20/10/26

As razões políticas e pessoais que a Senadora Soraya Thronicke atribui ao seu rompimento com Jair Bolsonaro e com o bolsonarismo, à luz da entrevista ao Podcast 3 Irmãos e dos registros públicos sobre a CPI Lava Toga e o caso das chamadas “rachadinhas”.

 Soraya Thronicke e o afastamento de Bolsonaro Resenha crítica e parecer jurídico informativo

Nota sobre a transcrição a baixo. Não vou reproduzir integralmente a entrevista. Mas, abaixo está uma síntese analítica dos pontos relevantes, com poucas citações curtas e atribuídas à entrevistada. A íntegra pode ser ouvida no episódio do Podcast 3 Irmãos e no trecho indicado.

Introdução 

A resposta mais consistente é que o afastamento de Soraya Thronicke não decorreu de um único episódio. Foi um processo: a senadora descreve que passou a desconfiar do bolsonarismo quando viu, em 2019, a diferença entre a retórica pública de combate a abusos e a atuação que ela atribui a Flávio Bolsonaro contra a CPI Lava Toga; anos depois, critica o radicalismo e a condução política do governo; e afirma que uma ameaça de exposição de informações íntimas sobre seu filho, durante a campanha de 2022, tornou o rompimento pessoal definitivo. Essa última acusação é grave, mas permanece, nas fontes públicas consultadas, como relato da própria Soraya, sem confirmação documental independente apresentada nas reportagens citadas.

A análise exige separar três planos. Um é o que Soraya diz ter vivido. Outro é o que a imprensa e os registros parlamentares confirmam como contexto. O terceiro é o que tribunais efetivamente decidiram. Confundi-los produz tanto propaganda quanto injustiça: transforma acusação em sentença ou, no sentido oposto, trata o arquivamento processual como prova de que nada aconteceu.

Resenha informativa:

Da aliança à ruptura Soraya foi eleita senadora por Mato Grosso do Sul em 2018 pelo PSL, partido de Jair Bolsonaro, e se apresentou na campanha como “a senadora do Bolsonaro”. No início do mandato, apoiava o governo. O registro parlamentar mostra que, em março de 2019, ela defendeu publicamente a CPI Lava Toga e disse que a comissão não deveria ser vista como “caça às bruxas”; ao mesmo tempo, afirmou que o “Governo Bolsonaro tem que dar certo”. Isso revela que, naquele momento, sua defesa da CPI coexistia com a expectativa de que o governo aliado prosperasse.

A CPI pretendia investigar denúncias e práticas atribuídas a tribunais superiores. O requerimento chegou ao mínimo constitucional de 27 assinaturas, mas acabou arquivado depois que senadores retiraram apoio e o pedido ficou com 25 signatários. Soraya figurava entre os signatários. A comissão não foi instalada.

No podcast, Soraya situa nesse episódio um momento de desconfiança: segundo a sua versão, Flávio Bolsonaro telefonou a ela aos gritos, com palavrões, para pressioná-la a retirar a assinatura. Ela diz que a atuação contrariava o discurso público de enfrentamento ao Judiciário e que ela e outros integrantes do então PSL começaram a questionar o bolsonarismo. O relato também sugere que Jair Bolsonaro poderia estar ouvindo uma ligação, mas a própria senadora apresenta esse ponto como impressão, não como fato que tenha presenciado diretamente.

Há, porém, uma divergência documental que deve ser exposta. Uma notícia contemporânea de 9 de setembro de 2019 registrou que Soraya, à época, negava ter recebido telefonemas de Flávio pedindo a retirada da assinatura. Em 2022, ela passou a relatar publicamente uma ligação aos gritos e a pressão contra a CPI. A divergência não permite concluir, por si só, que uma das versões seja falsa: pode haver diferença de contexto, formulação ou memória, mas é uma inconsistência que reduz a segurança com que se deve narrar o telefonema como fato comprovado.

O distanciamento também foi público e gradual. Em 2021, em entrevista à BBC, Soraya já criticava o “radicalismo” e o “fanatismo” de parte dos apoiadores de Bolsonaro e dizia não garantir apoio à reeleição dele. A reportagem relacionava o afastamento à sua rejeição a ataques contra instituições e ao extremismo político, além de registrar o abalo provocado pela pandemia. Assim, a explicação não se limita à disputa sobre a CPI ou ao conflito com Flávio: inclui uma ruptura ideológica mais ampla.

No episódio recente, Soraya acrescentou uma dimensão pessoal. Segundo reportagem sobre a entrevista, ela afirma que, durante a campanha presidencial de 2022, recebeu alerta de que pessoas ligadas à campanha de Bolsonaro poderiam divulgar informações privadas e imagens relativas à transição de gênero de seu filho. Ela relata que a ameaça a levou a protegê-lo e que esse episódio encerrou sua relação pessoal com Jair Bolsonaro. Trata-se de uma alegação atribuída à senadora; as reportagens consultadas não apresentam mensagem, gravação, documento ou confirmação independente que comprove a ameaça ou identifique quem a teria feito. Se verdadeira, seria uma tentativa gravíssima de usar a intimidade de um familiar como instrumento de pressão política.

A trajetória eleitoral confirma que a ruptura se consolidou publicamente: Soraya disputou a Presidência em 2022 pelo União Brasil, criticou Bolsonaro nos debates e, em 2026, tentou a reeleição ao Senado pelo PSB, mas terminou em quarto lugar e não foi reeleita. O resultado eleitoral não prova nem refuta as razões que ela apresenta; apenas situa o encerramento do mandato em janeiro de 2027.

Análise crítica das afirmações sobre peculato e “franquia”

Soraya usa expressões fortes para descrever o caso de Flávio, chamando-o de “rachadão” e caracterizando a prática como uma “franquia” associada ao pai e à família Bolsonaro. Ela também atribui à família um grande esquema de peculato. Essas formulações exprimem sua avaliação política e sua interpretação de episódios que, em parte, foram objeto de investigação. Não equivalem a uma conclusão judicial de que Jair Bolsonaro, Flávio e toda a família tenham participado de um único esquema organizado.

A imputação contra Flávio tinha base em suspeitas específicas de desvio de parte dos salários de assessores de seu antigo gabinete na Assembleia Legislativa do Rio, com Fabrício Queiroz apontado pelo Ministério Público como operador. Em 2020, o MP-RJ ofereceu denúncia por peculato, lavagem de dinheiro, apropriação indébita e organização criminosa. Flávio e Queiroz negaram as acusações. Em maio de 2022, o Tribunal de Justiça do Rio rejeitou a denúncia após o próprio Ministério Público pedir a extinção, porque provas centrais haviam sido anuladas pelo STJ e pelo STF. A rejeição ocorreu por falta de justa causa após a invalidação das provas; não houve julgamento do mérito que declarasse Flávio culpado, mas tampouco uma decisão probatória afirmando que os fatos investigados eram impossíveis ou nunca ocorreram.

A distinção é especialmente importante diante de fatos posteriores. Em 2026, o STF manteve, por decisão do ministro Gilmar Mendes, uma quebra de sigilos de uma ex-assessora em uma ação de improbidade administrativa distinta, relacionada a suspeitas em gabinete da Alerj. A decisão não reabriu a ação penal arquivada contra Flávio nem o declarou culpado; tratou de uma medida de produção de prova em outra ação e de fundamentos próprios.

Também existem procedimentos separados envolvendo o gabinete de Carlos Bolsonaro. Em 2024, o Ministério Público denunciou sete ex-assessores e arquivou a apuração criminal contra Carlos por falta de indícios suficientes de que valores tivessem ido para suas contas. Em 2026, a Justiça recebeu a denúncia contra os ex-assessores; segundo o G1, a investigação contra Carlos foi reaberta e continua em andamento, sem que ele esteja entre os réus daquela denúncia. Esses fatos justificam escrutínio público sobre práticas em gabinetes diferentes, mas não comprovam automaticamente uma organização familiar única nem a participação de Jair Bolsonaro.

A expressão “maior esquema de peculato” também carece de parâmetro comparativo demonstrado na entrevista ou nas fontes examinadas. “Rachadinha” descreve uma suspeita de retenção ou repasse de remuneração de servidores; peculato é um tipo penal com requisitos próprios. Para o Código Penal, peculato envolve funcionário público que se apropria ou desvia dinheiro ou bem de que tem posse em razão do cargo, em proveito próprio ou alheio. A qualificação jurídica depende de fatos provados, da função dos envolvidos, da origem e do destino dos valores e do elemento subjetivo. Não se pode converter a expressão política em diagnóstico criminal fechado.

Parecer jurídico informativo

1. Estado jurídico do caso Flávio. Com base nas fontes consultadas até 20 de outubro de 2026, a denúncia criminal de 2020 contra Flávio foi rejeitada em 2022 depois que provas relevantes foram anuladas. A rejeição por falta de justa causa não equivale a condenação nem a absolvição após exame integral do mérito. Segundo a cobertura do Valor, nova investigação seria juridicamente possível em tese, desde que amparada em provas independentes das invalidadas. O procedimento civil de improbidade envolvendo ex-assessora e os casos de ex-assessores de Carlos são processos diferentes; seus resultados não podem ser transplantados para concluir culpa ou inocência de Flávio, Jair ou de outros familiares.

2. Uso de “peculato” e imputação de crime. É legítimo que uma figura pública critique suspeitas de desvio de recursos e cobre investigação. Contudo, afirmar como fato que alguém praticou peculato exige base probatória e cuidado com o estágio processual. O Código Penal prevê calúnia para imputação falsa de fato definido como crime e difamação para atribuição de fato ofensivo à reputação; a Constituição protege simultaneamente liberdade de expressão, honra, imagem e direito de resposta. O contexto político e o interesse público pesam na avaliação, mas não tornam qualquer acusação imune a consequências civis ou penais. Este parecer não conclui que Soraya cometeu ilícito: isso exigiria análise do conteúdo exato, intenção, contexto, provas e eventual decisão judicial.

3. Imunidade parlamentar. A Constituição protege opiniões, palavras e votos de deputados e senadores, mas não é prudente presumir que toda fala dada em entrevista ou podcast esteja automaticamente coberta por imunidade. A aplicação depende da relação da manifestação com o exercício do mandato e do contexto concreto. O próprio fato de Soraya ser senadora não transforma, sem exame jurídico, toda afirmação extramuros em pronunciamento parlamentar protegido.

4. Alegação sobre o filho e intimidade. A divulgação, ou a ameaça de divulgação, de informação sensível de familiar para pressionar uma adversária política, se comprovada, levantaria questões sérias de privacidade, honra e dignidade. Mas a afirmação pública de que isso ocorreu também deve permanecer claramente atribuída a Soraya enquanto não houver prova independente ou decisão competente. O filho não deve ser exposto nem tratado como objeto de disputa partidária; a relevância pública está na alegada instrumentalização da intimidade, não em detalhes pessoais sobre sua vida.

Conclusão jurídica.

As fontes sustentam que houve uma investigação criminal relevante contra Flávio e que ela terminou sem julgamento de mérito por problemas de legalidade das provas. Sustentam também a existência de investigações e ações separadas relativas a ex-assessores em outros gabinetes. Elas não sustentam, por si sós, a afirmação de uma “franquia” criminosa coordenada por Jair Bolsonaro e envolvendo toda a família. A formulação juridicamente responsável é: Soraya acusa; há antecedentes investigativos e fatos processuais que justificam escrutínio; a responsabilidade individual e eventual coordenação familiar precisam de prova e decisão judicial.

Conclusão

A história pública de Soraya aponta para um afastamento em camadas: o choque entre discurso e bastidores que ela atribui ao episódio da Lava Toga; a rejeição crescente ao extremismo e aos ataques institucionais; e, em 2022, a alegada ameaça de expor a intimidade de seu filho, que ela descreve como ponto final pessoal. O conjunto ajuda a entender por que se afastou, mas não transforma cada lembrança ou acusação em fato judicialmente provado.

Não esquecer a história política recente é essencial, sobretudo quando decisões públicas podem atingir pessoas vulneráveis. A CPI da Pandemia examinou ações e omissões do governo federal no enfrentamento da Covid-19 e encaminhou conclusões e pedidos de responsabilização; isso é um registro político-parlamentar importante, embora não substitua sentenças judiciais. O debate sobre o uso da intimidade de uma pessoa trans como arma eleitoral, se a alegação de Soraya for confirmada, também exige defesa firme da privacidade e da dignidade humana. A cobrança democrática deve ser dupla: memória e responsabilização para todos os agentes públicos, com provas, devido processo e sem transformar suspeitas em vereditos antecipados.

Minha Opinião

Opinião crítica

No episódio do [Podcast 3 Irmãos] (https://www.youtube.com/watch?v=yx6-np6zzeY&t=329s), Soraya Thronicke relata que Flávio Bolsonaro teria telefonado a ela aos gritos para pressioná-la a retirar a assinatura da CPI da Lava Toga. Ela também critica o uso do diminutivo “rachadinha” e descreve o suposto esquema como algo mais amplo, que envolveria familiares de Jair Bolsonaro. São alegações graves — e devem ser tratadas como declarações de Soraya, não como fatos comprovados por si só.

Há registros divergentes sobre a ligação: a senadora Juíza Selma disse em 2019 que Flávio também teria telefonado a Soraya; já o Estadão noticiou, dias antes, que Soraya e Major Olímpio negaram ter sido procurados por ele naquela ocasião. [Jovem Pan] (https://jovempan.com.br/noticias/juiza-selma-explica-polemica-com-flavio-bolsonaro-e-a-cpi-da-lava-toga.html) [Estadão](https://www.estadao.com.br/politica/psl-escala-flavio-bolsonaro-para-desarticular-cpi-da-lava-toga/)

O relato de Soraya Thronicke sobre sua ruptura com o bolsonarismo aponta uma contradição que merece ser examinada: o discurso de enfrentamento ao Supremo, segundo ela, não teria impedido tentativas de barrar a CPI da Lava Toga quando a investigação poderia afetar interesses próximos ao grupo. Ela também acusa a família Bolsonaro de envolvimento mais amplo em supostos desvios de salários. São declarações graves e politicamente relevantes, mas precisam ser tratadas como alegações atribuídas a Soraya, não como fatos comprovados. A denúncia contra Flávio Bolsonaro no caso das rachadinhas foi rejeitada pela Justiça do Rio em 2022, depois que provas usadas na acusação foram anuladas.

Advertência

Uma acusação não equivale a uma condenação. No caso da denúncia contra Flávio Bolsonaro sobre supostas rachadinhas, o Tribunal de Justiça do Rio a rejeitou em 2022, após provas usadas pelo Ministério Público serem anuladas pelo STJ e pelo STF. Portanto, é impreciso apresentar o caso como condenação ou culpa judicialmente estabelecida. [Agência Brasil] (https://agenciabrasil.ebc.com.br/politica/noticia/2022-05/justica-do-rio-arquiva-processo-de-caso-de-supostas-rachadinhas) [Valor](https://valor.globo.com/politica/eleicoes-2026/noticia/2026/10/18/flavio-bolsonaro-relembre-o-processo-da-rachadinha.ghtml)

A indignação não pode substituir a apuração. É preciso cobrar explicações de todos os envolvidos e distinguir relatos, suspeitas e decisões judiciais. Também há versões diferentes sobre a suposta ligação de Flávio: Juíza Selma afirmou em 2019 que ele teria telefonado a Soraya, enquanto o Estadão registrou que Soraya negou ter sido procurada naquela rodada específica da CPI. 

Solução óbvia

A solução é simples de enunciar, embora exija compromisso para ser cumprida: investigar com independência, exigir transparência e aplicar as mesmas regras a aliados e adversários. A população precisa de instituições que apurem denúncias com provas legais, sem blindagens políticas e sem condenações feitas apenas no debate público.

O caminho responsável é exigir investigação independente, provas obtidas legalmente e prestação de contas de todos os agentes públicos — sem proteger aliados, mas também sem transformar suspeitas em vereditos. A CPI da Lava Toga foi defendida por Soraya em pronunciamento oficial no Senado, em 2019. [Senado Federal] (https://www25.senado.leg.br/web/atividade/pronunciamentos/-/p/pronunciamento/451733)

No podcast, Soraya apresenta a ruptura como resultado de uma perda de confiança no bolsonarismo, que, segundo ela, começou ainda, como disse acima, na CPI da Lava Toga:

·         Contradição sobre o STF: ela diz que o grupo bolsonarista criticava o Supremo, mas que Flávio Bolsonaro teria tentado impedir a CPI da Lava Toga. Soraya relata que ele ligou aos gritos pedindo que ela retirasse a assinatura e alegou que a CPI seria contra ele e prejudicaria o governo.

·         Desconfiança sobre os motivos: na interpretação dela, esse episódio expôs uma diferença entre o discurso público contra o STF e os interesses da família Bolsonaro em relação a processos judiciais.

·         Críticas à “rachadinha”: Soraya rejeita o diminutivo e caracteriza o suposto desvio de salários como algo mais amplo, que, segundo ela, envolveria outras pessoas da família. Essas são acusações feitas por ela, não conclusões judiciais.

·         Conflito pessoal: ela também relatou ter recebido ameaças relacionadas à exposição da transição de gênero de seu filho durante a campanha de 2022, episódio que teria aumentado sua ruptura com Jair Bolsonaro e seu entorno. Congresso em Foco

Em resumo, a explicação dela combina divergência política, suspeita de incoerência entre discurso e prática e uma experiência pessoal que descreveu como ameaça. A versão completa está no episódio do podcast. Há relatos divergentes sobre a ligação de Flávio: a senadora Juíza Selma afirmou em 2019 que ele também telefonou a Soraya, enquanto uma reportagem do Estadão registrou que Soraya negou ter sido procurada naquela rodada específica. Jovem Pan Estadão

Comentário final

Enquanto lideranças disputam poder e trocam acusações, os mais vulneráveis continuam dependendo de serviços públicos, renda, saúde e proteção que muitas vezes não chegam. Por isso, lembrar episódios controversos da política não deve servir apenas para alimentar rivalidades: deve reforçar a cobrança por responsabilidade pública e por políticas que protejam quem tem menos voz e menos recursos.

A fala de uma ex-aliada pode reacender a discussão, mas não substitui prova nem dispensa memória crítica. Quem se esqueceu do que essa família fez — ou é acusada de ter feito — deve voltar aos fatos, cobrar apuração e pensar especialmente em quem mais sofre quando a política falha: as pessoas vulneráveis.

Opinião do Prof. Music. Antônio Sanceí

Referências


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