TEMA
Os perigos do messianismo político-religioso:
quando Jair Bolsonaro é apresentado por determinados líderes religiosos como
“escolhido por Deus” para salvar o Brasil de um suposto mal.
INTRODUÇÃO
Uma democracia pode conviver perfeitamente com pessoas
religiosas, igrejas politicamente atuantes e cidadãos que votam de acordo com
suas convicções de fé. O problema começa quando uma preferência
política deixa de ser apresentada como escolha humana e passa a ser apresentada
como vontade incontestável de Deus.
É nesse ponto que a política corre o risco de adquirir
características messiânicas: o candidato deixa de ser apenas um cidadão
disputando votos e passa a ser apresentado como “ungido”, “salvador”,
“escolhido” ou instrumento divino contra aqueles que são definidos como
inimigos.
Não é correto afirmar que todos os neopentecostais
defendem essa concepção. Tampouco todos os evangélicos apoiam Jair Bolsonaro ou
a extrema direita. Estudos acadêmicos mostram, entretanto, que o apoio
de lideranças religiosas pode exercer influência significativa sobre o
comportamento eleitoral, especialmente entre eleitores evangélicos.
Pesquisa publicada na Revista Brasileira de Ciência Política encontrou
evidências de que mensagens de apoio de lideranças religiosas aumentaram a
probabilidade de voto em Bolsonaro em 2022.
Portanto, a questão não é atacar uma religião. É
discutir criticamente o uso político da autoridade religiosa e a
transformação da fé em instrumento de legitimação absoluta de um projeto de
poder.
AMPLA DESCRIÇÃO
O fenômeno do messianismo político não nasceu no Brasil
e tampouco pertence exclusivamente a uma religião.
Em diferentes períodos históricos, movimentos políticos
procuraram apresentar seus líderes como figuras excepcionais destinadas a
restaurar a grandeza nacional, combater um suposto inimigo e conduzir o povo a
uma espécie de redenção.
No Brasil contemporâneo, parte da direita radical
construiu uma narrativa na qual Jair Bolsonaro deixou de ser tratado apenas
como político conservador e passou a ocupar, para determinados grupos, uma
posição quase simbólica de “salvador da pátria”.
Quando alguém afirma que Bolsonaro é “o
escolhido por Deus”, existe aí uma mudança perigosa de categoria: a
discussão deixa de ser sobre propostas, instituições, resultados de governo,
ética pública e respeito constitucional e passa a ser sobre uma suposta missão
divina.
E se o líder é considerado escolhido por Deus, surge uma
consequência lógica igualmente perigosa: quem se opõe a ele pode passar
a ser interpretado não simplesmente como adversário político, mas como inimigo
da própria vontade divina.
É justamente esse mecanismo que merece atenção.
A literatura acadêmica já identificou elementos de
messianismo em pronunciamentos de Jair Bolsonaro, especialmente na articulação
entre identidade religiosa, nacionalismo, conservadorismo moral e a ideia de
uma vitória política apresentada em termos quase redentores.
Isso não significa que Bolsonaro seja literalmente um
líder religioso, nem que todos os seus eleitores adotem essa visão. Significa
que existem elementos discursivos capazes de aproximar política,
religião, identidade nacional e a figura de um líder providencial.
A PERIGOSA SACRALIZAÇÃO DO POLÍTICO
A democracia estabelece uma regra fundamental: nenhum
governante está acima da Constituição, das instituições ou da vontade popular
expressa dentro das regras eleitorais.
Um presidente pode ser conservador, progressista,
liberal, socialista, nacionalista ou qualquer outra coisa. Pode receber apoio
de milhões de pessoas. Pode até ser considerado excelente por seus admiradores.
Mas não pode ser transformado em autoridade moral
absoluta simplesmente porque determinados líderes religiosos afirmam que Deus o
escolheu.
A fé pertence à consciência do indivíduo.
O Estado pertence a todos.
E o voto pertence ao cidadão.
Quando alguém transforma seu candidato em instrumento
exclusivo de Deus, o debate democrático corre o risco de ser substituído pela
lógica:
“Se você é contra meu candidato, você é contra
Deus.”
Essa é uma das formas mais perigosas de intolerância
política porque elimina a possibilidade de discordância legítima.
A COMPARAÇÃO COM HITLER: UMA ANALOGIA QUE PRECISA SER FEITA COM CUIDADO
A comparação com Adolf Hitler exige responsabilidade
histórica.
Não seria correto afirmar que Bolsonaro e Hitler são
equivalentes ou que o Brasil contemporâneo seja a Alemanha nazista. As
circunstâncias históricas, institucionais, ideológicas e sociais são
profundamente diferentes.
Entretanto, é legítimo comparar determinados
mecanismos de propaganda e construção do líder.
O nazismo desenvolveu aquilo que historiadores denominam
“culto ao Führer”: Hitler foi apresentado pela propaganda como
líder supremo, salvador e figura indispensável à Alemanha. O Museu Memorial do
Holocausto dos Estados Unidos registra expressamente a existência desse culto,
descrevendo a glorificação de Hitler como líder de guerra e “salvador” da
Alemanha.
Ao mesmo tempo, a propaganda nazista construiu uma
figura de inimigo.
Os judeus foram transformados pelos nazistas no
principal inimigo da chamada comunidade nacional alemã. A propaganda procurava
apresentar os judeus como ameaça à cultura, à economia e à própria
sobrevivência da Alemanha.
É nesse mecanismo, e não numa
equivalência histórica entre Hitler e Bolsonaro, que a comparação pode ser
intelectualmente útil:
líder apresentado como salvador + povo
apresentado como vítima + inimigo apresentado como origem de todos os males +
propaganda transformando a disputa política em batalha moral absoluta.
Esse mecanismo pode aparecer em diferentes ideologias e
períodos históricos.
E justamente por isso deve ser combatido
independentemente de quem esteja utilizando-o.
DO “SALVADOR” AO “INIMIGO”
O problema mais grave do messianismo político não está
apenas em glorificar o líder.
Está na necessidade de criar um inimigo.
No nazismo, a propaganda definiu grupos inteiros como
ameaça existencial. Os judeus foram colocados no centro dessa construção e
posteriormente submetidos a perseguição sistemática e genocídio.
No Brasil contemporâneo, determinados setores
radicalizados passaram a utilizar expressões como “comunistas”, “esquerdistas”,
“petistas”, “globalistas”, “inimigos da família” ou outros rótulos para
produzir uma divisão moral entre “nós” e “eles”.
É preciso deixar claro: criticar o PT, Lula, a
esquerda ou qualquer outra corrente política é perfeitamente legítimo.
O problema aparece quando milhões de cidadãos são
transformados em inimigos da pátria simplesmente por pensarem diferente.
A democracia não exige que ninguém goste de Lula.
Também não exige que ninguém goste de Bolsonaro.
Ela exige que todos reconheçam o direito do outro de
existir politicamente.
O 8 DE JANEIRO E A LINHA QUE NÃO PODE SER ULTRAPASSADA
É impossível analisar a radicalização política
brasileira sem lembrar o 8 de janeiro de 2023.
Naquele dia, manifestantes invadiram e depredaram as
sedes dos Três Poderes em Brasília. O próprio STF registra que houve destruição
do patrimônio público e que os processos judiciais analisaram individualmente a
participação dos envolvidos.
A CPMI do Senado também documentou a invasão e
depredação dos edifícios do Congresso Nacional, Supremo Tribunal Federal e
Palácio do Planalto, além de registrar manifestações anteriores defendendo
intervenção militar e tomada do poder.
Portanto, não é correto transformar todos os
manifestantes, apoiadores ou eleitores de direita em “golpistas”. Isso seria
uma generalização injusta.
Mas também é incorreto negar que parte dos participantes
dos atos defendia ruptura institucional.
O STF, em diferentes julgamentos, registrou que alguns
réus foram condenados por crimes como associação criminosa armada, abolição
violenta do Estado Democrático de Direito, tentativa de golpe de Estado, dano
qualificado e deterioração de patrimônio tombado.
Consequentemente, afirmar que todos os presos do
8 de janeiro são inocentes é uma afirmação que precisa ser confrontada
com os processos individuais e as decisões judiciais existentes.
Isso não significa que não se possa discutir penas,
critérios jurídicos, individualização das condutas ou proporcionalidade das
punições.
Pode e deve haver debate jurídico.
Mas uma coisa é defender revisão de penas ou anistia por
razões políticas ou jurídicas.
Outra é simplesmente apagar os acontecimentos de 8 de
janeiro da história.
“INTERVENÇÃO MILITAR JÁ” E “AI-5 JÁ”
Aqui existe outro ponto fundamental.
Defender eleitoralmente uma ideologia de direita é
legítimo.
Defender reformas constitucionais dentro das regras
democráticas também.
Entretanto, pedir intervenção militar para retirar do
poder um governo constitucionalmente eleito representa outra coisa.
O próprio STF registrou, em julgamentos relacionados ao
8 de janeiro, que pedidos de intervenção militar estavam associados à intenção
de derrubar o governo democraticamente eleito em 2022.
O problema do grito “AI-5 já” é ainda
mais simbólico.
O AI-5, decretado durante a ditadura militar,
representou um dos momentos mais autoritários da história política brasileira,
ampliando drasticamente os poderes repressivos do regime.
Portanto, transformar “AI-5” em palavra de ordem não é
uma manifestação democrática comum.
É uma defesa simbólica de instrumentos associados à
ruptura das liberdades políticas e institucionais.
AS ELEIÇÕES DE 2026 E O AVANÇO DA DIREITA
O primeiro turno das Eleições Gerais de 2026 ocorreu em 4
de outubro, conforme o calendário oficial do TSE.
Os resultados confirmaram uma forte presença da direita
e do campo bolsonarista em diferentes disputas. A imprensa especializada
descreveu o resultado como uma importante expansão da direita no Congresso e
nos governos estaduais.
Mas precisamos fazer uma distinção fundamental:
crescimento eleitoral da direita não é sinônimo
de crescimento do fascismo.
Milhões de pessoas podem votar na direita por razões
econômicas, religiosas, culturais, morais, administrativas ou simplesmente por
rejeição à esquerda.
Essas pessoas não podem ser automaticamente
classificadas como fascistas.
O problema começa quando determinados grupos defendem autoritarismo,
ruptura institucional, perseguição política, eliminação do adversário,
violência ou concentração ilimitada de poder.
É aí que a crítica democrática precisa ser firme.
REFUTAÇÃO: “DEUS ESCOLHE GOVERNANTES”
Alguém poderia argumentar:
“Mas a Bíblia diz que Deus estabelece autoridades.”
Mesmo que alguém interprete determinadas passagens
bíblicas dessa maneira, isso não autoriza uma liderança religiosa a declarar
que determinado candidato é “o escolhido de Deus” e, a partir
daí, exigir obediência política dos fiéis.
Uma coisa é acreditar que Deus atua na história.
Outra completamente diferente é afirmar:
“Deus escolheu este candidato, portanto quem
vota contra ele está contra Deus.”
Essa segunda afirmação transforma uma interpretação
religiosa particular em mecanismo de poder político.
E existe aí uma contradição com a própria pluralidade
religiosa brasileira.
O Brasil possui católicos, evangélicos de inúmeras
denominações, espíritas, religiões afro-brasileiras, judeus, muçulmanos,
pessoas de outras tradições e também milhões de pessoas sem religião.
Nenhum grupo religioso possui o direito de transformar
sua interpretação particular da vontade divina em obrigação eleitoral para toda
a sociedade.
O VERDADEIRO PERIGO
O maior perigo não é um candidato receber apoio de
religiosos.
Isso acontece em qualquer democracia.
O perigo é quando a religião deixa de oferecer
princípios éticos para a vida pública e passa a funcionar como instrumento
de sacralização do poder.
Quando o líder é apresentado como enviado por Deus, suas
falhas podem ser relativizadas.
Quando o adversário é apresentado como instrumento do
mal, suas virtudes podem ser ignoradas.
Quando a oposição passa a ser considerada pecado, a
democracia começa a perder espaço.
E quando a violência política passa a ser apresentada
como defesa da fé, temos ultrapassado uma fronteira extremamente perigosa.
ANÁLISE INFORMATIVA
Os dados disponíveis permitem afirmar algumas coisas com
segurança.
Primeiro: há influência política de lideranças
religiosas sobre parte do eleitorado, e estudos acadêmicos identificam
essa relação no voto evangélico em Bolsonaro.
Segundo: existem elementos messiânicos
identificados academicamente no discurso político de Bolsonaro,
especialmente na combinação entre nacionalismo, religião, conservadorismo e uma
narrativa de enfrentamento do inimigo.
Terceiro: a propaganda nazista utilizou
mecanismos de culto ao líder e construção sistemática de inimigos,
culminando numa política genocida contra os judeus e outros grupos perseguidos.
Quarto: o 8 de janeiro foi uma ruptura violenta
contra as sedes dos Três Poderes, e existem decisões judiciais
condenando participantes por crimes relacionados à tentativa de abolição
violenta do Estado Democrático de Direito e tentativa de golpe de Estado.
Quinto: o crescimento eleitoral da direita em
2026 não permite, sozinho, concluir que todo eleitor de direita seja extremista
ou fascista. A análise precisa distinguir conservadorismo democrático
de autoritarismo e extremismo.
CONCLUSÃO E ADVERTÊNCIA
Minha crítica não é contra o cristianismo.
Não é contra os evangélicos.
Não é contra os neopentecostais enquanto grupo
religioso.
E também não é contra o direito de qualquer cidadão
votar em Jair Bolsonaro, em seus aliados ou em qualquer outro candidato.
Minha crítica é contra a transformação de um político em
objeto de veneração política.
Nenhum presidente é Messias.
Nenhum candidato é Deus.
Nenhum partido possui monopólio sobre a pátria.
Nenhum eleitor é dono da verdade.
E nenhum líder religioso deveria utilizar a autoridade
espiritual para convencer seus fiéis de que determinado político foi
pessoalmente escolhido por Deus para derrotar um suposto “mal”.
A história demonstra que a combinação entre líder
salvador, inimigo absoluto, propaganda política e fanatismo pode
produzir consequências devastadoras.
Por isso, a comparação com o nazismo deve servir como advertência
histórica, e não como arma de propaganda.
O Brasil precisa aprender com a história antes que a
história precise voltar a nos ensinar pela tragédia.
O verdadeiro patriotismo não consiste em obedecer
cegamente a um líder.
Consiste em defender o país, sua Constituição, suas
instituições, suas liberdades e a dignidade de todos os brasileiros — inclusive
daqueles que votam diferente de nós.
DEUS NÃO PRECISA DE CANDIDATO.
A FÉ NÃO PRECISA DE PARTIDO.
E A DEMOCRACIA NÃO PRECISA DE SALVADOR.
Ela precisa de cidadãos conscientes, instituições fortes
e respeito à liberdade de cada brasileiro escolher seu próprio caminho.
Uma Análise Crítica: O Perigo do Messianismo
Político e o Avanço do Extremismo no Brasil
MINHA OPINIÃO CRÍTICA E ADVERTÊNCIA: QUANDO A FÉ É TRANSFORMADA EM
INSTRUMENTO DE POLÍTICA
Minha opinião é de que precisamos tratar com muita
responsabilidade a utilização da religião para apresentar determinado político
como se fosse um “escolhido por Deus” para salvar o Brasil de um suposto “mal”.
Quando alguns líderes religiosos afirmam que Jair
Bolsonaro seria escolhido por Deus para livrar o país de seus inimigos
políticos, acredito que estamos diante de uma perigosa mistura entre fé,
messianismo político e radicalização ideológica.
Não questiono a fé de nenhum cidadão, tampouco o direito
de cristãos, evangélicos, católicos ou pessoas de qualquer religião terem suas
preferências políticas. Em uma democracia, cada pessoa é livre para acreditar,
votar e defender suas convicções.
Minha crítica é dirigida à transformação de um político
em uma espécie de salvador nacional e à utilização do nome de Deus para
legitimar uma determinada corrente política, demonizando aqueles que pensam
diferente.
QUANDO O POLÍTICO PASSA A SER TRATADO COMO “ESCOLHIDO”
A história demonstra que o culto político à personalidade
pode se tornar extremamente perigoso quando o líder passa a ser apresentado não
apenas como um representante eleito, mas como alguém que teria uma missão
superior, quase sagrada.
É nesse ponto que faço uma comparação histórica com o
nazismo — não para dizer que o Brasil atual seja a Alemanha nazista, mas para
lembrar que sociedades podem ser conduzidas à radicalização quando determinado
líder passa a ser apresentado como aquele que supostamente salvará a nação de
seus “inimigos”.
Na Alemanha nazista, Adolf Hitler foi associado a uma
visão messiânica e nacionalista de salvação da Alemanha. Ao mesmo tempo, judeus
e outros grupos foram transformados em bodes expiatórios e apresentados pela
propaganda nazista como inimigos da nação.
Essa experiência histórica precisa ser lembrada
justamente para compreendermos os perigos da desumanização política.
Nenhum brasileiro deveria ser transformado em inimigo
simplesmente porque vota em Lula, Bolsonaro, no centro, na esquerda, na direita
ou em qualquer outra corrente política.
O PERIGO DA “GUERRA DO BEM CONTRA O MAL”
Quando a política passa a ser apresentada como uma
guerra entre o “bem” e o “mal”, desaparece o espaço para o diálogo.
O adversário deixa de ser um cidadão com outra opinião e
passa a ser tratado como inimigo moral, inimigo da família, inimigo da pátria
ou até inimigo de Deus.
É aí que a democracia começa a adoecer.
Uma coisa é um eleitor acreditar sinceramente que
determinado candidato representa os melhores valores para o país. Outra,
completamente diferente, é afirmar que Deus teria escolhido esse candidato e
que aqueles que discordam estariam, consequentemente, contra a vontade divina.
Nenhum político deveria receber uma espécie de
certificado religioso de infalibilidade.
Político não é profeta.
Presidente não é messias.
Partido político não é igreja.
E eleição não é batalha espiritual.
O 8 DE JANEIRO E A DEFESA DA DEMOCRACIA
Minha preocupação aumenta quando essa visão política se
combina com discursos que relativizam os acontecimentos de 8 de janeiro de
2023.
Naquele dia, manifestantes invadiram e depredaram as
sedes do Congresso Nacional, do Supremo Tribunal Federal e do Palácio do
Planalto. O próprio STF registra que houve ações penais contra participantes
dos atos e condenações por crimes relacionados à tentativa de abolir
violentamente o Estado Democrático de Direito, tentativa de golpe de Estado,
associação criminosa e danos ao patrimônio.
Também é importante lembrar que os processos devem
respeitar o devido processo legal e que cada acusado deve ser responsabilizado
de acordo com sua participação e pelas provas existentes.
Portanto, defender a democracia não significa defender
injustiças.
Mas também não significa apagar aquilo que aconteceu.
As imagens da depredação dos prédios públicos, das obras
de arte destruídas, dos móveis quebrados e da invasão das instituições
democráticas fazem parte da história recente do Brasil.
E os gritos por “Intervenção Militar já” e “AI-5 já” não
podem ser tratados como simples manifestações políticas inocentes quando inseridos
em um contexto de ruptura institucional.
A democracia permite protestar.
A democracia permite criticar o governo.
A democracia permite criticar o Supremo Tribunal
Federal, o Congresso Nacional, o presidente da República e qualquer autoridade
pública.
Mas democracia não significa autorização para destruir
instituições ou tentar substituir o resultado das urnas pela força.
O RESULTADO DAS ELEIÇÕES DE 2026 E O ALERTA DEMOCRÁTICO
As eleições de 4 de outubro de 2026 demonstraram que as
forças políticas associadas à direita e à extrema direita continuam possuindo
forte capacidade eleitoral no Brasil. O próprio Tribunal Superior Eleitoral
disponibilizou a totalização dos resultados das eleições gerais de 2026 após o
encerramento da votação.
Isso precisa ser compreendido democraticamente.
Se candidatos de direita ou extrema direita foram
escolhidos pelo voto popular, seus mandatos devem ser respeitados dentro da
Constituição.
Mas o mesmo princípio vale para qualquer político
eleito: ganhar uma eleição não significa receber autorização para destruir a
democracia, atacar instituições ou retirar direitos de quem pensa diferente.
O voto popular é legítimo.
O autoritarismo, não.
MINHA ADVERTÊNCIA
Minha advertência é especialmente dirigida aos líderes
religiosos que utilizam a autoridade espiritual para transformar preferências
políticas em supostas determinações divinas.
É preciso ter muito cuidado.
Quando um pastor, bispo, líder religioso ou
influenciador afirma que determinado político é “o escolhido por Deus”, ele
pode estar ultrapassando a fronteira entre sua liberdade religiosa e a
instrumentalização política da fé.
E quando seus seguidores passam a acreditar que combater
o adversário político significa combater o próprio mal, abre-se uma porta
perigosa para a intolerância.
Não devemos permitir que o Brasil seja dividido entre
“salvos” e “condenados” pela preferência política.
Cristãos podem ser de esquerda, centro ou direita.
Cristãos podem votar em Lula.
Cristãos podem votar em Bolsonaro.
Cristãos podem votar em qualquer candidato que
considerem melhor.
E ninguém deveria ser considerado menos cristão, menos
brasileiro ou menos digno por causa disso.
REFLEXÃO FINAL
Eu não acredito que Deus precise de partido político.
Não acredito que Deus precise de candidato.
E não acredito que nenhum ser humano possa declarar-se
porta-voz exclusivo da vontade divina para justificar suas escolhas eleitorais.
A fé pertence à consciência de cada pessoa.
A política pertence ao debate democrático.
E o Estado pertence a todos os brasileiros.
Por isso, precisamos combater tanto o extremismo de
direita quanto qualquer outra forma de extremismo que tente destruir o diálogo
democrático.
Precisamos aprender novamente a discordar sem odiar.
Precisamos aprender a criticar sem desumanizar.
Precisamos aprender a votar sem transformar o adversário
em inimigo.
E, principalmente, precisamos compreender que nenhum
político — seja de esquerda, centro ou direita — está acima da Constituição,
das instituições e da vontade popular expressa democraticamente.
A VERDADE SEJA DITA
Não transformemos políticos em santos,
adversários em demônios e eleições em guerras religiosas.
O Brasil precisa de cidadãos conscientes, instituições
fortes, liberdade religiosa, respeito às diferenças e, acima de tudo,
democracia.
Deus não precisa de um candidato para ser Deus.
E a democracia não precisa de um salvador.
A instrumentalização da fé para fins políticos e o endeusamento de figuras
públicas representam uma das mais graves ameaças à democracia e à própria
essência do sagrado. Afirmar que uma liderança política é "o escolhido por
Deus" para salvar a nação não é apenas um delírio teológico, mas uma
manipulação perigosa que desumaniza o debate público e transforma divergências
políticas em uma luta cósmica entre o bem e o mal.
Essa estratégia, adotada por setores do
neopentecostalismo alinhados à extrema direita, ecoa paralelos históricos
sombrios. No século XX, a retórica nazista também elevou Adolf Hitler à
condição de salvador enviado pela Providência Divina para expurgar a Alemanha
de um suposto "mal" encarnado pelo povo judeu. A história demonstra que,
quando líderes se colocam acima de qualquer questionamento sob o manto da
santidade, o pluralismo é sufocado e abre-se espaço para a barbárie.
Advertência
A crença cega em um "mito" político isenta o
cidadão do senso crítico e o torna massa de manobra para projetos de poder
autoritários. Quando a religião é sequestrada por interesses
político-partidários, corrompe-se tanto a fé quanto a República. A tolerância
com discursos antidemocráticos sob o disfarce de liberdade religiosa ou de
expressão é um caminho sem volta para a erosão das instituições democráticas. O
fanatismo cego impede a sociedade de enxergar a corrupção e os abusos cometidos
por aqueles que se autoproclamam baluartes da moralidade.
Comentário Final
O avanço eleitoral de forças extremistas e golpistas —
evidenciado no pleito recente — revela que essa ferida na democracia brasileira
continua aberta e em expansão. É alarmante que parlamentares eleitos sob a
bandeira do extremismo já coloquem como prioridade a anistia aos golpistas do
dia 8 de janeiro de 2023, tentando reescrever a história e naturalizar atos de
vandalismo e traição à pátria.
A tentativa de absolver aqueles que invadiram e
depredaram as sedes dos Três Poderes ao som de gritos por "Intervenção
Militar" e "AI-5" é um escárnio contra o Estado Democrático de
Direito. Se a sociedade brasileira falhar em responsabilizar os mentores,
financiadores e executores dessas tentativas de golpe, estará assinando a
permissão para a repetição de tragédias institucionais. A vigilância e a defesa
intransigente da democracia nunca foram tão urgentes.
FONTES E REFERÊNCIAS
- Tribunal
Superior Eleitoral — calendário e resultados das Eleições Gerais de 2026.
- Supremo
Tribunal Federal — processos e condenações relacionados aos atos de 8 de
janeiro de 2023.
- Senado
Federal — relatório da CPMI dos atos de 8 de janeiro.
- Revista Brasileira de Ciência Política /
SciELO — estudos sobre liderança religiosa e voto em Bolsonaro.
- DELTA / SciELO — estudo
acadêmico sobre elementos de messianismo nos pronunciamentos de Jair
Bolsonaro.
- United States Holocaust Memorial Museum — estudos sobre propaganda nazista, culto ao Führer, construção do inimigo e perseguição aos judeus.




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