agora vamos ver o que aconteceu com os nossos povos latino-americanos sob ditaduras.
2º - Ditaduras militares na América Latina: memória, responsabilidade e defesa da democracia
Introdução
Entre as décadas de 1960 e 1980, diversos países latino-americanos foram submetidos a regimes militares que se apresentaram como soluções de ordem para crises políticas, econômicas e sociais. Sob o pretexto de combater o comunismo, a “subversão” ou o caos, esses governos dissolveram instituições, censuraram a imprensa, perseguiram opositores e transformaram o Estado em instrumento de vigilância, tortura, assassinato e desaparecimento forçado. A história demonstra, porém, que a ditadura não corrige a democracia: ela elimina o direito de contestar, impede a alternância de poder e protege os governantes da fiscalização pública.
A análise desse passado é particularmente urgente quando figuras públicas tratam ditadores como heróis ou sugerem que a força militar seria uma saída legítima para os problemas nacionais. Augusto Pinochet, frequentemente elogiado por setores da extrema direita brasileira — inclusive por admiradores de Jair Bolsonaro — não foi um “salvador” do Chile, mas o chefe de um regime responsável por graves violações de direitos humanos. O elogio a um ditador não é uma simples preferência histórica: pode normalizar a violência política e enfraquecer as defesas institucionais que impedem que crimes de Estado voltem a acontecer.
Chile: o golpe contra Allende e o poder de Pinochet
Em 11 de setembro de 1973, as Forças Armadas chilenas derrubaram o presidente Salvador Allende, eleito democraticamente em 1970. O golpe destruiu a ordem constitucional e instalou uma junta militar, posteriormente dominada pelo general Augusto Pinochet, que governou o país até 1990. Documentos desclassificados do próprio governo dos Estados Unidos registram que a CIA recebeu, em setembro de 1970, a missão de tentar impedir a chegada de Allende à Presidência e organizou uma força-tarefa para interferir no processo político chileno .
Esse registro não autoriza uma simplificação segundo a qual Washington teria executado sozinho cada golpe latino-americano. Os militares, empresários, grupos conservadores e elites locais também tomaram decisões e devem responder por seus atos. Entretanto, a documentação comprova que os Estados Unidos intervieram na política chilena, apoiando operações de desestabilização e favorecendo um ambiente no qual a ruptura institucional se tornou possível. Durante a Guerra Fria, a defesa abstrata do “mundo livre” foi muitas vezes usada para sustentar governos que negavam liberdade concreta aos seus próprios cidadãos.
O regime de Pinochet dissolveu o Congresso, proibiu partidos, censurou os meios de comunicação, prendeu milhares de pessoas e empregou tortura, execução e desaparecimento forçado como métodos de governo. A repressão atingiu militantes de esquerda, sindicalistas, estudantes, artistas, funcionários públicos e cidadãos acusados — muitas vezes sem prova e sem julgamento — de serem inimigos do Estado. A Direção de Inteligência Nacional, a DINA, tornou-se um dos principais instrumentos dessa política de terror.
Por isso, Pinochet não pode ser separado de seus crimes por meio do argumento de que teria promovido estabilidade econômica. Mesmo quando uma ditadura implementa determinadas políticas econômicas, isso não apaga assassinatos, sequestros e torturas. Desenvolvimento não é sinônimo de liberdade, e crescimento econômico não compra o direito de um governo sequestrar seus adversários. Uma sociedade democrática deve avaliar políticas públicas por seus resultados e, simultaneamente, exigir que nenhum governante esteja acima da lei.
Brasil: golpe, repressão e ocultação da verdade
No Brasil, o golpe de 1964 depôs o presidente João Goulart e inaugurou uma ditadura que durou até 1985. O regime impôs atos institucionais, cassou mandatos, suspendeu direitos políticos, controlou a imprensa e perseguiu opositores. O Ato Institucional nº 5, decretado em 1968, aprofundou o autoritarismo ao fechar o Congresso, restringir o habeas corpus e ampliar a arbitrariedade dos órgãos de repressão.
A Comissão Nacional da Verdade documentou práticas de detenções ilegais, tortura, violência sexual, execuções, desaparecimentos forçados e ocultação de cadáveres durante a ditadura brasileira . O desaparecimento forçado tinha uma dupla função: eliminar a vítima e produzir incerteza entre familiares e amigos. Sem corpo, sem certidão confiável e sem investigação, a família era condenada a uma espera interminável. O Estado tentava matar não apenas a pessoa, mas também a possibilidade de prova e de luto.
A Vala de Perus, descoberta em 1990 no Cemitério Dom Bosco, em São Paulo, tornou-se um dos símbolos dessa tentativa de apagar vestígios. Ossadas haviam sido depositadas em uma vala clandestina, inclusive de pessoas enterradas como indigentes, e a investigação posterior demonstrou a dificuldade criada pela repressão para identificar os mortos . O caso revela que o terrorismo de Estado não termina no momento do assassinato: ele continua na mentira oficial, na destruição de documentos, na ocultação dos restos mortais e na negação do sofrimento das famílias.
Também no Brasil houve colaboração com os demais regimes do Cone Sul. A Operação Condor articulou serviços de segurança do Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia e Brasil. Um documento do Departamento de Estado norte-americano de 1977 descreve essa cooperação, inicialmente voltada ao intercâmbio de informações, mas que passou a incluir discussões sobre operações de assassinato no exterior . A repressão, portanto, não respeitava fronteiras: exilados podiam ser sequestrados, mortos ou perseguidos em países vizinhos.
Argentina: o terrorismo de Estado e os voos da morte
A ditadura argentina iniciada em 1976 foi uma das experiências mais brutais do continente. A junta militar alegou combater a subversão, mas empregou uma política clandestina e sistemática de sequestros, centros de detenção, torturas, assassinatos e desaparecimentos. Pessoas eram retiradas de suas casas ou capturadas nas ruas, levadas a centros clandestinos e submetidas a interrogatórios violentos. Muitas jamais retornaram.
O relatório Nunca Más, produzido pela Comissão Nacional sobre o Desaparecimento de Pessoas, a CONADEP, foi entregue em 1984 e registrou 8.961 casos de desaparecidos documentados à época . Organizações de direitos humanos mantêm a referência histórica de aproximadamente 30 mil desaparecidos. A diferença entre o número registrado pela comissão e a cifra defendida pelos movimentos de memória não deve ser usada para negar o terrorismo de Estado: ela reflete, entre outros fatores, o caráter clandestino dos crimes, a destruição de provas, o medo das famílias e os limites de uma investigação realizada logo após a ditadura.
Entre os métodos de extermínio estiveram os chamados “voos da morte”, nos quais prisioneiros eram lançados ao mar ou ao Rio da Prata. O objetivo era tornar os corpos invisíveis e impedir que a sociedade conhecesse a extensão dos crimes. Além disso, houve apropriação de crianças nascidas ou sequestradas junto com suas mães, uma violência que atingiu a identidade e a história de famílias inteiras. As Avós da Praça de Maio transformaram a busca por essas crianças em uma das mais importantes lutas por verdade, justiça e memória do mundo contemporâneo.
A Argentina também mostra que a violência autoritária não pode ser justificada pelo combate a organizações armadas. Mesmo quando existiam grupos guerrilheiros e conflitos políticos, a resposta de um Estado constitucional deveria respeitar o devido processo legal. O Estado que sequestra, tortura e mata sem julgamento não combate o crime: ele próprio se torna criminoso.
Uma rede continental de repressão
Chile, Brasil e Argentina não foram casos isolados. Bolívia, Uruguai, Paraguai e outros países da região sofreram golpes, governos militares ou regimes autoritários que aplicaram censura, perseguição política e violência de Estado. Cada país teve sua história específica, mas havia elementos comuns: a Doutrina de Segurança Nacional, a ideia de que o inimigo interno justificaria a suspensão de direitos, a militarização da política e a identificação de divergência com traição nacional.
A Operação Condor institucionalizou parte dessa lógica em escala internacional. Serviços de inteligência compartilhavam informações, perseguiam exilados e coordenavam ações contra opositores. A existência dessa rede demonstra que a repressão não foi uma sucessão de excessos individuais, mas uma política organizada. Também revela a responsabilidade das instituições que participaram, acobertaram ou toleraram tais práticas.
A influência norte-americana precisa ser compreendida com rigor. Os Estados Unidos apoiaram, financiaram ou toleraram diferentes regimes autoritários conforme seus interesses geopolíticos, especialmente no contexto da Guerra Fria. O caso chileno está claramente documentado em arquivos oficiais . Contudo, atribuir toda a responsabilidade a Washington seria apagar a atuação dos comandantes militares, dos grupos empresariais, das oligarquias e dos setores civis que apoiaram os golpes. A defesa da democracia exige reconhecer tanto a ingerência externa quanto a responsabilidade interna.
O legado de destruição
As ditaduras deixaram consequências que ultrapassam o número de mortos e desaparecidos. Destruíram organizações civis, interromperam trajetórias acadêmicas e profissionais, exilaram intelectuais, enfraqueceram sindicatos, censuraram a cultura e produziram gerações marcadas pelo medo. Famílias ficaram sem respostas; crianças cresceram sem saber o destino dos pais; sobreviventes carregaram traumas físicos e psicológicos; sociedades inteiras aprenderam a desconfiar da política.
Além disso, a impunidade parcial ou tardia contribuiu para a permanência de uma cultura de violência. Quando torturadores morrem sem julgamento ou são celebrados como heróis, transmite-se a mensagem de que certos agentes do Estado podem cometer crimes e ainda receber honras. É preciso fazer uma distinção importante: nem toda pessoa que ocupou uma função pública em um regime militar praticou crimes, mas aqueles que ordenaram, executaram ou encobriram torturas, assassinatos e desaparecimentos devem ser responsabilizados segundo a lei e a prova disponível.
A democracia também não deve ser idealizada como um sistema perfeito. Ela produz conflitos, crises, corrupção e decisões frustrantes. Sua superioridade, contudo, está na possibilidade de corrigir erros sem destruir a liberdade. Em uma democracia, governos podem ser derrotados nas urnas, investigados por instituições independentes e criticados pela imprensa. Em uma ditadura, o cidadão não dispõe de mecanismos seguros para impedir o abuso do poder.
O perigo do retorno autoritário
A nostalgia da ditadura costuma ser construída por meio de três falsificações. A primeira é apresentar o autoritarismo como sinônimo de ordem, ocultando que a ordem era mantida pela censura e pelo medo. A segunda é afirmar que os crimes foram apenas “excessos” de alguns agentes, ignorando sua estrutura organizada. A terceira é transformar torturadores e chefes de regimes repressivos em patriotas, como se a violência contra opositores fosse uma prova de coragem.
O discurso de certos candidatos que ovacionam criminosos da repressão deve ser enfrentado com firmeza, mas também com argumentos e memória. Liberdade não significa permitir que um grupo destrua a liberdade de todos. Quem pede “liberdade” para si enquanto defende censura, perseguição a minorias, golpe de Estado ou violência política não está defendendo a liberdade: está reivindicando privilégio e impunidade.
Também é preciso rejeitar o uso de uma imagem religiosa para legitimar preconceito, misoginia, racismo, machismo, orgulho e tortura. Nenhum grupo é dono de Jesus, da verdade ou da moralidade. A democracia plural não exige que todos pensem do mesmo modo; exige que ninguém seja privado de direitos por sua origem, fé, gênero, orientação sexual, posição política ou condição social.
Conclusão: acordar antes que seja tarde
As ditaduras latino-americanas foram pragas políticas porque substituíram o debate pelo silêncio, a justiça pela tortura e a cidadania pela obediência. No Chile, Pinochet governou por meio do terror; no Brasil, a repressão perseguiu, torturou, matou e ocultou corpos; na Argentina, milhares foram desaparecidos e muitos lançados ao mar. A Operação Condor mostrou que essas práticas podiam ser articuladas entre países para eliminar rivais e silenciar democratas.
A memória não é vingança; é uma forma de proteção coletiva. Lembrar os mortos, procurar os desaparecidos, identificar ossadas, abrir arquivos e responsabilizar criminosos são medidas necessárias para impedir que a violência seja convertida em heroísmo. Uma sociedade que esquece seus mortos fica mais vulnerável àqueles que prometem salvá-la destruindo suas instituições.
Acorda, América Latina. Ainda há tempo de defender a democracia antes que o autoritarismo se apresente novamente como remédio. É preciso votar em pessoas e projetos comprometidos com o pluralismo, os direitos humanos, a liberdade de imprensa, a separação dos poderes e a dignidade de cada cidadão. O voto não tem preço, mas tem consequências. E a consequência mais grave de escolher golpistas e admiradores de torturadores é entregar o futuro a quem já demonstrou desprezo pela vida, pela verdade e pela liberdade.
Ditadura nunca mais: nem como solução, nem como nostalgia, nem como culto a homens que fizeram do Estado uma máquina de medo.
Referências
3º - Operação Condor e CIA: o que os documentos permitem afirmar
Introdução: entre a evidência e o mito
A Operação Condor foi uma rede de cooperação repressiva criada pelos serviços de inteligência das ditaduras do Cone Sul em meados da década de 1970. Seu objetivo declarado era combater o “terrorismo” e a “subversão”, mas sua prática consistiu em localizar, sequestrar, torturar e assassinar opositores para além das fronteiras nacionais. Participaram de sua estrutura Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia e Brasil; documentos norte-americanos também registram a troca de informações e a discussão de operações letais no exterior .
A pergunta sobre o papel da CIA exige precisão. Há duas afirmações diferentes que não devem ser confundidas. A primeira é que a CIA e o governo dos Estados Unidos sabiam da existência da Condor, mantinham relações com os serviços de inteligência da região e receberam informações sobre seus planos criminosos. Essa afirmação é amplamente sustentada por documentos desclassificados. A segunda é que a CIA teria criado, comandado diretamente ou executado todas as operações da Condor. Essa formulação exige provas específicas e não pode ser apresentada como conclusão automática. A responsabilidade histórica norte-americana é grave, mas não deve ser demonstrada por exageros que permitam aos defensores das ditaduras rejeitar todo o conjunto da denúncia como “conspiração”.
1. A arquitetura regional da repressão
A Condor surgiu em um ambiente já marcado por golpes militares, doutrinas anticomunistas e cooperação entre forças de segurança. A Conferência de Inteligência dos Exércitos Americanos, os canais diplomáticos, o treinamento militar e os intercâmbios de informação haviam criado redes que antecediam a operação formal. Depois dos golpes no Chile, em 1973, e na Argentina, em 1976, os regimes do Cone Sul passaram a perseguir exilados e militantes que haviam atravessado fronteiras para escapar da repressão.
A inovação da Condor foi transformar a fronteira em extensão do aparelho policial. Um opositor que estivesse exilado em Buenos Aires, Santiago, Montevidéu, Assunção ou Porto Alegre podia continuar sendo tratado como alvo por agentes estrangeiros. O sistema combinava bancos de dados, comunicação entre serviços de inteligência, vigilância, falsificação de documentos, operações de captura e, em alguns casos, assassinatos. A repressão deixou de ser apenas nacional e adquiriu caráter transnacional.
O telegrama do Departamento de Estado de 24 de março de 1977 descreve a Condor como uma cooperação entre os serviços de segurança de Chile, Argentina, Uruguai, Paraguai, Bolívia e Brasil. O documento informa que a operação começou com a troca de dados sobre grupos considerados subversivos, mas que discussões posteriores incluíram assassinatos no exterior . A fonte é importante porque não é uma narrativa posterior de militantes: trata-se de um registro produzido pelo próprio governo norte-americano durante o período.
Um dos documentos mais reveladores é um memorando secreto da CIA datado de 24 de julho de 1976 e dirigido ao vice-diretor da agência, Raymond A. Warren. O texto trata da “cooperação regional” entre os serviços latino-americanos e afirma que os países da Condor estavam organizando esquadrões de assassinato com a finalidade de eliminar líderes considerados terroristas fora da região do Cone Sul .
A descrição feita pelo National Security Archive, com base no documento, destaca que o chefe da Divisão da América Latina da CIA considerava a expansão da Condor um novo problema para a agência. O memorando recomendava precauções para que a CIA não fosse “injustamente” acusada de participar daquele tipo de atividade e perguntava que medidas poderiam ser tomadas para impedir atividades ilegais .
Esse documento contém uma contradição moral e política decisiva. A CIA reconhecia o risco de assassinatos internacionais, mas a preocupação registrada aparece, em parte, como preocupação institucional com a possibilidade de a agência ser responsabilizada. A questão histórica não é apenas saber se agentes norte-americanos apertaram o gatilho. É também perguntar por que uma organização que conhecia planos de assassinato não mobilizou, de imediato, todos os meios diplomáticos e operacionais disponíveis para impedir a violência e proteger os alvos.
Isso não significa que o memorando prove uma ordem da CIA para assassinar opositores. Ele prova, contudo, que setores da agência conheciam a natureza da operação e que a Condor não era uma fantasia inventada posteriormente. O silêncio, a inação ou a resposta seletiva diante de um crime conhecido também podem produzir responsabilidade política, ainda que não sejam equivalentes à autoria material do assassinato.
3. O caso Letelier-Moffitt e a omissão norte-americana
O assassinato de Orlando Letelier e Ronni Moffitt, em Washington, em 21 de setembro de 1976, tornou visível o alcance internacional da repressão. Letelier, ex-ministro do governo de Salvador Allende e crítico de Pinochet, morreu quando uma bomba explodiu sob seu automóvel. Ronni Moffitt, cidadã norte-americana que estava no veículo, também foi assassinada.
O dossiê “Chile e Operação Condor”, do National Security Archive, reúne cabos e documentos que apontam para uma sequência perturbadora. A CIA possuía informações sobre planos da Condor; o Departamento de Estado discutiu o envio de uma advertência diplomática aos governos militares; no fim de agosto, a advertência foi formulada, mas não chegou efetivamente aos destinatários. Em 20 de setembro, um cabo orientou os diplomatas a não realizar novas ações de dissuasão, pois não havia, segundo a avaliação registrada, notícias recentes indicando que o plano seria ativado. No dia seguinte, Letelier e Moffitt foram mortos .
A cronologia não autoriza afirmar que uma ordem norte-americana determinou o atentado. Ela permite, entretanto, uma crítica contundente à negligência e à prioridade atribuída às relações estratégicas com os regimes militares. A pergunta fundamental é: o que autoridades norte-americanas sabiam, quando souberam e o que fizeram com essa informação? Em política externa, a omissão diante de uma ameaça concreta não é moralmente neutra.
O caso também evidencia a participação direta da ditadura chilena. A investigação judicial posterior identificou agentes da polícia secreta chilena envolvidos no atentado. Assim, a existência de conhecimento norte-americano não diminui a responsabilidade de Pinochet, da DINA e dos executores chilenos. Ao contrário, demonstra como a impunidade internacional e a tolerância geopolítica podiam ampliar a capacidade de ação dos regimes.
4. A CIA sabia da Condor e confrontou Manuel Contreras
Outro documento oficial, preparado pela CIA e publicado na coleção Foreign Relations of the United States, registra que um funcionário norte-americano confrontou o coronel Manuel Contreras, chefe da DINA, com o conhecimento dos Estados Unidos sobre a existência da Condor. Contreras negou que as informações fossem corretas e rejeitou a acusação de que um dos objetivos da operação fosse agir contra opositores na Europa. O mesmo documento informa que dados obtidos clandestinamente indicavam que os planos da Condor continuavam .
A importância desse registro está em três pontos. Primeiro, ele confirma que a CIA não estava simplesmente alheia ao funcionamento da rede. Segundo, evidencia que o governo chileno tentava ocultar ou minimizar suas intenções até diante de interlocutores norte-americanos. Terceiro, revela que a inteligência dos Estados Unidos possuía acesso a informações clandestinas e, portanto, tinha condições de avaliar a gravidade dos acontecimentos.
A resposta de Contreras também ilustra a linguagem típica das ditaduras. Os alvos eram chamados de “terroristas” ou “subversivos”, e os assassinatos eram apresentados como medidas de segurança. Essa linguagem procurava converter o opositor em objeto sem direitos. Uma vez classificado como inimigo absoluto, ele podia ser sequestrado sem mandado, torturado sem registro e morto sem julgamento.
5. O papel norte-americano antes e depois dos golpes
O papel dos Estados Unidos não foi uniforme. Ele deve ser analisado em diferentes níveis históricos.
Antes dos golpes, Washington interveio politicamente para conter governos e movimentos considerados ameaças aos interesses anticomunistas e econômicos norte-americanos. No Chile, um memorando da CIA registra que, em 15 de setembro de 1970, a agência recebeu a missão de tentar impedir que Salvador Allende assumisse a Presidência, organizando uma força-tarefa específica . Esse documento demonstra ingerência no processo político chileno, embora não prove que a CIA tenha planejado sozinha o golpe de 1973.
Durante a consolidação dos regimes, autoridades norte-americanas mantiveram canais diplomáticos, militares e de inteligência com os governos anticomunistas. Em muitos momentos, a prioridade foi evitar a expansão da esquerda e proteger interesses estratégicos, mesmo diante de denúncias de violações. A retórica sobre democracia e liberdade foi aplicada de modo seletivo: condenava-se o adversário geopolítico, enquanto aliados autoritários recebiam reconhecimento, cooperação ou tolerância.
Depois das revelações e do aumento da pressão internacional, especialmente durante a presidência de Jimmy Carter, direitos humanos passaram a ocupar lugar mais visível na política externa norte-americana. Isso, porém, não elimina a responsabilidade pelos anos de apoio ou tolerância anteriores. Além disso, a política dos Estados Unidos não deve ser tratada como homogênea: havia disputas internas entre a Casa Branca, a CIA, o Departamento de Estado, diplomatas, Congresso e setores preocupados com os direitos humanos.
A formulação mais responsável, portanto, é esta: os Estados Unidos não foram necessariamente o comando único de todas as ditaduras ou de todas as ações da Condor, mas contribuíram para o ambiente que favoreceu sua ascensão, apoiaram ou toleraram governos militares anticomunistas e possuíam conhecimento relevante sobre a repressão transnacional. A CIA, especificamente, esteve informada sobre a existência e os perigos da Condor, manteve relações com serviços de inteligência regionais e não impediu, de modo eficaz, crimes que seus próprios documentos indicavam estar em preparação.
6. Responsabilidade norte-americana e responsabilidade local
Reconhecer a influência norte-americana não significa absolver os militares latino-americanos. A Operação Condor foi criada e executada por aparelhos de segurança dos próprios países envolvidos. Generais, chefes de polícia, agentes de inteligência, ministros, empresários e setores civis locais tomaram decisões concretas. Foram autoridades nacionais que sequestraram pessoas, torturaram prisioneiros, montaram centros clandestinos, ocultaram cadáveres e falsificaram versões oficiais.
Uma análise histórica equilibrada precisa evitar dois erros opostos. O primeiro é o nacionalismo defensivo que nega qualquer interferência dos Estados Unidos. O segundo é o reducionismo que apresenta os latino-americanos como meros instrumentos sem agência. As ditaduras tinham projetos próprios: eliminar partidos, sindicatos, movimentos estudantis e organizações populares; reorganizar a economia; conservar privilégios; e substituir a soberania popular pela autoridade militar.
A influência externa funcionou como condição facilitadora, fonte de legitimidade, apoio material ou proteção diplomática em diferentes momentos. A decisão de torturar uma pessoa brasileira, argentina, chilena ou uruguaia, porém, foi tomada por agentes dos respectivos Estados. Em termos jurídicos e morais, a existência de apoio estrangeiro não dissolve a autoria dos crimes locais.
7. Por que essa história importa hoje
A Operação Condor ensina que a democracia pode ser destruída por etapas. Primeiro, o adversário político é apresentado como inimigo da pátria. Depois, a imprensa crítica é acusada de sabotagem. Em seguida, as instituições são descritas como obstáculos, o Judiciário como inimigo e os direitos humanos como proteção de criminosos. Quando a sociedade se acostuma com essa linguagem, a violência passa a ser vendida como patriotismo.
A defesa atual da democracia não deve depender de ingenuidade. Forças políticas podem reivindicar ordem, liberdade e segurança enquanto defendem censura, golpe, tortura ou violência contra minorias. A experiência da Condor prova que regimes que prometem eliminar os “inimigos” raramente param nos grupos inicialmente apontados. A categoria de inimigo se expande até alcançar jornalistas, professores, sindicalistas, estudantes, artistas, religiosos, defensores de direitos humanos e cidadãos comuns.
Por isso, a memória dos arquivos não é um exercício antiquário. Ela é um instrumento de prevenção. Documentos desclassificados revelam que governos podem saber de crimes, avaliar riscos e, ainda assim, agir tarde demais quando interesses estratégicos pesam mais que vidas humanas. A lição é direta: nenhuma aliança militar, econômica ou geopolítica pode justificar a tolerância com desaparecimentos, torturas e assassinatos.
Conclusão
Os documentos da Operação Condor não sustentam uma narrativa simplista, mas sustentam uma acusação histórica poderosa. As ditaduras do Cone Sul organizaram uma rede própria de repressão transnacional. A CIA e o governo dos Estados Unidos sabiam de sua existência, acompanhavam seus movimentos e dispunham de informações sobre planos de assassinato. O memorando da CIA de julho de 1976, os cabos sobre a advertência não entregue e o assassinato de Letelier e Moffitt demonstram que o problema não foi apenas desconhecimento: houve conhecimento, hesitação e respostas insuficientes.
A responsabilidade não deve ser distribuída de maneira artificialmente igual. Os regimes militares latino-americanos foram os agentes diretos da tortura, do sequestro, do desaparecimento e do assassinato. Os Estados Unidos, por sua vez, carregam a responsabilidade por ingerências, apoio, tolerância e omissões que contribuíram para que esses regimes se fortalecessem e atuassem com maior segurança. O trabalho histórico consiste precisamente em identificar o grau de participação de cada ator, e não em substituir prova por slogan.
A conclusão política é incontornável: ditaduras não são atalhos para a liberdade. Elas são sistemas que prometem proteger a sociedade enquanto retiram dela o direito de decidir. Quem transforma torturadores em heróis e assassinos de Estado em exemplos de patriotismo não está defendendo a ordem democrática, mas preparando o terreno para a repetição do crime. Conhecer a Condor é compreender que o autoritarismo raramente chega anunciando o desaparecimento de milhares; ele começa quando parte da sociedade aceita que alguns cidadãos podem perder direitos em nome de uma suposta salvação nacional.
Referências
4º - Evidências documentais sobre a Operação Condor e a CIA
1. Memorando da CIA de 24 de julho de 1976
O National Security Archive disponibiliza um memorando secreto da CIA intitulado “Operation Condor – Regional Co-operation Among Latin American Intelligence Services Against Terrorism”. O documento foi dirigido ao vice-diretor da CIA, Raymond A. Warren, e registra que os países da Condor estavam organizando esquadrões de assassinato para “liquidar” líderes considerados terroristas fora da região do Cone Sul. O memorando afirma que esse programa criava novos problemas para a agência e que deveriam ser tomadas precauções para que a CIA não fosse acusada de ser parte desse tipo de atividade. A formulação demonstra conhecimento institucional sobre a existência e a natureza criminosa dos planos, mas, isoladamente, não prova que a CIA tenha criado ou comandado a Operação Condor.
2. Dossiê Chile e Operação Condor
O National Security Archive reúne documentos do Departamento de Estado indicando que autoridades norte-americanas tinham conhecimento prévio da rede repressiva transnacional. O material registra que a CIA reteve por semanas informações sobre planos da Condor; no fim de agosto de 1976, o gabinete de Henry Kissinger enviou uma advertência diplomática aos governos militares, mas o aviso não chegou efetivamente aos destinatários. Um cabo de 20 de setembro orientou que não fossem tomadas novas medidas para dissuadir os planos, porque não havia, segundo a avaliação registrada, indícios recentes de ativação. No dia seguinte, agentes da polícia secreta chilena assassinaram Orlando Letelier e Ronni Moffitt em Washington, D.C.
3. Documento oficial do Departamento de Estado de 1977
O FRUS, publicação oficial do Office of the Historian do Departamento de Estado, descreve a Operação Condor como acordo cooperativo de inteligência entre Chile, Argentina, Paraguai, Uruguai, Bolívia e Brasil. O documento registra troca de informações, discussão de operações de assassinato no exterior e a existência de equipes destinadas a localizar opositores. Essa fonte demonstra a dimensão multinacional da repressão.
4. Documento da CIA sobre o conhecimento de Condor no Chile
Outro documento do FRUS, preparado pela CIA e relativo a uma reunião sobre o Chile, registra que um funcionário norte-americano confrontou o chefe da DINA, Manuel Contreras, com o conhecimento dos Estados Unidos sobre a existência da Condor. Contreras negou a informação e recusou admitir que um dos objetivos fosse agir contra “terroristas” na Europa. O documento também afirma que informações clandestinas indicavam a continuidade dos planos da Condor.
Síntese interpretativa
A evidência permite sustentar quatro conclusões cautelosas: (a ) os regimes do Cone Sul foram os agentes diretos da criação e execução da Operação Condor; (b) a CIA e o Departamento de Estado tinham conhecimento relevante da rede e de seus planos; (c) houve demora, omissão, falha ou tolerância política na resposta norte-americana, especialmente antes do assassinato de Letelier e Moffitt; e (d) não é metodologicamente correto afirmar, sem prova específica, que a CIA comandou todas as operações da Condor ou que Washington ordenou cada crime.
A responsabilidade é, portanto, compartilhada em níveis diferentes: os aparatos militares e policiais locais responderam pela decisão e execução dos crimes; setores civis nacionais colaboraram ou legitimaram os regimes; e autoridades norte-americanas contribuíram para o ambiente geopolítico, apoiaram ou toleraram ditaduras anticomunistas e, em certos momentos, não impediram crimes que conheciam ou suspeitavam estar em preparação.
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