20/08/26

A política do inimigo absoluto, um câncer maligno entranhado no meio destas eleições 2026.

 

Quando a política abandona o debate e abraça a mentira

As eleições brasileiras de 2026 começaram oficialmente a entrar em sua fase de propaganda eleitoral em 16 de agosto, quando o Tribunal Superior Eleitoral autorizou a campanha nas ruas e também na internet. E, diante da importância desse momento, é necessário fazer um alerta: uma eleição democrática não pode ser transformada em uma guerra de destruição moral, na qual adversários políticos deixam de ser tratados como cidadãos que pensam diferente e passam a ser apresentados como inimigos que precisam ser exterminados politicamente.

O debate político pode — e deve — ser duro. Governos, parlamentares, candidatos e partidos precisam ser fiscalizados, questionados e criticados. Denúncias devem ser investigadas. Erros precisam ser apontados. Mas existe uma diferença fundamental entre crítica política legítima e fabricação deliberada de uma realidade falsa. Quando uma campanha substitui argumentos por calúnias, manipulações, vídeos enganosos, acusações sem provas e demonização sistemática dos adversários, a democracia deixa de ser tratada como espaço de disputa de ideias e passa a ser utilizada como instrumento de guerra política.

Um exemplo recente mostra exatamente o perigo desse fenômeno. O senador Flávio Bolsonaro divulgou vídeos produzidos com inteligência artificial associando Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como Lulinha, às fraudes investigadas no INSS. Uma dessas peças utilizou recursos de IA para construir uma narrativa cinematográfica em torno da suposta “captura” de Lulinha e associá-lo ao dinheiro retirado ilegalmente de aposentados.

Entretanto, é indispensável separar investigação, suspeita, acusação e condenação.

Há, de fato, investigações da Polícia Federal envolvendo Lulinha. A PF apura suspeitas de tráfico de influência relacionadas a negócios envolvendo o Ministério da Saúde e pessoas investigadas na Operação Sem Desconto. A defesa dele nega irregularidades.

Isso é uma coisa.

Outra, completamente diferente, é afirmar como fato consumado que Lulinha “roubou os aposentados do INSS”. Até o momento, as fontes consultadas não sustentam essa afirmação como uma condenação ou como fato judicialmente estabelecido. O próprio conteúdo divulgado por Flávio Bolsonaro foi objeto de contestação judicial: Lulinha processou o senador pelo vídeo produzido com IA, alegando que o material o acusava de envolvimento nos desvios do INSS.

É justamente nessa diferença que reside uma das maiores ameaças da política contemporânea: a transformação de uma investigação em sentença pública antes que a Justiça conclua o processo.

A inteligência artificial torna esse problema ainda mais grave. Uma pessoa pode assistir a um vídeo aparentemente realista, com voz, imagens, cenários e acontecimentos que parecem verdadeiros, e simplesmente acreditar que aquilo aconteceu. Para quem não possui tempo, conhecimento técnico ou hábito de verificar fontes, a mentira visualmente convincente pode adquirir aparência de verdade.

E esse perigo não pertence exclusivamente a um lado político. A fabricação de conteúdos manipulados pode atingir candidatos de direita, centro ou esquerda. Um exemplo recente mostra justamente isso: o TSE determinou a retirada de um vídeo produzido com IA que associava Flávio Bolsonaro a Daniel Vorcaro, entendendo que o conteúdo poderia prejudicar a candidatura e que não havia identificação adequada do uso da inteligência artificial. Mas, vemos aí um lado revelado pelo ministro do TSE responsável, que não retirou outro vídeo produzido por IA de Flávio Bolsonaro caluniando o Fábio Lula, falando que Lulinha roubou os aposentados do INSS, um vídeo descaradamente criminoso, porque não existe nenhuma prova daquilo que ele fala ali.

A lição, portanto, precisa ser maior do que a disputa entre Lula, Flávio Bolsonaro ou qualquer outro candidato: não devemos aceitar que a mentira se transforme em método eleitoral, independentemente de quem a pratique. Pau que dá em Chico, também dará em Francisco. Ou a lei tem lado? Estou vendo que; até certo ponto, parece que tem.

A política do inimigo absoluto

Existe uma lógica extremamente perigosa quando determinado grupo político começa a apresentar todos os seus adversários como corruptos, comunistas, inimigos da família, inimigos de Deus, inimigos da pátria, inimigos da liberdade ou inimigos do povo.

O adversário deixa de ser alguém que pensa diferente.

Transforma-se em um demônio.

E, quando alguém é apresentado como um demônio, abre-se espaço para justificar qualquer tipo de agressão contra ele: humilhação, perseguição, difamação, desumanização e até violência.

É nesse ponto que a democracia começa a adoecer.

Uma democracia verdadeira não exige que todos pensem da mesma maneira. Pelo contrário: ela existe justamente porque pessoas diferentes podem defender projetos diferentes de sociedade sem que uma delas precise destruir a existência política da outra.

O cidadão de esquerda não é inimigo do cidadão de direita.

O progressista não é automaticamente inimigo do conservador.

O religioso não é inimigo do ateu.

O ateu não é inimigo do religioso.

O crítico do governo não é inimigo da democracia.

E aquele que defende determinado candidato não precisa transformar quem vota em outro candidato em inimigo pessoal.

STF, urnas e instituições

Outro aspecto preocupante é a tentativa recorrente de transformar instituições democráticas em vilãs absolutas.

É perfeitamente legítimo criticar decisões do Supremo Tribunal Federal, do Tribunal Superior Eleitoral, do Congresso Nacional, do governo, da oposição, da imprensa ou de qualquer outra instituição pública. Nenhuma instituição está acima da crítica.

Mas existe uma diferença entre criticar uma instituição e destruir a confiança pública nela por meio de afirmações falsas ou generalizações sem provas.

As urnas eletrônicas, por exemplo, podem ser discutidas, auditadas e aperfeiçoadas. A própria legislação eleitoral prevê mecanismos de fiscalização e auditoria. O problema surge quando uma dúvida legítima sobre determinado procedimento é transformada em uma narrativa permanente de que toda eleição é fraudada, sem apresentar evidências capazes de sustentar uma acusação dessa magnitude.

A mesma lógica vale para o STF.

Pode-se discordar de ministros. Pode-se questionar decisões judiciais. Pode-se defender mudanças legislativas, institucionais ou constitucionais. O que não deveria ser normalizado é transformar magistrados, servidores públicos ou instituições inteiras em inimigos absolutos da população por meio de campanhas sistemáticas de demonização.

Instituições podem e devem ser fiscalizadas.

Mas instituições democráticas não podem ser destruídas simplesmente porque determinada decisão desagradou a um grupo político.

O perigo da mentira repetida

A mentira política possui uma característica particularmente perigosa: ela não precisa ser completamente acreditada para produzir efeitos.

Basta provocar dúvida.

Basta fazer alguém pensar: “Será que é verdade?”

Depois vem outra publicação.

Outro vídeo.

Outra montagem.

Outra manchete.

Outro áudio.

Outro perfil nas redes sociais.

E, pouco a pouco, aquilo que começou como uma afirmação sem prova passa a circular como se fosse conhecimento público.

É assim que a desinformação prospera.

A inteligência artificial pode ampliar esse fenômeno de maneira extraordinária. Um vídeo falso pode parecer documental. Uma voz artificial pode imitar uma pessoa conhecida. Uma fotografia pode representar uma cena que nunca aconteceu. Uma fala pode ser completamente inventada e colocada na boca de alguém que jamais a pronunciou.

Por isso, o eleitor de 2026 terá uma responsabilidade ainda maior: não acreditar imediatamente naquilo que provoca indignação, medo ou ódio.

Quanto mais emocional for o conteúdo, maior deve ser a disposição para verificar.

Não existe democracia de um dono

Também é preciso rejeitar a ideia de que determinado grupo político possui exclusividade sobre a democracia, a pátria, a família, a religião, a moralidade ou o próprio cristianismo.

Nenhum partido é proprietário da democracia.

Nenhum candidato é proprietário da pátria.

Nenhum grupo político é dono da família.

E ninguém possui procuração para falar em nome exclusivo de Jesus.

Quando setores políticos utilizam a religião para afirmar que somente eles representam Deus, enquanto seus adversários seriam moralmente inferiores ou inimigos da fé, a religião corre o risco de ser transformada em ferramenta eleitoral.

E há uma contradição particularmente profunda nisso.

Jesus, nos Evangelhos, é apresentado como alguém que acolhe marginalizados, confronta hipocrisias, critica a exploração religiosa e coloca a dignidade humana no centro de sua mensagem. Portanto, utilizar o nome de Jesus para justificar ódio, perseguição, preconceito, humilhação ou desumanização do próximo exige uma reflexão muito séria.

É perfeitamente legítimo que pessoas religiosas participem da política.

O que não é saudável para a democracia é transformar Deus em cabo eleitoral.

Acorda, Brasil — mas acorde para a responsabilidade democrática

O Brasil não precisa escolher seus representantes movido pelo ódio.

Precisa escolher com consciência.

Não é necessário acreditar em um candidato para rejeitar uma mentira contra outro. Não é necessário gostar de um partido para defender o direito de seus adversários existirem politicamente. Não é necessário concordar com uma instituição para reconhecer sua importância dentro do Estado democrático de Direito.

O eleitor deve perguntar:

Qual é a fonte dessa informação?

Existe prova?

O vídeo é original ou produzido por inteligência artificial?

Outros veículos confiáveis confirmam a informação?

Existe investigação ou existe condenação?

Estou diante de uma denúncia ou de uma sentença apresentada como se já fosse definitiva?

Esse conteúdo pretende informar ou apenas despertar meu ódio?

Essas perguntas podem parecer simples, mas representam uma verdadeira defesa da democracia.

A campanha eleitoral pode ser intensa. Pode haver divergências profundas. Pode haver críticas severas. Pode haver denúncias legítimas e confrontos políticos contundentes.

Mas existe uma fronteira que não deveria ser ultrapassada: a substituição da verdade pela mentira e do adversário pelo inimigo a ser destruído.

O Brasil precisa de uma democracia na qual a direita possa existir, a esquerda possa existir, o centro possa existir, os progressistas possam existir, os conservadores possam existir e cidadãos independentes possam mudar de opinião sem serem perseguidos por isso.

Uma democracia plural não é aquela em que todos concordam.

É aquela em que ninguém precisa concordar para ter o direito de existir, votar, falar, discordar e participar da vida pública.

Por isso, o alerta mais importante para as eleições de 2026 não deveria ser “vote neste ou naquele”.

Deveria ser:

não entregue seu voto à mentira.

Investigue.

Compare fontes.

Desconfie de vídeos espetaculares.

Desconfie de acusações sem provas.

Desconfie de quem transforma todo adversário em demônio.

Desconfie de quem afirma possuir a verdade absoluta.

E, sobretudo, desconfie de qualquer projeto político que necessite destruir a dignidade de milhões de brasileiros para convencer seus seguidores de que somente um grupo merece governar.

A democracia não pertence à esquerda, à direita, ao centro, a um partido ou a um candidato.

A democracia pertence ao povo — e somente permanece viva quando o povo aprende a defendê-la também contra a mentira, o fanatismo, a intolerância e a desumanização do adversário.

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